Por LUÍS FERNANDO VITAGLIANO*
Entre o cinema, o carnaval e a radicalização política, a arte reafirma sua autonomia ao ironizar o poder e expor seus limites
Este artigo pretende discutir dois eventos artísticos recentes não relacionados e que, direta e indiretamente, têm efeitos políticos em contextos e posições diferentes. Primeiro, o filme concorrente ao Oscar: Bugonia. Segundo: a encenação da comissão de frente do desfile dos Acadêmicos de Niterói, cujo tema é Lula! De um lado a produção artística mais difundida do mundo, a cinematografia de Hollywood, de outro lado, a maior manifestação cultural do Brasil, o carnaval.
Poderia ser dois artigos. Dada a diversidade de perspectivas que podemos abordar sobre os eventos, mais a opção por entrelaça-los é para mostrar que em alguns momentos, a arte procura a política porque vai discutir sua própria sobrevivência. Neste movimento, o propósito do artigo é limitado ao provocativo: quando a arte procura a política, quais os limites do político sobre a arte?
1.
Bugonia, do controverso diretor grego Yorgos Lanthimos estreou em novembro de 2025 – para quem não assistiu, recomendo que pare de ler este artigo agora se não quer antecipações inapropriadas, ou dito de forma mais jovial: spoilers. O filme chegou a ser o mais assistido no streaming brasileiro entre janeiro e fevereiro deste ano. Conta a história de um paranoico e seu primo que sequestram uma empresária corporativa. Questões a respeito do capitalismo contemporâneo: destruição ambiental, super exploração do trabalho, desigualdade social e exercício desproporcional de poder por parte dos executivos perfilam o filme.
Mas, o sinal dos tempos está no anti-herói? Um trabalhador empacotador de embalagens da empresa é tomado por todas as teorias de conspiração presentes na internet até assumir a sua: a empresária é uma alienígena da galáxia de Andrômeda. O indício mais claro dessa constatação é que ela não pode aparentar os 50 anos que tem. Parece muito mais jovem, coisa que não é possível para uma terráquea.
Vários elementos das contradições que vivemos na atualidade se manifestam na tragédia. Mas, o que me chamou a atenção foram as consequências geradas pelas teorias da conspiração que são extraídas da internet. Blogs, vídeos no Youtube, Podcasts, muitas elucubrações sobre alienígenas, efeitos colaterais de vacinas, permitem que se tenha uma espécie de interpretação distorcida da realidade. Teorias da terra plana.
Daí para que se descambe em um tipo de justificativa da violência paranoica é um caminho curto. O filme, de início, parece um alerta para as consequências que o lixo digital pode representar e como isso está ligado a um consumo irracional da internet em que se associa a intolerância de mentes doentes. São esses ataques à civilização que aumentam as chances de imbecis assumirem as rédeas de governos por eleições digitalizadas
Mas, a arte não respeita a política. Esse é meu ponto. Para a tragédia ser tratada como um drama verossímil, poderia manter o enredo trágico, como o anti-herói capturado ou morto pela polícia ou a protagonista tendo que lidar com as consequências de um mundo que a atinge. Mas, a opção artística foi por outro desfecho, com a protagonista se mostrando de fato uma alienígena que volta à sua nave para julgar os terráqueos. Aparentemente o filme reforça de forma irônica (como queremos crer) as teorias do anti-herói, e ele se revelaria de fato numa tentativa de heroísmo derrotada.
Meu primeiro impulso sobre a guinada artística foi considerar o desfavor que o filme teria para essas teorias da conspiração presentes. Pode ser que a intenção artística tenha sido mostrar o quão ridículo é uma pessoa entrar em um armário e ser teletransportada para uma nave espacial. Mas, prefiro pensar que quem leva a sério a invasão alienígena vai considerar tranquilo acreditar no poder telecinético dentro de um armário de escritório. Ou seja, uma interpretação possível é que o filme evidencia de forma dúbia as teorias conspiratórias dando margem para que malucos a assumam.
É neste ponto que a arte e política se entrelaçam. O filme poderia ser uma crítica aos elementos conspiratórios presentes na internet, usados para arrebanhar violência e típicos da extrema direita. Mas, esse não precisa ser o efeito da arte. A arte pode não ter um propósito além do cômico – por isso é arte.
Nesse contexto, de maior radicalismo, é compreensível que a arte ironize a política. Com o tempo, sua contribuição certamente interfere na narrativa. Qual vai ser a leitura sobre Bugonia em 10 anos? Não é possível antecipar se será visto como uma caricatura, um sinal dos tempos, apenas um filme divertido ou de mau gosto. Provavelmente seus produtores não estão interessados nisso também. Fica claro que a arte não está a serviço da política.
2.
Assim, é possível tratar do desfile da Acadêmicos de Niterói. Lula deveria estar no desfile? Sem dúvidas seria um erro político e artístico se Lula ou Janja estivessem. Acredito que seus melhores assessores falaram sobre isso e que foram espertos o suficiente para nem pensar na possibilidade da presença do presidente ou da primeira dama, mas protelaram qualquer comunicado para despistar sobre a presença até o limite, mantendo a discussão quente.
Isso faz parte da estratégia da política. Problema na assessoria haveria se fossem consideradas apenas as análises de risco jurídico de propaganda antecipada para tomar a decisão de não ir. Se ninguém disse do equívoco e do tamanho da confusão ao presidente, é de bom tom repensar os conselheiros do palácio.
É importante pontuar: Lula não deveria ir porque afastaria os holofotes da espontaneidade da homenagem. O tema não seria a homenagem, mas a presença do presidente que roubaria a cena. Isso se estende à primeira-dama porque também estaria exposto aos adversários e ao moralismo dos seus. Não traria grandes vantagens sua presença e o colocaria como alvo de críticas. Sem a presença do presidente tudo se concretizou: uma homenagem e muita ironia, com sua presença e seu tamanho ficar exposto uma apropriação indevida da festa. Simples assim e sem juridiquês.
Enfim, a arte mostrou sua cara: a comissão de frente foi épica. Por todos os motivos que a arte serve a política, mas não se limita a ela. Bozo, um palhaço introduzido no Brasil por produtores dos EUA, a expressão da subserviência yanque do bolsonarismo, a COVID, os personagens de Dilma Rousseff, Michel Temer e Lula na dança da faixa, a rampa do terceiro mandato com o simbolismo da diversidade, uma singular a capacidade de retratar ao seu modo os 20 anos de história política.
Uma encenação de não mais que dois minutos mostrou como a apropriação popular dos eventos foi feita com habilidade artística que certamente será lembrada e citada por anos.
Fazer esse resumo da história política brasileira é uma interpretação da narrativa que revela como o tempo vai lidar com os fatos. Como o poder da história vai solidificar posições. O fator curioso que incrementa todo esse tempero é a tentativa de omissão da rede Globo do enredo da escola e a não mostrar a comissão de frente. Para uma emissora que omitiu as Diretas Já!, isso é recreio. Mas, demonstra que as declarações de arrependimento e releitura não são verdadeiras. O que os Marinhos demonstraram neste carnaval é que vale muito aquela outra obra de arte musicada por Belchior e imortalizada por Elis Regina: “apesar de tudo que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
O ponto que une duas manifestações artistas tão dispare é o mesmo: a arte não respeita a política. Os Acadêmicos de Niterói tomaram uma atitude corajosa e bastante conflitiva em meio a um estado em que a maioria é bolsonarista. Ao seu modo, mostraram sua arte. Se tinham a expectativa de que Lula desfilasse, é importante entender também que o tempo da política tem outra lógica.
Assim como Bugonia não se limitou ao racional e fez do seu momento uma manifestação plena sem olhar às consequências, os Acadêmicos de Niterói tiveram sua epifania artística. Ao seu modo, provocaram com ironia as certezas de muitos.
Em tempos de radicalização a arte acompanha a temperatura da sociedade; ao seu modo. Tentar silenciá-la é um traço das ditaduras, tentar controlá-la ou pautá-lá é menos grave, em geral apenas tolice.
*Luís Fernando Vitagliano é doutor em “Mudança social e participação política” pela EACH-USP. Autor, com Marcio Pochmann, do livro O atraso do futuro e o “homem cordial” (Hucitec). [https://amzn.to/3CRWcNw]






















