Provocação permanente

Imagem: Marcelo Guimarães Lima
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Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Ao bolsonarismo resta hoje a provocação permanente como modo de sobrevivência e esperança de futuro, mas não sem ajuda da mídia e dos liberais conservadores

Seguindo a cartilha da direita republicana / extrema direita norte-americana (lá e cá esta continuidade prático-ideológica entre as “direitas” se expressa de modos ao mesmo tempo específicos e similares), ao bolsonarismo resta hoje a provocação permanente como modo de sobrevivência e esperança de futuro. Contando igualmente com o auxílio do Partido da Imprensa Golpista na sua cruzada permanente contra o povo brasileiro, hoje contra o governo popular de Lula.

E com a contribuição ativa e passiva dos chamados “conservadores” tradicionais, os herdeiros do nosso sui generis “liberalismo-pau-no-lombo-do-povo” (como diria Maria da Conceição Tavares), entronado pelo golpe civil-militar de 1964, mais os neoliberais da Avenida Faria Lima e vizinhanças que recondicionam no século XXI, com novas máscaras, o secular apartheid social-racial da formação histórica da nação.

Há bastante inconformidade dos derrotados de 2022 com as novas perspectivas que surgem com a eleição de Lula e com o ajuste de contas de parte da burguesia com os desmandos e as alucinações totalitárias de Jair Bolsonaro e suas hordas neofascistas, os quais, de solução temporária contra o campo popular se tornaram, por incompetência e absoluta falta de modos e de moderação, um embaraço e um empecilho para a prática normalizada da dominação e para os negócios presentes e futuros as usual.

A complexidade crescente das estruturas do poder mundial em reorganização, que a guerra da Ucrânia deixou claro, não pode mais ser simplesmente ignoradas. Mesmo a classe dominante brasileira, pouco afeita a sutilezas no exercício do seu mando sobre as massas dos deserdados no país, entendeu ou simplesmente desconfiou que este é o caso. O contexto que possibilitou a eleição do capitão do baixo clero não pode mais ser reproduzido tal e qual. E não será, mesmo com uma eventual eleição de Donald Trump nos EUA. Para infelicidade e desorientação de alguns.

Assim, aquele político novato de extrema direita, eleito na onda Bolsonaro, que se veste como caubói de fim de semana, tem sua identidade encarnada num chapelão-fetiche que lhe esconde a cabeça e ao que parece lhe tapa o entendimento, um adulto ou pós-adolescente que atende por um codinome de personagem de gibi ou de novela radiofônica, este político novato pede a intervenção dos EUA contra Maduro no Brasil! Que maior demonstração de patriotismo bolsonarista do que pedir a interferência direta do Tio Sam e suas tropas contra o governo eleito do Brasil?

No mesmo diapasão, o Partido da Imprensa Golpista trata, contra as evidências e contra os novos ventos globais, de desacreditar o chefe de governo e sua administração, repetindo o passado recente na esperança de um novo golpe, isto é, na continuidade do regime golpista de Michel Temer e Jair Bolsonaro com algum novo protagonista. Como no passado recente, a dobradinha conservadora-neofascista não mede esforços para fabricar dificuldades e crises pouco importa o custo, que será pago, como sempre, pela população que não frequenta a Avenida Faria Lima, não visita as chefias das redações ou os corredores de Brasília.

Assim, as iniciativas pouco democráticas e, digamos autovalorativas dos parlamentares chefiados pelo Vice-rei das possessões do ultramar ocidental, o Sr. Arthur Lira, qual novo Eduardo Cunha, desfila seu poder inquestionável e impõe condições ao chefe do governo eleito. Mas, pés de barro cedo ou tarde deixam de sustentar personagens ilustres nas suas solenes aparições.

A extrema direita instala a sua CPI contra o MST, para evitar uma eventual verdadeira CPI anticorrupção institucional, que lhes seria fatal se pudesse de fato ser concretizada (por via das dúvidas, vide o atual destino do capitão do caos, melhor prevenir). Entre as suas várias provocações, estratégia única para manter sua minguante audiência radical, está a recente tentativa de cassação[1] das deputadas do PSOL e do PT, Sâmia Bonfim (SP), Célia Xakriabá (MG), Talíria Petrone (RJ), Fernanda Melchionna (RS), Érika Kokay (DF) e Juliana Cardoso (SP) sob o pretexto de “quebra de decoro”! Proposição que, vinda do partido que tem entre seus representantes um chamado Zé Trovão, o sr. Ricardo Salles, o calouro Nikolas Ferreira, entre outros personagens semelhantes, soa como escárnio para com a opinião pública e mesmo para este congresso que não prima pela inteligência e civilidade.

Esta iniciativa se soma, de maneira marginal no estilo e no conteúdo, às iniciativas de espírito e estilo golpista de destituir o atual governo de suas prerrogativas e poder constitucional, iniciativas dirigidas pelo sr. Arthur Lira, comandante do Centrão, velho compadre de Eduardo Cunha, fiel apoiador de Bolsonaro e fiador do inacreditável, mas realmente articulado “orçamento secreto”.

Ao propor a cassação de mandatos das deputadas do PSOL,[2] a extrema direita tenta reagir e criar condições de barganha para defender seus representantes ameaçados de cassação. Malgrado o apoio do sr. Arthur Lira para a esdrúxula iniciativa do PL, a extrema direita superestima sua força e suas reais capacidades. Agarra-se ao passado recente no qual ocupava a presidência e tinha o Partido da Imprensa Golpista como aliado incondicional.

Assim como o próprio sr. Lira acredita poder simplesmente transferir a forma e o conteúdo do seu poder durante a presidência de Jair Bolsonaro para o novo momento político. A eles será reservado, mais cedo do que tarde, o que na língua inglesa é designado como “rude awakening”, quer dizer, um súbito e incômodo despertar para uma nova realidade.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

Notas


[1]Comunicado da deputada Sâmia Bomfim: “O PL, partido de Bolsonaro e da Milícia, pediu a cassação de nosso mandato com uma absurda representação no conselho de ética da Câmara. Também entraram com pedidos contra Fernanda Melchionna (PSOL), Celia Xakriabá (PSOL), Juliana Cardoso (PT), Talíria Petrone (PSOL) e Erika Kokay (PT). O partido do genocida e daqueles que odeiam as mulheres, quer silenciar as parlamentares feministas e combativas do Congresso. Isso só mostra o quanto as nossas vozes e lutas são necessárias e precisam se ampliar cada vez mais. Nos ajude a derrotar esse ataque e dar um recado à eles, assine e apoie a mobilização em defesa de nossas lutas e contra os golpistas. Seguiremos firmes, juntas e venceremos”.

[2] Abaixo-assinado contra a cassação dos mandatos das representantes da esquerda (PSOL e PT) no parlamento https://fernandapsol.com.br/naoacassacao/#preencha-com-seus-dados-e-assine-o-nosso-abaixo-assinado


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