As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A luta contra o terrorismo – os Estados Unidos e os amigos talibãs

Terry Winters, título desconhecido, 2000
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por RAFAEL R. IORIS*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Reginaldo Nasser

A Guerra Fria chegou ao fim em meio ‘a narrativa de que a própria história teria chegado ao fim já que não haveria a possibilidade de projetos alternativos de sociedade frente ‘a lógica neoliberal em expansão. Quem vislumbrasse o mundo no final dos anos 1990 teria mesmo a sensação de viver em uma realidade unipolar definida por uma única potência militar, econômica, tecnológica e cultural que se projetava cada vez como modelo hegemônico para todos.

Mas quem presenciou o que ocorreu nas duas primeiras décadas do século XXI – visto nos anos 1990 como o cenário quando a humanidade iria, por fim, irmanar-se em torno de causas comuns como uma verdadeira “aldeia global” – viu que tal promessa, autoproclamada pelos chefes políticos de Washington e chefes tecnológicos do Vale do Silício, não só não se confirmariam, mas seria substituída pela rivalidade e imprevisibilidade crescentes que ajudam a definir o atual cenário global.

Explicar o curso dramático das transformações globais, centradas na trajetória dos Estados Unidos, ao longo dos últimos 20 anos é tarefa complexa e ainda em construção. É, portanto, mais que bem-vinda a publicação recente do livro A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs, de Reginaldo Nasser, um dos maiores especialistas em temas ligados ao Oriente Médio em nosso país, e que oferece a melhor análise feita no Brasil sobre como a maior potência militar história viria a se enredar de tal modo no Afeganistão, conhecido como “cemitério de impérios”, a ponto não só de gastar trilhões de dólares na sua inglória, mal definida e arrogante Guerra ao Terror, mas também de acabar por se retirar de forma desastrosa do país, retornando o controle do mesmo ao próprio grupo que tinha retirado do poder poucos meses após o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001.

Ao analisar os desdobramentos domésticos e em política externa de tais eventos, Nasser sabiamente não simplifica a narrativa e demonstra com esmero as complexidades existentes entre as políticas e discussões envoltas na Guerra ao Terror em geral, e os eventos ligados diretamente ao talibã – grupo gerado no vizinho Paquistão, um dos países mais instáveis do mundo e que sempre articulou um jogo duplo com os Estados Unidos –, que não tinha nada a ver diretamente com o 11 de setembro, mas que acabou se tornando o único foco plausível (já que a invasão ao Iraque seria desde o início vista como espúria pela comunidade internacional) da fadada luta contra o Terror. Cobrindo de Washington a Cabul, o livro detalha bem os meandros de como um governo pós-taliban ficou dependente das oligarquias provinciais de um país que, de fato, nunca teve um eficiente governo central; em meio a uma realidade onde a descentralização administrativa também se tornou útil para a terceirização da ocupação que permitiu que os Senhores da Guerra feudais locais se beneficiaram conjuntamente a poderosas empresas mercenárias dos EUA.

Enriquecendo ainda mais a narrativa, Nasser também analisa competentemente a utilização política da própria Guerra ao Terror não só por George W. Bush, mas também Obama, Trump e mesmo Biden; já que todos se valeram da mesma para promover suas candidaturas e de supostos ganhos de seus governos. De fato, se houve ajustes ao longo dos anos, o fato é que a articulação proposital de uma guerra difusa, sem inimigo claro, e que seria perseguida ao redor do mundo, sempre foi útil a todos os candidatos à presidência independentemente do partido em questão.

Da mesma forma, se Obama se valeu mais de ataques tecnológicos (drones) que os outros presidentes, e se também tentou fechar a famigerada Base de Guantánamo, foi ele também quem expandiu a presença militar no Afeganistão, permitindo que tanto Trump quanto Biden pudessem prometer uma saída do país não como solução do mal definido terrorismo global, muito menos um fim aos trágicos eventos humanitários na terra dos talibãs; mas, sim, como resposta aos gastos e perdas de vidas crescentes de tal mal planejada e trágica aventura.

A luta contra o terrorismo nos apresenta, pois, uma leitura crítica de elementos centrais dos desdobramentos geopolíticos dos últimos 20 anos que ajudam a explicar como a proclamada hegemonia global norte-americana acabaria por se revelar uma das mais breves da história. E embora ainda estejamos em um mundo a se definir, é fato que as incursões dos EUA em operações militares precipitadas e envoltas em altos níveis de corrupção ao redor do mundo ajudarama construir o cenário em que vivemos. Nesse sentido, Nasser nos oferece uma leitura necessária para todos interessados em pensar o curso do século XXI.

*Rafael R. Ioris é professor de história na Universidade de Denver (EUA).

 

Referência


Reginaldo Nasser. A luta contra o terrorismo – os Estados Unidos e os amigos talibãs. São Paulo, Contracorrente, 2021, 180 págs.

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Marilena Chauí Paulo Sérgio Pinheiro Chico Alencar Ricardo Musse Atilio A. Boron Eleonora Albano Lorenzo Vitral Luiz Werneck Vianna Ronaldo Tadeu de Souza Sergio Amadeu da Silveira José Luís Fiori Ari Marcelo Solon Remy José Fontana Gilberto Maringoni Igor Felippe Santos Liszt Vieira Daniel Afonso da Silva Antônio Sales Rios Neto Dênis de Moraes Luis Felipe Miguel Manchetômetro Roberto Noritomi Daniel Costa Luís Fernando Vitagliano Maria Rita Kehl Jorge Branco Antonino Infranca Luiz Costa Lima Ricardo Fabbrini Bruno Fabricio Alcebino da Silva Valério Arcary Alexandre Aragão de Albuquerque Carlos Tautz Yuri Martins-Fontes Renato Dagnino Denilson Cordeiro Benicio Viero Schmidt Francisco Pereira de Farias João Lanari Bo Ricardo Antunes Bento Prado Jr. Marilia Pacheco Fiorillo José Raimundo Trindade José Machado Moita Neto Milton Pinheiro Fábio Konder Comparato Flávio Aguiar Boaventura de Sousa Santos Kátia Gerab Baggio Lincoln Secco Marcos Aurélio da Silva Luiz Carlos Bresser-Pereira Anderson Alves Esteves Elias Jabbour Luciano Nascimento José Geraldo Couto Ronald Rocha Luiz Marques Jean Marc Von Der Weid Rafael R. Ioris Paulo Nogueira Batista Jr Tarso Genro Luiz Roberto Alves Rodrigo de Faria Marcelo Guimarães Lima Lucas Fiaschetti Estevez Antonio Martins José Micaelson Lacerda Morais Marcus Ianoni Dennis Oliveira João Feres Júnior André Singer Celso Favaretto Marcos Silva Francisco de Oliveira Barros Júnior Ricardo Abramovay Julian Rodrigues Luiz Renato Martins José Costa Júnior Tales Ab'Sáber Vanderlei Tenório Bernardo Ricupero Gilberto Lopes Eleutério F. S. Prado Everaldo de Oliveira Andrade Ronald León Núñez Anselm Jappe André Márcio Neves Soares Armando Boito Tadeu Valadares João Carlos Loebens Paulo Fernandes Silveira Eduardo Borges Alysson Leandro Mascaro Salem Nasser Leda Maria Paulani Vladimir Safatle Celso Frederico Airton Paschoa Érico Andrade Priscila Figueiredo Henry Burnett Annateresa Fabris Alexandre de Lima Castro Tranjan Eugênio Bucci Bruno Machado Leonardo Avritzer João Sette Whitaker Ferreira Leonardo Boff Juarez Guimarães Jean Pierre Chauvin Michael Löwy Slavoj Žižek Rubens Pinto Lyra Otaviano Helene Leonardo Sacramento Francisco Fernandes Ladeira José Dirceu Manuel Domingos Neto Paulo Capel Narvai Michael Roberts Mário Maestri Carla Teixeira Alexandre de Freitas Barbosa João Adolfo Hansen Marjorie C. Marona Thomas Piketty Valerio Arcary Ladislau Dowbor Claudio Katz Heraldo Campos Mariarosaria Fabris Eugênio Trivinho Andrew Korybko Berenice Bento Jorge Luiz Souto Maior Luiz Bernardo Pericás Marcelo Módolo Paulo Martins Caio Bugiato Gerson Almeida Plínio de Arruda Sampaio Jr. Walnice Nogueira Galvão Fernão Pessoa Ramos João Carlos Salles Chico Whitaker Sandra Bitencourt Fernando Nogueira da Costa Henri Acselrad Daniel Brazil Samuel Kilsztajn Roberto Bueno Afrânio Catani Flávio R. Kothe Vinício Carrilho Martinez Luiz Eduardo Soares João Paulo Ayub Fonseca Eliziário Andrade Osvaldo Coggiola Gabriel Cohn

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada