Christopher Hill

Michael Rothenstein, Violência I (segunda versão), c.1973–4
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Por RYAN BREEDEN*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Michael Braddick

Christopher Hill ocupa um lugar de destaque no panorama da historiografia marxista britânica, talvez o historiador indispensável da Revolução Inglesa para gerações da esquerda. Seu nome evoca livros de bolso empoeirados que circulavam nos meios estudantis, discussões densas sobre base e superestrutura e, fundamentalmente, a recuperação da própria tradição revolucionária da Inglaterra – um passado “virado de cabeça para baixo” pelas pessoas comuns.

A nova biografia de Michael Braddick, Christopher Hill: The life of a radical historian, oferece uma oportunidade única para reavaliar esta figura complexa, um homem cuja vida abrangeu o tumultuoso século XX e cujo trabalho procurou dar sentido à história, não como um desfile de reis e rainhas, mas como um terreno de conflito de classes e luta ideológica.

Michael Braddick apresenta a trajetória de Christopher Hill desde o metodismo ardente e respeitável de sua educação em York – um contexto que, como o próprio Hill reconheceu, incutiu nele uma certa seriedade moral e talvez uma desconfiança inconformista em relação ao poder estabelecido – até o núcleo do pensamento marxista e do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB).

Esta não foi apenas uma conversão intelectual. Foi forjada no calvário da década de 1930: a grande traição de Ramsay MacDonald, a realidade opressiva da Depressão (claramente visível na cidade natal de Hill, onde Rowntree MacDonald descobriu que 30% da população vivia abaixo da linha da pobreza), a ascensão do fascismo e a aparente falência do liberalismo burguês diante da crise global.

Anos de formação

Como Michael Braddick destaca, com base nas primeiras notas e na formação intelectual de Christopher Hill, o marxismo de Hill estava impregnado de um profundo envolvimento com a literatura e uma busca pela autenticidade pessoal. Ao ler T. S. Eliot, D. H. Lawrence, W. H. Auden e James Joyce, o jovem Christopher Hill lutou contra a alienação endêmica da cultura burguesa moderna.

O marxismo, particularmente suas vertentes humanistas acessíveis através de textos como a então recém-publicada A ideologia Alemã, oferecia uma estrutura não apenas para compreender as contradições econômicas do capitalismo, mas também a “dissociação da sensibilidade”, a ruptura entre o sentimento individual e a expectativa social. Prometia um futuro em que o florescimento individual e coletivo pudesse ser conciliado. Essa perspectiva, sugere Michael Braddick, era tão crucial para o DNA intelectual de Christopher Hill quanto a crítica econômica mais familiar encontrada em O capital.

Christopher Hill aderiu ao Partido Comunista da Grã-Bretanha em 1936, após uma visita de formação à URSS, permanecendo como membro até que as revelações e os acontecimentos devastadores de 1956-57 o forçaram a uma dolorosa ruptura. Michael Braddick navega por esse período difícil, incluindo a relação às vezes frustrantemente opaca de Christopher Hill com o stalinismo (seu encômio a Stalin em 1953, do qual mais tarde se arrependeu, continua sendo uma mancha significativa) e as intensas batalhas internas no Grupo de Historiadores do PCGB.

Ele mostra um homem comprometido com o Partido como veículo de mudança, mesmo enquanto lutava contra seus dogmas e contra o peso esmagador do centralismo democrático. A biografia detalha a vigilância do MI5, as suposições casuais do estado de segurança e os riscos profissionais que Christopher Hill correu, lembrando-nos do clima gélido das instituições que concebiam a Guerra Fria para radicais comprometidos.

É claro que a grande contribuição de Christopher Hill foi afastar o estudo do século XVII das narrativas whiggistas do progresso constitucional ou das explicações puramente teológicas da “Revolução Puritana” (um termo que ele usava de forma intercambiável com A Revolução Inglesa). Ele insistia que as ideias, mesmo as religiosas, criavam raízes e ganhavam força porque ressoavam com interesses de classe específicos e condições materiais. A ênfase do puritanismo no trabalho árduo, na frugalidade e na consciência individual forneceu a estrutura moral e intelectual para o ataque burguês emergente à velha ordem social, preparando o caminho para o desenvolvimento capitalista.

Mas a Revolução também proporcionou espaço para uma explosão de pensamentos e práticas radicais entre grupos como os Levellers, Diggers, Ranters e Seekers, desencadeando o que Christopher Hill chamava de “revolução dentro da revolução”. O estudo de Christopher Hill sobre as lutas populares em obras como The World Turned Upside Down (1972) tornou-se um talismã para a Nova Esquerda e a contracultura, oferecendo um passado útil, uma visão de uma Inglaterra repleta de possibilidades radicais que falava diretamente às aspirações de 1968 e além.

Michael Braddick, ele próprio um historiador desse período, apresenta uma “vida intelectual” em vez de uma biografia íntima, respeitando a notória reserva pessoal de Christopher Hill. Embora diligente em traçar o desenvolvimento do pensamento de Christopher Hill através de seus escritos e documentos remanescentes, o retrato às vezes parece desatento quanto à urgência política que motivava Christopher Hill; o foco na jornada intelectual e na exegese cuidadosa dos textos ocasionalmente corre o risco de minimizar o compromisso cru e o projeto político inerente à prática histórica de Christopher Hill.

Os leitores podem desejar um envolvimento mais profundo com a história organizacional do PCGB ou uma crítica mais sustentada aos compromissos de Christopher Hill com o establishment, particularmente durante seu tempo como Mestre do Balliol (1965-78) – um período que Michael Braddick cobre com atenção para o papel modernizador, embora por vezes ambivalente, de Christopher Hill durante a era da rebelião estudantil.

A biografia documenta meticulosamente os ataques posteriores a Christopher Hill – a ascensão do revisionismo, que procurava negar o caráter revolucionário do século XVII e minimizar o conflito de classes, e as acusações motivadas politicamente durante as guerras culturais thatcheristas, culminando nas absurdas alegações de espionagem divulgadas por Anthony Glees. Christopher Hill, naquele momento, representava um tipo particular de intelectualismo público engajado que a direita desejava marginalizar.

O legado de Christopher Hill

Qual é o legado de Christopher Hill para a esquerda hoje? Michael Braddick afirma que Christopher Hill é uma figura de imensa integridade intelectual e seriedade moral, cuja vida demonstra a profunda conexão entre compreensão histórica e compromisso político. Christopher Hill mostrou que a Inglaterra possuía sua própria tradição revolucionária, baseada não apenas em ideais abstratos, mas também nas lutas materiais das pessoas comuns.

Sua insistência na totalidade – conectando economia, política, cultura e experiência individual – continua sendo um contraponto vital às abordagens fragmentadas e despolitizadas do passado. Não obstante, sua história é também um conto de advertência sobre os perigos da lealdade partidária diante de ações indefensáveis e das dificuldades enfrentadas pelos intelectuais que navegam pela relação entre rigor acadêmico e estratégia política.

Ao ler Michael Braddick, lembramo-nos porque Christopher Hill foi – e ainda é – importante. Numa era que exige perspectivas históricas sobre as crises recorrentes do capitalismo, o poder estatal e a hegemonia cultural, a determinação de Hill em compreender o passado como um meio para moldar um futuro melhor permanece profundamente relevante. Seu trabalho é um testemunho do poder da história escrita do ponto de vista da luta. Esta biografia sólida, acadêmica fornece o mapa essencial para essa vida e obra.

*Ryan Breeden é escritor e ativista político.

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente em no portal Defend Democracy Press.

Referência


Michael Braddick, Christopher Hill: the life of a radical historian. Londres, Verso, 2025, 320 págs. [https://amzn.to/3I7uIGA]


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