As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A reunião do G-20

Imagem: Aaditya Arora
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ELIAS JABBOUR*

O mundo precisa de uma nova ordem econômica mundial. Ou seja, uma “nova Bretton Woods

Nos próximos dias 15 e 16 de novembro, na ilha de Bali – Indonésia, ocorrerá a reunião do chamado G-20, com o tema “Recover together, recover stronger”. Trata-se um grupo formado pelos ministros de Finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia. Seu objetivo, em tese, é buscar soluções às turbulências da economia internacional e sua estabilização. Sua fundação em 1999 ocorreu justamente como resposta às sucessivas crises financeiras que acometeram o mundo na década de 1990, e continuam a acometer.

A grande verdade é que desde sua fundação o G-20 nunca conseguiu cumprir o papel atribuído a si mesmo. As razões são múltiplas, entre elas a sua incapacidade de coordenar um esforço internacional contra a especulação financeira ou retomar a agenda original do tratado de Bretton-Woods (1944) que buscou mecanismos de estabilização econômica internacional como forma de evitar que o mundo entrasse novamente em outra guerra, como a 2ª Guerra Mundial.

Esse sistema funcionou muito bem até que, de forma unilateral, os Estados Unidos abandonaram o tratado em 1971, quando o país abandonou o lastro de ouro e o valor das moedas passou a flutuar ao sabor das diferentes taxas de câmbio. Eis a raiz da instabilidade que reina na economia internacional desde então. O G-20 seria uma solução ao impasse econômico internacional vivido desde a saída dos Estados Unidos de Bretton Woods.

Mas existe uma verdade inconveniente aos formadores de opinião no chamado “Ocidente”. Um dos pilares do poder estadunidense no mundo reside justamente nesta ordem financeira e econômica internacional marcada por recorrentes crises e crescente instabilidade. Mais do que isso, o “império das mentiras” é também o “império do caos”. Somente essa conclusão pode nos entregar uma resposta satisfatória sobre as razões pelas quais o mundo não consegue sair da espiral de crises financeiras desde a década de 1990 – sem que o G-20 demonstre capacidade real de intervenção.

O mundo precisa de uma nova ordem econômica mundial. Ou seja, uma “nova Bretton Woods”. Daí a cada vez maior imprescindibilidade da República Popular da China e das inúmeras iniciativas lançadas por este país no sentido de construir uma globalização alternativa à globalização neoliberal e financeira. Esta “globalização alternativa” está presente na ideia-força que rege a política externa chinesa em torno da construção de uma chamada “comunidade de futuro compartilhado”. Isso significa que muitos dos problemas nacionais que afetam dezenas de países não podem encontrar soluções dentro de marcos puramente nacionais. Determinadas soluções passam a ser globais.

O exemplo da iniciativa “Cinturão e Rota” é emblemático. Trata-se da maior iniciativa de exportação de bens públicos pelo mundo oferecida por um país na história humana. São milhares de obras de infraestruturas de todos os tipos em cerca de 140 países. Ao contrário da globalização imposta ao mundo pelo imperialismo estadunidense na década de 1990 caracterizada por um comportamento neocolonial e agressivo, a “globalização alternativa” oferecida pela China não busca a abertura comercial e financeira de países pobres. Trata-se de uma globalização inclusive por meio de grandes empreendimentos geradores de emprego, renda e dignidade nacional aos países envolvidos.

O “Ocidente” oferece sanções e guerras, a China entrega obras de infraestruturas, hospitais, escola e estabilidade social. A iniciativa “Cinturão e Rota” vista como uma instituição que busca consolidar uma globalização alternativa é um passo decisivo e demonstração prática das amplas possibilidades que uma “nova Bretton Woods” poderá oferecer ao mundo. Mas tudo se relaciona. A economia, a política e a segurança internacional formam uma totalidade. Daí a iniciativa “Cinturão e Rota” formar parte de algo mais amplo sob a bandeira da “Iniciativa de Desenvolvimento Global”.

Esta iniciativa foi lançada por Xi Jinping durante sua apresentação na 76ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “Precisamos promover parcerias de desenvolvimento globais mais iguais e equilibradas, criar maior sinergia entre os processos multilaterais de cooperação para o desenvolvimento e acelerar a implementação da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável”, afirmou Xi Jinping.

Existe uma semente plantada pela China em prol da paz e estabilidade mundiais. Na medida em que se eleva a influência chinesa no mundo também crescem as esperanças por um mundo onde o caos, a opressão, a pobreza e a desigualdade venham a fazer parte do passado. Talvez o maior legado do desenvolvimento econômico chinês à humanidade seja esta compreensão onde o centro de tudo são as pessoas. A humanidade vencerá!

*Elias Jabbour é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autor, entre outros livros, junto com Alberto Gabriele, de China: o socialismo do século XXI (Boitempo).

Publicado originalmente no jornal GGN.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Fernando Nogueira da Costa Luiz Werneck Vianna Luiz Costa Lima Paulo Sérgio Pinheiro Leda Maria Paulani Paulo Capel Narvai Ari Marcelo Solon Ricardo Abramovay Walnice Nogueira Galvão Vanderlei Tenório Boaventura de Sousa Santos Otaviano Helene Bernardo Ricupero Heraldo Campos João Paulo Ayub Fonseca Maria Rita Kehl Benicio Viero Schmidt Leonardo Sacramento Francisco de Oliveira Barros Júnior Michael Roberts Armando Boito José Luís Fiori Berenice Bento José Dirceu Mário Maestri Denilson Cordeiro Manchetômetro Luiz Bernardo Pericás Antônio Sales Rios Neto Milton Pinheiro Atilio A. Boron Rodrigo de Faria Fábio Konder Comparato Renato Dagnino Leonardo Boff Michael Löwy Claudio Katz Flávio R. Kothe Carlos Tautz João Lanari Bo Ronald Rocha Ricardo Antunes Bruno Machado Daniel Brazil Marcelo Módolo Daniel Afonso da Silva Eleutério F. S. Prado Remy José Fontana Airton Paschoa Alexandre Aragão de Albuquerque Marcos Aurélio da Silva Gabriel Cohn Fernão Pessoa Ramos Marcos Silva Dênis de Moraes Gerson Almeida José Machado Moita Neto Marcus Ianoni Eugênio Bucci Eleonora Albano Jean Marc Von Der Weid Ronaldo Tadeu de Souza João Adolfo Hansen André Márcio Neves Soares Osvaldo Coggiola Flávio Aguiar Anderson Alves Esteves Afrânio Catani Julian Rodrigues Leonardo Avritzer Eugênio Trivinho Priscila Figueiredo Elias Jabbour Vinício Carrilho Martinez João Carlos Loebens Manuel Domingos Neto Francisco Fernandes Ladeira Gilberto Lopes Luiz Renato Martins Lucas Fiaschetti Estevez Gilberto Maringoni Bruno Fabricio Alcebino da Silva Anselm Jappe José Micaelson Lacerda Morais Thomas Piketty Jorge Luiz Souto Maior Ronald León Núñez Annateresa Fabris Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Marques Tadeu Valadares Andrew Korybko Luiz Roberto Alves Dennis Oliveira Henri Acselrad Ladislau Dowbor Valerio Arcary Igor Felippe Santos Rubens Pinto Lyra Eduardo Borges Jorge Branco Liszt Vieira Henry Burnett Alexandre de Lima Castro Tranjan Luiz Carlos Bresser-Pereira Valério Arcary Eliziário Andrade Luciano Nascimento Paulo Martins Lincoln Secco Tales Ab'Sáber Luis Felipe Miguel Everaldo de Oliveira Andrade Roberto Noritomi Antonio Martins Samuel Kilsztajn Carla Teixeira José Raimundo Trindade Luís Fernando Vitagliano Antonino Infranca Ricardo Musse Celso Favaretto Juarez Guimarães Mariarosaria Fabris Plínio de Arruda Sampaio Jr. Alysson Leandro Mascaro Ricardo Fabbrini Caio Bugiato Rafael R. Ioris Yuri Martins-Fontes José Geraldo Couto João Carlos Salles Érico Andrade Jean Pierre Chauvin Francisco Pereira de Farias Marilia Pacheco Fiorillo Marcelo Guimarães Lima Bento Prado Jr. Vladimir Safatle Slavoj Žižek João Sette Whitaker Ferreira Daniel Costa Lorenzo Vitral Kátia Gerab Baggio Sandra Bitencourt Paulo Fernandes Silveira Sergio Amadeu da Silveira José Costa Júnior Chico Whitaker Luiz Eduardo Soares Salem Nasser Chico Alencar André Singer Tarso Genro Marilena Chauí Marjorie C. Marona João Feres Júnior Paulo Nogueira Batista Jr Roberto Bueno Celso Frederico

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada