Censura e intimidação

"Bandeiras", obra de Marília Scarabello / Sylvia Werneck/ Divulgação
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Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Deputados bolsonaristas pressionam e conseguem censurar evento de arte patrocinado pela Caixa Econômica Federal

O portal Brasil 247 (23 de julho de 2024) informa sobre um caso escandaloso de censura envolvendo deputados bolsonaristas (quem diria, não é, estes amantes da liberdade?) e uma exposição de arte com patrocínio da Caixa Econômica Federal. A censura, aparentemente, está firme e forte no país da “democracia consolidada”, o país do “golpe de estado evitado”, da justiça “independente e vigorosa”… etc. e tal. Aliás, quem precisa de golpe de Estado quando pode simplesmente, desde o interior das instituições da “democracia democrática”, impor sua particular visão de mundo e interesses de várias espécies ao conjunto do país?

A censura e a intimidação fazem parte essencial da estratégia da extrema direita que conta com aliados seguros nos seus postos, consolidados nas ditas instituições da democracia “dos mais iguais que os outros” (como dizia, em outros tempos e outras circunstâncias não totalmente dessemelhantes, o saudoso George Orwell), representantes do poder público que dirigem a vida nacional, enquadram nosso cotidiano, dirigem nossas atividades, determinam o que podemos e o que não podemos pensar e expressar.

Por conta da pressão dos representantes da extrema direita, a Caixa Econômica Federal não apenas retirou patrocínio, mas pretende punir os responsáveis pela mostra, segundo consta na reportagem do Brasil 247.

A obra “ofensiva” à honra de políticos da direita é da artista plástica Marília Scarabello, obra exposta na Caixa Cultural de Brasília na mostra “O Grito!”, exposição cancelada pelos experientes “críticos de arte” e especialistas da “cultura estética” nacional: os membros da bancada bolsonarista, do TCU e da própria Caixa Econômica Federal.

Eu cá com meus botões acho que a obra em questão meramente representa de modo sintético e comedidamente o que metade da nação acha dos personagens retratados. Numa democracia de verdade, seria simplesmente ridículo pretender que figuras públicas fossem consideradas vestais ou vacas sagradas e, portanto, imunes à critica pública de suas atividades e posicionamentos públicos.

Tentativas de intimidação e censura, estas sim deveriam ser punida rigorosamente pela lei. Mas a lei… ora a lei, diria, por exemplo, o cético romancista Machado de Assis e depois dele o observador igualmente cético da vida nacional, Lima Barreto, a lei parece que, no país do escrivão Isaías Caminha, serve a determinados interesses e personagens específicos e não a outros mais gerais.

A censura e a punição à artista e aos organizadores da mostra atingem a todos nós: é a cultura, as artes, os artistas e o público que são punidos por agentes públicos que tomam partido quando deveriam zelar pelas garantias legais do livre exercício do pensamento e da crítica. Triste Bahia, já cantava o bardo Gregório de Matos em priscas eras quando o Brasil era (?) ainda colônia sob o jugo do poder distante da metrópole portuguesa. Outros céticos diriam a propósito que no Brasil, de modo original, o passado nunca passa.

Enquanto isso, no país de Macunaíma, aguardamos que o rigor da lei se exerça, como reiteradamente anunciado e, aparentemente, adiado, sobre os mandantes e financiadores da micareta golpista de 8 de janeiro em Brasília. Por questões evidentes e por vasta experiência passada, aguardamos confortavelmente sentados.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.


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