Daqui a duas semanas

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por VALERIO ARCARY*

Vencer o medo será um dos grandes desafios para garantir a derrota dos fascistas

“A rapidez consegue-se com calma. A serenidade vence o furor. Alcança quem não cansa” (Sabedoria popular portuguesa).

A hora é de urgência, mas pede resiliência, determinação e paciência. O último sete de setembro foi “sequestrado” pelo bolsonarismo para realizar grandes demonstrações de força social. Sejamos lúcidos, conseguiram. A sociedade está fraturada, e se consolidou uma maioria social contra Jair Bolsonaro, apoiada, sobretudo, nos mais pobres, nas mulheres e nos nordestinos, mas os fascistas mantêm o apoio da massa da burguesia, nas camadas médias, grande influência no sul e norte, e hegemonia no centro-oeste.

Estamos em uma situação ainda transitória, saindo de uma situação reacionária, quando consideramos a relação social de forças entre as classes, embora a relação política de forças, que oscila sempre mais rápido, sugira que a extrema direita está em crescente inferioridade.

Muitos se perguntam sobre o sete de setembro: mas, afinal, por quê? Qual era o plano? Jair Bolsonaro não estabeleceu diálogo para além da área de influência que já decidiu apoiá-lo. Pode parecer irracional, mas não é.

Jair Bolsonaro é consciente que tem poucas possibilidades de vencer as eleições. Mas derrotas eleitorais não são o mesmo que derrotas políticas. Derrotas eleitorais são transitórias, mas as políticas, quando ocorre uma inversão na relação de forças, podem ser irreversíveis. Podemos aprender com a história da própria esquerda brasileira.

Em 1989, Lula sofreu uma derrota eleitoral diante de Collor, mas conquistou uma vitória política. O PT foi uma ferramenta útil para elevar a resistência operária-popular a outro patamar na oposição ao governo José Sarney, e alcançou a posição de ser seu porta-voz. Essa posição estava em disputa com o brizolismo. Tanto foi assim que, dois anos depois, milhões de trabalhadores saíram às ruas, após a centelha do movimento estudantil incendiar a luta de classes, para impor o impeachment em 1992.

Em 2014, Dilma Rousseff ganhou as eleições, mas sofreu uma derrota política. A relação social de forças se inverteu e, dois anos depois, as camadas médias foram às ruas, aos milhões, para garantir a base social do golpe institucional de 2016. Quem conquistou a posição de porta-voz deste deslocamento reacionário foi Jair Bolsonaro.

Jair Bolsonaro tem planos de curto, médio e longo prazo. O primeiro objetivo do sete de setembro era gerar um impulso de arrastão para conquistar um segundo turno dia 2 de outubro. O segundo era manter em movimento sua corrente política neofascista para poder construir uma campanha de denúncia das eleições como fraude. O terceiro era garantir legitimidade para bloquear um processo judicial de investigação de crimes de responsabilidade que venha a condená-lo à prisão.

Derrotar Jair Bolsonaro nas eleições será uma grande vitória tática. Mas o bolsonarismo, o neofascismo á brasileira, infelizmente, permanecerá. O desafio estratégico da esquerda deve ser mais ambicioso. Será necessária uma inversão da relação social de forças que deixe a extrema-direita desmoralizada e encurralada. Isso exigirá, em primeiro lugar, uma relação política de forças que garanta condições de que Jair Bolsonaro seja preso.

O maior obstáculo, até o momento, tem sido a dificuldade da esquerda ganhar, de forma incontestável, a supremacia nas ruas. Os comícios eleitorais de Lula têm sido, felizmente, grandes, na escala de algumas dezenas de milhares. Até muito grandes em algumas cidades, especialmente, no nordeste. Mas sem a presença de Lula, a capacidade da esquerda colocar em movimento as massas tem sido pequena. Por quê?

Trata-se de um tema de dialética complexa. Em condições normais, as pessoas estão consumidas, esgotadas e cansadas pela própria luta pela sobrevivência, uma rotina exaustiva e duríssima. Os trabalhadores e a juventude, as mulheres e os desempregados, os negros e os LGBTI’s, enfim, as massas populares só ganham confiança para lutar para derrotar um inimigo tão perigoso como Jair Bolsonaro: (a) primeiro, se percebem que a confusão na classe dominante é grande, que os inimigos estão divididos, semiparalisados, inseguros; (b) segundo, se percebem uma crescente inquietação e divisão nas camadas médias, e deslocamento para a oposição entre a intelectualidade e artistas, etc; (c) terceiro, se percebem que as organizações e as lideranças que as representam, de alguma maneira, estão unidas; (e) por último, mas não menos importante, se perceberem que suas reivindicações concretas de luta pela sobrevivência são colocadas na primeira linha e respeitadas.

Em resumo, as amplas massas só saem à luta quando acreditam que é possível vencer, mas isso não basta. É preciso que as direções em quem depositam confiança sejam incansáveis em deixar claro que é indispensável a sua mobilização. Que não se pode vencer sem um engajamento ativo na luta indo às ruas.

Por isso, a convocação para a luta é uma parte essencial da própria luta. Sejamos honestos, essa convocação não existiu até agora. Lula encanta, mas não acende a chama, inflama, incendeia. Não deveria nos surpreender que as mobilizações do dia 10 de setembro tenham sido atos de vanguarda militante. Mas, paradoxalmente, o favoritismo de Lula tem sido, também, um obstáculo. Ao permanecer estável, há pelo menos um ano, alimenta a ilusão de que será necessária somente uma confirmação previsível no dia das eleições.

Entretanto, a conjuntura ficou mais tensa. Dois dias depois do sete de setembro Benedito Santos foi assassinado em Mato Grosso, depois de um desentendimento com um bolsonarista. Na sequência, o medo cresceu como seria previsível.

Faltam duas semanas para as eleições, mas são raríssimos aqueles na esquerda que ousam usar um adesivo de apoio a Lula, fora de comícios ou ambientes protegidos. Não há plásticos nos automóveis. Por quê? Porque o perigo é real e imediato. Os medos políticos são incompreensíveis, quando não os relacionamos com os ódios sociais.

Os discursos de Jair Bolsonaro no sete de setembro foram uma convocação para a luta. Destilam ódios e inspiram medo. Infelizmente, são poderosas as pressões de inércia cultural e ideológica que aprisionam as amplas massas trabalhadoras. Acontece que não há força social mais poderosa na história do que a mobilização popular, quando ganha confiança em si mesma, e se organiza.

O medo de que a mudança não chegue nunca – que, entre os trabalhadores, é desencorajado pelo temor às represálias – precisa encarar medos ainda maiores: o desespero das classes proprietárias e sua clientela social, de perder tudo. No calor da luta de classes a descrença dos trabalhadores em suas próprias forças, a insegurança em seus sonhos igualitaristas, foram superadas pela esperança de liberdade, um sentimento moral e um anseio político mais elevado que a mesquinhez reacionária e a avareza burguesa.

Vencer o medo será um dos grandes desafios para garantir a derrota dos fascistas. Nas eleições e depois.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Paulo Martins Ricardo Abramovay Gerson Almeida Atilio A. Boron Luciano Nascimento João Carlos Loebens Vladimir Safatle Sandra Bitencourt Ari Marcelo Solon Chico Whitaker Tarso Genro Samuel Kilsztajn Lorenzo Vitral Flávio R. Kothe João Carlos Salles Rodrigo de Faria Carla Teixeira Eugênio Bucci Yuri Martins-Fontes Antonino Infranca Chico Alencar Dênis de Moraes Ricardo Fabbrini João Paulo Ayub Fonseca Ronald León Núñez Fernão Pessoa Ramos Ladislau Dowbor Carlos Tautz Francisco Pereira de Farias Paulo Fernandes Silveira Airton Paschoa Rubens Pinto Lyra Remy José Fontana Lucas Fiaschetti Estevez Marilia Pacheco Fiorillo Salem Nasser José Machado Moita Neto Elias Jabbour Luiz Werneck Vianna Ronaldo Tadeu de Souza Otaviano Helene João Feres Júnior Mariarosaria Fabris Celso Frederico Luiz Bernardo Pericás Thomas Piketty Alexandre Aragão de Albuquerque Gilberto Maringoni Luiz Carlos Bresser-Pereira Érico Andrade Kátia Gerab Baggio José Micaelson Lacerda Morais Michael Roberts Andrew Korybko Paulo Nogueira Batista Jr Priscila Figueiredo Anselm Jappe Marcelo Guimarães Lima Manchetômetro José Luís Fiori Osvaldo Coggiola Alysson Leandro Mascaro Dennis Oliveira Caio Bugiato Slavoj Žižek Heraldo Campos Tadeu Valadares Eugênio Trivinho Armando Boito Henry Burnett Flávio Aguiar José Raimundo Trindade Juarez Guimarães Luiz Renato Martins Anderson Alves Esteves Rafael R. Ioris Renato Dagnino Plínio de Arruda Sampaio Jr. Fernando Nogueira da Costa Eliziário Andrade Ricardo Musse Michel Goulart da Silva Denilson Cordeiro Vinício Carrilho Martinez Alexandre de Lima Castro Tranjan Paulo Capel Narvai Marcos Aurélio da Silva Jorge Branco Benicio Viero Schmidt Claudio Katz Fábio Konder Comparato Leonardo Sacramento Eduardo Borges Eleutério F. S. Prado Leda Maria Paulani Andrés del Río Valerio Arcary José Costa Júnior Bento Prado Jr. Milton Pinheiro Afrânio Catani Lincoln Secco Marjorie C. Marona Gilberto Lopes Ronald Rocha Annateresa Fabris Daniel Brazil Celso Favaretto Daniel Afonso da Silva Marcos Silva Marcus Ianoni Luis Felipe Miguel André Márcio Neves Soares Liszt Vieira Bruno Fabricio Alcebino da Silva Tales Ab'Sáber Luiz Eduardo Soares Michael Löwy Manuel Domingos Neto José Geraldo Couto Paulo Sérgio Pinheiro Vanderlei Tenório Valerio Arcary Maria Rita Kehl Walnice Nogueira Galvão Jean Marc Von Der Weid Marcelo Módolo Luiz Roberto Alves Sergio Amadeu da Silveira André Singer Everaldo de Oliveira Andrade Bruno Machado João Lanari Bo João Adolfo Hansen Jorge Luiz Souto Maior Gabriel Cohn Bernardo Ricupero Daniel Costa Francisco Fernandes Ladeira Julian Rodrigues Luiz Marques Matheus Silveira de Souza Leonardo Boff Mário Maestri Leonardo Avritzer Jean Pierre Chauvin Antonio Martins Ricardo Antunes João Sette Whitaker Ferreira Luís Fernando Vitagliano Henri Acselrad Marilena Chauí Boaventura de Sousa Santos Francisco de Oliveira Barros Júnior Antônio Sales Rios Neto Igor Felippe Santos Berenice Bento Eleonora Albano José Dirceu Alexandre de Freitas Barbosa

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada