As ameaças de guerra na Europa

Imagem: Alexander Zvir

Por EVERALDO DE OLIVEIRA ANDRADE*

A crise na Ucrânia não interessa às populações dos países envolvidos, exceto para governos buscarem uma via para superar, provisoriamente, uma crise profunda do próprio capitalismo

Os Estados Unidos, a OTAN, a União Europeia, entre outros, vem denunciando há várias semanas que a Rússia estaria se preparando para invadir a Ucrânia, tendo concentrado mais de cem mil soldados na fronteira comum. O governo russo e o presidente Putin afirmam o contrário, declarando que o perigo é que a Ucrânia passe a formar parte da aliança militar comandada pelos EUA.

Recordemos que a OTAN foi fundada a mais de 70 anos com o objetivo declarado de fazer frente à URSS. Se acreditamos nessa justificativa, a desagregação da URSS em dezembro de 1991 e a dissolução do pacto de Varsóvia neste mesmo ano tornavam obsoleta esta Aliança. Além disso, em 1990 a administração estadunidense presidida na época por George Bush pai pactuou com Gorbatchov que se esse não se opusesse à unificação da Alemanha então “nem a jurisdição nem as tropas da OTAN se estenderiam a territórios situados a leste da Aliança naquele momento”.

Acordo não cumprido por todas as administrações dos EUA, que compreenderam rapidamente a utilidade da OTAN, por um lado para controlar militarmente os países europeus e, por outro para  dar cobertura a todas as aventuras militares da administração estadunidense …por exemplo, os bombardeios na Iugoslávia e Líbia, a invasão durante mais de 20 anos do Afeganistão foram realizadas sob o guarda-chuvas da OTAN, quando, em princípio, o âmbito da OTAN estava limitado à Europa Ocidental e América do Norte, como seu nome indica, “Atlântico Norte”.

E mais, segundo o Tratado de Maastricht, artigo 17, que criou a União Europeia, esta instituição é solidaria com as ações militares da OTAN. E a atual exigência dos governos estadunidenses, incluído Obama, Trump e atualmente Biden aos governos europeus de participar em maior proporção nos gastos militares, tanto aumentando os orçamentos militares como enviando tropas, só corresponde aos interesses do Estado ianque.

 

A quem servem essas ameaças de guerra?

É um fato incontestável e que se verifica com o tempo.

Por um lado, a linguagem belicista de Biden tem uma relação direta com a própria crise nos Estados Unidos, a brutal crise econômica, o aumento da inflação, o déficit comercial (mais de 80 bilhões de dólares no mês de dezembro), a divisão que atravessam as instituições estadunidenses, a continuidade das medidas antissindicais e a opressão brutal às minorias, em particular a minoria negra. Nessa situação, Biden busca cerrar fileiras, em nome da “unidade da pátria” contra o inimigo exterior.

Convém recordar que Joe Biden foi eleito presidente após uma das maiores mobilizações eleitorais da história dos Estados Unidos, para fechar o caminho a Donald Trump, apoiando-se para isso na minoria negra e em promessas de ampliação dos seguros saúde que foram remanejados ou reduzidos a serviço de uma política militarista sob controle dos grandes grupos da indústria armamentista.

Também influi a necessidade dos EUA de vender sua produção de gás natural à Europa, aonde seu maior competidor é o gás russo.

O governo dos EUA ataca na Europa com os olhos na China. De fato, necessita ter os governos europeus submetidos para alinhá-los na guerra comercial contra a China. Guerra necessária para tentar reduzir seu déficit comercial, mas impossível de ganhar por sua dependência da economia chinesa, e pelos próprios interesses da quase totalidade das multinacionais estadunidenses que deslocalizaram sua produção para os países estrangeiros e, em particular para a China.

Por trás do conflito na Europa, em última instância, estão as contradições do mercado mundial capitalista que florescem.

 

Os povos europeus não querem a guerra

Esta é uma evidência. Nem o povo russo, nem o ucraniano, nem o alemão, nem os povos inglês, francês, espanhol e outros querem a guerra. Sabem que esta seria contrária à preservação ou conquista dos direitos sociais e democráticos. Sabem que esta seria utilizada para justificar novos ataques aos salários, às aposentadorias, às liberdades. Ataques que se sumariam aos que já sofrem todos com a desculpa da suposta luta contra a pandemia. Os cortes dos serviços públicos de saúde prosseguiram ao lado dos gigantescos lucros das indústrias farmacêuticas.

Mas isso não é tudo, nem sequer os governos europeus estão interessados na guerra. No é casual que o presidente Emannuel Macron e o chanceler Olaf Scholtz insistam em uma via de negociação. E não só porque a Alemanha, e boa parte da Europa, sejam dependentes do gás russo (e do carvão depois do recuo da energia nuclear, por supostos motivos ecológicos, pela “transição sustentável” …) senão porque se a guerra começa, as vítimas serão em sua maioria europeias, e os povos sem dúvida irão cobrar de seus respectivos governos.

E o povo russo é também mais que cético frente à política de Vladimir Putin. Este se apresenta como defensor dos russófonos da Ucrânia e das fronteiras de Rússia, mas, na realidade, para ele a guerra é uma ocasião para forçar a população a unir-se em torno de sua política, num momento em que multiplica suas ações repressivas e anti-operárias em todo o país. Hoje há inúmeros ativistas e militantes operários e democratas sendo perseguidos.

Opor-se a guerra concretamente é um caminho que choca com o conjunto das políticas que EUA, Rússia e demais governos europeus vassalos buscam como uma via para superar sempre provisoriamente uma crise profunda que é do próprio capitalismo.

*Everaldo de Oliveira Andrade é professor do Departamento de História da FFLCH-USP. Autor, entre outros livros, de Bolívia: democracia e revolução. A Comuna de La Paz de 1971 (Alameda).