As invisíveis

Emily Speed< Quarto projetado para uma mulher, vídeo de 2017.
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Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*

Durante séculos os cientistas achavam que as formigas e as abelhas, nos reinos que constroem, tinham um Rei

1.

Alaíde Costa não foi longe na Bossa Nova. Mulher, negra e filha de lavadeira, não era moça de fina extração como as musas do movimento. Figura entre os precursores, entre aqueles poucos que participaram das primeiras reuniões e que definiram as linhas-mestras do estilo. Como compositora, foi à época parceira de Tom Jobim, Vinicius, Johnny Alf, Geraldo Vandré. Hoje, quem a requesta para parceira é Emicida.

Aos 89 anos, sempre uma grande dama, não pratica a maledicência e não gosta de comentar as indignidades que ficaram no passado. Mas não esquece que se manteve inquebrantável ante as propostas das gravadoras para gravar um sambinha. Claro, uma negra devia cantar samba… Talvez a combinação de ser negra e mulher fosse demais para um movimento de rapazes brancos da Zona Sul carioca absorver, movimento que nasceu como dissidência do samba de morro dos negros.

Houve quem pensasse que, devido a seus dotes extraordinários, ela viria a ser a grande voz feminina da Bossa Nova. Mas, ao contrário, ela foi-se eclipsando e ficaria fora de cena por muitos anos, ausente da TV e dos shows, embora continuasse gravando esporadicamente.

Houve, todavia, quem abrisse os ouvidos a seus talentos fora do comum. Foi o caso do maestro Diogo Pacheco, que em 1965 alçou Alaíde Costa ao Teatro Municipal num recital de melodias renascentistas e medievais, o maravilhoso espetáculo chamado Alaíde Alaúde. Ele entendeu quem era Alaíde Costa e seu timbre incomum, capaz de cromatismo incríveis, rivalizando com cantoras de jazz como Sarah Vaungh, e outras.

No cinema passou-se algo semelhante. Helena Solberg e Teresa Trautman, as duas únicas mulheres do Cinema Novo, foram integradas em posição subalterna e quase anônima. Ambas trabalharam nos filmes de seus colegas.

Muito mais tarde, a primeira dirigiria Carmen Miranda: Bananas is my business, premiadíssimo aqui e no exterior. Na ocasião, ela fez A entrevista (1966), em que dava voz a meninas, num recorte de gênero então raro. O recorte torna o filme original e histórico ao mesmo tempo. Como profissional, desenvolveria sua carreira nos Estados Unidos.

A segunda fez Os homens que eu tive (1973). De grande independência como concepção, trata de amor livre e de experiências eróticas com a maior seriedade. Nem precisa dizer que a censura da ditadura o proibiu para sempre, ao fim de poucas semanas de exibição. A diretora, produtora e roteirista passaria a dedicar-se ao audiovisual.

No cinema, data de ontem uma descoberta notável. Todos sabem que os irmãos Lumnière inventaram o cinematógrafo e Méliès inventou o filme de ficção. Só que agora se sabe que não cabe a eles, mas a Alice Guy-Blaché a honra. O que aconteceu? O de sempre; ela era a número 2 dos Estúdios Gaumont, só respondendo ao próprio dono. E já tinha feito cerca de 1000 filmes de ficção em curta-metragem, a partir de 1895. O marido se mudou para os Estados Unidos e ela foi junto, em família. Lá teve longa e ilustre carreira, chegando a dirigir um estúdio.

Enquanto isso, seu nome era cuidadosamente apagado de tudo o que tinha feito na França, sem que ela percebesse. Quando, muitos anos depois, ela voltou à pátria, teve que iniciar uma campanha para restaurar seu nome onde tinha sido obliterado. Quando morreu, ainda não tinha completado a tarefa. Mas hoje ninguém mais diz que Méliès inventou o filme de ficção.

No cinema mundial, já foi bem estudado o processo. Enquanto era uma coisa nova, amadorística e incrivelmente criativa, as mulheres predominavam na arte, tanto na Europa quando nos Estados Unidos. Assim que começou a dar dinheiro e a se industrializar, os homens chegaram em massa e expulsaram as mulheres – aliás para sempre. Veja quantas mulheres estão por trás das câmeras no cinema hoje. Há estatísticas: chama-se exercício de poder.

Tata Amaral fez uma mini-série intitulada As protagonistas, em 13 episódios, estudando as mulheres no audiovisual, cobrindo toda a história do cinema brasileiro, São cerca de 70 mulheres que deixaram colossal contribuição. A mini-série é de 2021, ano em que foi exibida pelo Canal Brasil, mas bem que já é hora de reprisá-la.

2.

Em todos os campos a história se repete. Na ciência, então… Ninguém lembra que até hoje só uma pessoa ganhou dois prêmios Nobel, um de Química e outro de Física, e essa pessoa era uma mulher, Marie Curie. Ora direis, Linus Pauling também ganhou dois… Sim, mas um de ciência e outro “da Paz”.

Em Bruxelas, Tatiana, 10 anos, que acabara de fazer um trabalho escolar sobre a cientista, escandalizou-se ao descobrir uma rua Pierre Curie e nenhuma rua Marie Curie. Escreveu então à prefeitura, reclamando, e teve a alegria de ver os dizeres da placa trocados para “Rue Pierre et Marie Curie”. Já é um avanço…

O filme Estrelas além do tempo mostra um grupo de mulheres negras cientistas da NASA que fizeram todos os cálculos de base do programa espacial americano, para o lançamento dos primeiros foguetes, e sumiram. Só se ouve falar nos homens, culminando em Neil Armstrong pisando na Lua em 1969. No mundo real, é bem verdade que Barack Obama ainda conseguiu condecorar uma das três, quando já atingira os 97 anos… mas antes tarde do que nunca. Uma precursora foi a cosmonauta russa Valentina Tereshkova, que fez o segundo vôo sideral, em 1963, circumnavegando a Terra, logo depois do pioneiro Yuri Gagárin

Tudo isso mostra que a bióloga Bertha Lutz não era desavisada quando incomodou Deus e todo mundo por uma questão que parecia de somenos. A reputada cientista, delegada do Brasil à conferência de criação da Organização das Nações Unidas em 1947, era uma das oito mulheres no conjunto de 850 delegados homens. Isso é que é representatividade, dirão os céticos, ou seja, uma representatividade de aproximadamente 1 %… Ela importunou os delegados, reivindicando uma explicitação de que os direitos humanos eram “direitos dos homens e das mulheres”, por extenso. Porque, dizia ela, tudo aquilo que utiliza o adjetivo “humano” logo é usurpado pelos homens como privilégio deles, e as mulheres mais uma vez ficam de fora. Felizmente ela conseguiu impor seu ponto de vista, e lá estamos nós na Carta da ONU, desde então, graças a ela.

Nas artes o panorama não é mais animador. No Louvre há 35 mil obras de arte, mas dessas somente 50 são de autoria de mulheres, mesmo levando em conta as de Elizabeth Vigée-Lebrun, que era a pintora oficial de Maria Antonieta e da qual o museu preservou várias telas. É a mulher artista mais conhecida dentre todas.

As famosíssimas pintoras italianas Sofonisba Anguissola (1532-1626) e Artemísia Gentileschi (1593-1656), diretoras de ateliês e artistas exclusivas de cortes aristocráticas, foram recentemente valorizadas e resgatadas da invisibilização. Telas das duas foram até atribuídas a outros pintores, homens é claro, e levaram séculos até serem reconhecidas, recebendo atualmente exposições, livros e filmes.

Nem a música escapou ao apagamento seletivo. A cantora líricaMarília Vargas, soprano que passou anos na Suíça especializando-se em bel canto barroco e renascentista, tem feito trabalhos de pesquisa e difusão de compositoras mulheres de música erudita, em CDs, concertos, programas de rádio como Mater musica na Rádio Cultura, e TV. Todos já ouviram falar da abadessa Hildegarde von Bingen, do século XII, sábia, escritora, poeta e compositora de mérito. Mas Marília incluiu também Chiquinha Gonzaga, a quem considera grande artista.

E ainda vai além disso, vasculhando outras matrizes em busca de outras musicistas, inclusive brasileiras. E já achou, e gravou, preciosidades, como a composição de uma anônima veneziana da era barroca que interpela o amante, em vias de adormecer, porque quer mais, e o invectiva de modo muito engraçado: “O tardo! O pigro!”…

É bom lembrar que durante séculos os cientistas achavam que as formigas e as abelhas, nos reinos que constroem, tinham um Rei. Pois não lhes passava pela cabeça que uma figura única e de tamanho bem maior, alimentada e mimada por todas as outras, poderia ser outra coisa senão um macho. A surpresa é que formigueiros e colmeias nunca tiveram Reis, mas Rainhas, e passam muito bem obrigadas sem eles. Surpresa, surpresa!

Tudo isso mostra que a bióloga Bertha Lutz sabia o que fazia.

3.

Não é verdade que o veredicto da história seja a única instância judicativa, longe disso. Acontece que o cânone é quem determina quem ficará ou não para a posteridade. E adivinha quem determina o cânone? Alguma mulher jamais fez parte do cenáculo de sábios que determina o cânone?

Da Inglaterra chega a notícia de uma descoberta curiosa, uma escritora chamada Margaret Oliphant. que viveu no séc. XIX (London Review of Books, 16.7.2020). Ela escreveu 96 romances, pois era arrimo de família e dependia da pena para seu sustento de viúva com filhos pequenos, mais dois irmãos estroinas, um sobrinho e duas sobrinhas. A todos alimentava. O comentário focaliza seu romance Miss Marjoribanks, de 1866.

Ao contrário das escritoras famosas da época como Jane Austen e as irmãs Bronte, que escrevem invariavelmente sobre amor e conquista de um casamento, a protagonista é solteira e altamente crítica dos homens, a quem chama de “aquele ramo inferior da espécie humana”. Exceção entre as mulheres romancistas de seu tempo, ela se interessa por tudo que não seja amor e conquista de um casamento. E zomba de Charles Dickens, que opera súbitas, sentimentaloides e inverossímeis reviravoltas masculinas.

É realista, lúcida e sem ilusões. Critica os homens o tempo todo, pela voz da narradora mas também pela voz das personagens. O comentarista afirma que este romance é , sem dúvida, o mais interessante exemplo de uma mulher escrevendo sobre os homens no séc. XIX.

Dá o que pensar. Será que as mulheres só escrevem mesmo sobre amor e conquista do casamento, ou os homens trataram de apagar as mulheres que não escreviam sobre isso? Pelo menos ela não precisou adotar pseudônimos masculinos, como as excelentes escritoras coevas George Sand na França e George Eliot na Inglaterra, ou mesmo femininos, como as irmãs Bronte e Jane Austen.

Se ainda assim estas são grandes romancistas, e Margaret Oliphant não sobreviveu, é inevitável indagar: não sobreviveu porque não obedeceu ao cânone? Menino escreve sobre menino e menina escreve sobre menina? O mundo dos homens só pode ser escrito por homens, porque as mulheres não chegam lá? Quem Margaret Oliphant pensava que era, Balzac?

Não estou inventando… Há pelo menos dois milênios e meio a trilogia Oréstia, de Ésquilo, uma sequência de três tragédias intituladas Agamemnon, As coéforas e As Eumênides, trata nada menos que da fundação da democracia e do primeiro tribunal.

Começa pela execução de Agamemnon, conduzida por sua esposa Clitemnestra, acolitada por Egisto, regente de Micenas. Era vingança pelo assassinato da filha Ifigênia pelo próprio pai, para propiciar a calmaria que paralisava a armada invasora rumando para Troia. O filho e herdeiro, Orestes, foge, pois é um obstáculo óbvio à entronização da estirpe de Egisto. Ao voltar muito depois, vinga o pai, matando a mãe e Egisto.

O matricídio é um crime maior, não é só assassinato: é assassinato com múltiplos agravantes. E as Fúrias do inferno passam a perseguir Orestes. É então que Palas Atena, padroeira de Atenas e criadora da polis, intervém e determina que ele seja julgado por um tribunal, o primeiro da história.. Empatado o veredito, ela desempata (“voto de Minerva”) pela absolvição de Orestes.

O matricídio ficará impune, as deusas da vingança da linhagem materna, as Fúrias, serão aplacadas e domadas, transformando-se de Erínias em Eumênides. Os manes de Clitemnestra não receberão justiça nem desagravo. Então, num só lance, a oligarquia patriarcal cria a democracia e a exclusão de mulheres, estrangeiros e escravos. E isso é legado grego.

Essa é a mais bela justificação do patriarcado e de mais elevada arte, nada menos que a tragédia ática. Mesmo à custa de deixar impune um matricídio e o espectro da mãe assassinada vagando sem destino. Imaginem os casos menores aqui examinados…

Mas há motivos de celebração. A França acaba de inscrever na Constituição o direito ao aborto: é o primeiro país a fazê-lo, assim como foi o primeiro a descriminalizar o aborto quando a Ministra da Saúde Simone Weil assumiu a causa e levou até o fim a aprovação da lei, em 1974, Que bom haver países que acreditam na lei.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc\Ouro sobre Azul). [amzn.to/3ZboOZj]


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