As duas internets

Carmela Gross, série ENTRE PALAVRAS, Jaci, 2012, grafite e esmalte sobre folha de dicionário, 27,5 x 20,8 cm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FRANCISCO LOUÇÃ*

A ofensiva de Trump contra a China, tendo como alvos imediatos a Huawei, a TikTok e o WeChat, é a guerra fria do nosso tempo

O poder de mandar

A ordem da Casa Branca para proibir a partir deste mês o fornecimento de semicondutores é um golpe poderoso contra a Huawei. A empresa chinesa, que domina o 5G, depende da compra de chips e pode ficar sem acesso aos fornecedores. O efeito é mundial: uma empresa de Taiwan, a MediaTek, pediu às autoridades norte-americanas autorização para lhe continuar a vender, mas o Departamento do Comércio, que conduz a operação sob instruções do presidente, deve recusar a licença. Mesmo o principal fornecedor chinês, SMIC, pode ter que fechar os seus negócios com a Huawei, dado que depende de equipamento importado dos EUA e não pode arriscar-se a ficar sem essa capacidade.

Vários aliados de Trump, como Boris Johnson ou o governo australiano, já tinham obedecido à ordem de anular os contratos com a Huawei. Portugal fica numa posição curiosa, dado que sofre a pressão da Casa Branca para recusar a Huawei por ser uma empresa com ligações ao governo chinês, mas Passos Coelho vendeu as empresas de energia a capital oficialíssimo de Pequim. Em todo o caso, a Huawei, dada a sua vantagem efetiva no 5G, aumenta a sua quota de mercado, pelo que Washington decidiu atacar a sua cadeia de fornecimento. Esse bombardeamento é para já efetivo, dado que a indústria norte-americana ainda domina alguns segmentos de máquinas sofisticadas e tem vantagem científica em semicondutores. Mas tem uma consequência: a China procurará avançar depressa na produção desses equipamentos e na investigação em chips ou em sistemas operativos. E pode recuperar o atraso em poucos anos. Assim, as empresas chinesas podem tornar-se auto-suficientes em tecnologia de ponta.

A vingança

É por saber que o conflito não tem solução na guerra contra a Huawei e que se trata de uma disputa pelo mercado global, que Trump, que ainda controla os circuitos financeiros e alguma alta tecnologia, ataca também as redes de difusão e de fidelização de utilizadores. Foi por isso que tomou com alvo a TikTok, com cem milhões de utilizadores nos EUA, e a WeChat, duas das empresas chinesas que melhor penetram no mercado norte-americano.

O argumento das suspeita é escasso. De facto, tem havido muito mais evidência de abuso de posição dominante e de desrespeito pelos direitos dos utilizadores pelo Facebook e pelo Twitter do que pelo TikTok, sobre o qual só pende uma alegação sobre a nacionalidade da empresa proprietária e uma vingança pelo fracasso clamoroso de um comício eleitoral do presidente norte-americano. Mas, ao que se saiba, a Cambridge Analytica baseou-se em dados disponibilizados pelo Facebook e não pela empresa chinesa. Em todo o caso, temos aqui mais um processo de divisão do mundo em duas internets: na China, Facebook e Google são barrados e, se Trump se impuser, as empresas chinesas serão barradas no ocidente.

E ainda há os jogos

Tecnologia de produção e sistemas de acesso são assim as duas primeiras frentes desta batalha. E há uma terceira, os jogos. A chinesa Tencent, dona do WeChat e que já tem uma margem operacional maior do que o Facebook, está a apostar nos jogos em streaming, fundindo as plataformas Huya e a DouYu. Ficaria com 300 milhões de utilizadores na China, a somar a posições dominantes noutros mercados: quando a Tencent comprou a RiotGames norte-americana, adquiriu a League of Legends, cuja final do campeonato foi vista online por 44 milhões de pessoas, o dobro dos que assistiram à final do baseball. Neste domínio, é ainda a luta entre empresas que predomina, a Apple e a Google contra a Epic Games, que produz o Fortnite, ou todas as empresas norte-americanas contra a Tencent, mas depressa será entre governos.

As duas internets lutam pela atenção e pelos dados, as armas mais poderosas do nosso tempo. A guerra já começou.

*Francisco Louçã foi coordenador do Bloco de esquerda (2005-2012, Portugal). Autor, entre outros livros, de A maldição de Midas – A cultura do capitalismo tardio (Cotovia).

Publicado originalmente no semanário Expresso.

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Thomas Piketty Marilena Chauí Caio Bugiato Gerson Almeida Ronaldo Tadeu de Souza Chico Whitaker Leonardo Boff Flávio R. Kothe Boaventura de Sousa Santos Rafael R. Ioris Paulo Sérgio Pinheiro Anderson Alves Esteves Jorge Luiz Souto Maior Leonardo Sacramento Marjorie C. Marona Walnice Nogueira Galvão Ricardo Fabbrini Francisco Fernandes Ladeira André Márcio Neves Soares Luiz Bernardo Pericás José Costa Júnior Yuri Martins-Fontes Jean Pierre Chauvin Fábio Konder Comparato Marilia Pacheco Fiorillo Afrânio Catani Luiz Eduardo Soares Bento Prado Jr. Slavoj Žižek Paulo Fernandes Silveira Luciano Nascimento Matheus Silveira de Souza Kátia Gerab Baggio Marcelo Guimarães Lima Marcos Silva Ronald León Núñez Luís Fernando Vitagliano Manchetômetro Antonio Martins Benicio Viero Schmidt José Dirceu Manuel Domingos Neto João Feres Júnior Anselm Jappe Jorge Branco Valerio Arcary Luiz Renato Martins Sandra Bitencourt Ricardo Antunes José Micaelson Lacerda Morais João Sette Whitaker Ferreira André Singer Milton Pinheiro Maria Rita Kehl Lincoln Secco Leda Maria Paulani Eduardo Borges Henri Acselrad Leonardo Avritzer Celso Favaretto Fernão Pessoa Ramos Alexandre Aragão de Albuquerque Alexandre de Lima Castro Tranjan Ladislau Dowbor Luiz Marques Antonino Infranca Chico Alencar Michel Goulart da Silva Remy José Fontana Tarso Genro Airton Paschoa José Luís Fiori Dennis Oliveira Luiz Roberto Alves Carla Teixeira Sergio Amadeu da Silveira Celso Frederico Rubens Pinto Lyra Michael Löwy Liszt Vieira Marcos Aurélio da Silva Claudio Katz Bernardo Ricupero Marcelo Módolo Salem Nasser Luiz Werneck Vianna Daniel Afonso da Silva Priscila Figueiredo Paulo Martins Igor Felippe Santos Andrew Korybko Mário Maestri Paulo Capel Narvai Luis Felipe Miguel Jean Marc Von Der Weid Eleutério F. S. Prado Atilio A. Boron Eleonora Albano João Carlos Loebens Gilberto Lopes Carlos Tautz Juarez Guimarães Daniel Costa Elias Jabbour Gilberto Maringoni Ronald Rocha Plínio de Arruda Sampaio Jr. João Carlos Salles Valerio Arcary Michael Roberts Tales Ab'Sáber Lucas Fiaschetti Estevez Denilson Cordeiro Alexandre de Freitas Barbosa Renato Dagnino João Adolfo Hansen Annateresa Fabris José Geraldo Couto Andrés del Río Flávio Aguiar José Raimundo Trindade Eliziário Andrade Armando Boito Henry Burnett Luiz Carlos Bresser-Pereira Ricardo Abramovay Ricardo Musse Dênis de Moraes José Machado Moita Neto Ari Marcelo Solon Mariarosaria Fabris Marcus Ianoni Heraldo Campos Rodrigo de Faria Antônio Sales Rios Neto João Paulo Ayub Fonseca Everaldo de Oliveira Andrade Vinício Carrilho Martinez Gabriel Cohn Samuel Kilsztajn Otaviano Helene Paulo Nogueira Batista Jr Tadeu Valadares Julian Rodrigues Bruno Fabricio Alcebino da Silva Érico Andrade Eugênio Bucci Eugênio Trivinho Berenice Bento Vanderlei Tenório Vladimir Safatle Daniel Brazil João Lanari Bo Bruno Machado Alysson Leandro Mascaro Fernando Nogueira da Costa Francisco de Oliveira Barros Júnior Osvaldo Coggiola Francisco Pereira de Farias Lorenzo Vitral

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada