Cidade das engrenagens

Imagem: Sol Ponce
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Por MARCELO PHINTENER*

Segregação territorial e desigualdade no emprego formal paulistano

“Você deve notar que não tem mais tutu / E dizer que não está preocupado / Você deve lutar pela xepa da feira / E dizer que está recompensado // Você deve estampar sempre um ar de alegria / E dizer: Tudo tem melhorado / Você deve rezar pelo bem do patrão / E esquecer que está desempregado / Você merece / Você merece // Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval / Você merece / Você merece…” (Gonzaguinha, Comportamento geral)

O capitalismo é um sistema que paga bem, mas não para todos. Um trabalhador de Serviços Administrativos ou Serviços Gerais em São Paulo – o porteiro, o faxineiro, o operador de call center – ganha, na mediana, R$ 2.150 por mês. No outro extremo da engrenagem, um trabalhador do setor financeiro recebe, na mediana, R$ 8.350. A diferença de 3,9 vezes não é uma anomalia; é a arquitetura fundamental do mercado de trabalho formal de São Paulo e do Brasil. É, em última instância, o capitalismo funcionando em sua potência máxima de fragmentação.

As melhores condições materiais de uma parcela restrita da força de trabalho não representam um avanço social, mas o sintoma de uma derrota imposta ao conjunto da classe trabalhadora. Nesta “cidade das engrenagens”, que concentra os melhores e os piores empregos do Brasil, a valorização seletiva de certos estratos funciona como um dispositivo de controle e divisão: enquanto o topo da pirâmide é estabilizado materialmente, a base é empurrada para a periferia geográfica e social. A desigualdade formal, manifesta tanto no salário quanto na precariedade dos vínculos, é a métrica exata dessa fragmentação.

Esta pesquisa analisa os microdados da RAIS 2024 (Relação Anual de Informações Sociais), que abrange 5,3 milhões de vínculos ativos no município de São Paulo – o maior e mais desigual mercado de trabalho do país – cruzados com os dados do Censo Demográfico 2022. O objetivo é mapear a distribuição espacial das melhores condições materiais de trabalho e a lógica da sua organização por setor e porte de estabelecimento.

A análise revela como a distribuição territorial do emprego formal contrapõe-se à distribuição da população na cidade. É a prova de que a metrópole se organiza para exaurir a vida de quem habita as periferias, convertendo o tempo de descanso e reprodução social do trabalhador em custo de circulação necessário à manutenção das ilhas de alta produtividade.

A pirâmide social

A mediana – o valor que divide ao meio a distribuição salarial – é a medida correta para descrever o trabalhador típico de cada setor. A média é distorcida por uma minoria de altos salários e não representa a experiência da maioria. Em Serviços Administrativos, a média é R$ 3.640, mas a mediana é R$ 2.150: diferença de R$ 1.490 causada por CNAEs de escritório corporativo que puxam o número para cima sem representar o trabalhador típico.

Tabela 1. Perfil salarial por setor econômico — São Paulo, RAIS 2024

SetorVínculosMedianaSM<2SM<3SM<5SMMédia*
Serv. Administrativos1.074.349R$ 2.1501,5269,4%83,9%91,9%R$ 3.640
Construção327.200R$ 2.6501,8856,1%79,4%92,5%R$ 3.647
Comércio883.844R$ 2.4501,7462,5%78,3%88,3%R$ 4.429
Indústria328.524R$ 2.9502,0948,3%68,3%81,8%R$ 5.664
Transporte241.869R$ 3.3502,3741,4%64,8%87,7%R$ 4.652
Outros471.165R$ 2.4501,7462,1%79,0%90,6%R$ 3.813
Saúde449.879R$ 3.7502,6633,9%58,7%81,6%R$ 5.173
Serv. Profissionais267.349R$ 3.9502,8036,5%53,3%70,5%R$ 7.463
Educação351.100R$ 4.4503,1532,0%48,5%78,6%R$ 5.762
Info e Comunicação241.230R$ 6.9504,9218,5%31,8%51,0%R$ 11.354
Adm. Pública422.249R$ 8.2505,846,8%20,3%40,5%R$ 10.991
Financeiro288.463R$ 8.3505,9110,5%19,9%41,9%R$ 11.703
Fonte: RAIS 2024 (MTE/PDET). Vínculos ativos 31/12/2024. SM = R$ 1.412,00. Mediana calculada via histograma de faixas de R$ 100. *Média aritmética entre subclasses CNAE — sujeita a distorção por outliers.

O mercado formal paulistano é fraturado. Nos quatro setores de base – serviços administrativos, comércio, construção e outros, com 2,76 milhões de vínculos – a mediana não supera R$ 2.650 e mais de 60% dos trabalhadores ganham menos de 2 SM. No topo, financeiro e administrração pública têm medianas acima de R$ 8.000 e exigem nível superior em mais de 50% dos postos.[1]

O gradiente é direto: quanto menor a empresa, menor o salário e menor a proteção. Estabelecimentos de 5 a 9 funcionários pagam em média R$ 2.876 (2,04 SM); os de 500 a 999 pagam R$ 7.059 (5,00 SM) — razão de 2,46 vezes, quase a mesma do fosso entre setores.

Tabela 2. Porte do estabelecimento e salário médio — São Paulo, RAIS 2024

Porte (func.)Vínculos% totalSal. médioSM% CLT
5–9314.1895,9%R$ 2.8762,0494,6%
10–19350.9346,6%R$ 3.3142,3593,8%
20–49440.8108,2%R$ 3.6592,5993,2%
50–99619.04511,6%R$ 4.2032,9892,8%
100–249447.4248,4%R$ 5.2313,7091,3%
250–499535.40610,0%R$ 6.2594,4389,9%
500–999429.4398,0%R$ 7.0595,0088,8%
1.000+1.748.70732,7%R$ 6.8614,8664,7%
Fonte: RAIS 2024 (MTE/PDET). Vínculos ativos 31/12/2024.

Os mega-estabelecimentos (1.000+ funcionários) concentram 32,7% dos vínculos mas têm o menor percentual de CLT: 64,7%, contra 94,6% nos menores. A queda não indica desprotecão crescente com o tamanho, mas a presença de estatutários, intermitentes e temporários que a RAIS registra fora do código CLT. A formalidade jurídica não implica, portanto, proteção uniforme.

Tempo, jornada e precariedade

A Construção Civil tem a menor mediana de permanência no emprego: 14 meses. Serviços Administrativos vem em seguida com 16 meses, e o Comércio com 20 meses. Na outra ponta, a administração pública retém seus quadros por 158 meses (13 anos). a diferença de 11 vezes traduz a desigualdade de segurança que a análise salarial não captura.[2]

A rotatividade nesses setores não é acidental: é estrutural. Contratos curtos, alta sazonalidade e baixo custo de substituição criam um mercado em que o trabalhador da base troca de emprego sem acumular capital previdenciário suficiente. O FGTS foi concebido como compensação pela instabilidade, não como desincentivo a ela.

Tabela 3. Jornada, rotatividade e precariedade por setor — São Paulo, RAIS 2024

SetorVínculosMedianaR$/horaTempo(m)Hrs/sem% Par.% Int.
Adm. Pública422.249R$ 8.250R$ 48.13158*39,60,0%0,0%
Educação351.100R$ 4.450R$ 26.8734*38,21,8%0,2%
Info e Comunicação241.230R$ 6.950R$ 35.082845,81,0%0,5%
Financeiro288.463R$ 8.350R$ 42.072645,92,3%0,0%
Serv. Profissionais267.349R$ 3.950R$ 19.622646,40,3%2,1%
Saúde449.879R$ 3.750R$ 22.5534*38,52,5%0,2%
Transporte241.869R$ 3.350R$ 17.3938*44,50,7%0,6%
Indústria328.524R$ 2.950R$ 14.893445,80,2%0,3%
Outros471.165R$ 2.450R$ 13.102243,20,7%1,1%
Comércio883.844R$ 2.450R$ 12.492045,30,5%0,4%
Construção327.200R$ 2.650R$ 13.571445,10,3%1,9%
Serv. Administrativos1.074.349R$ 2.150R$ 11.161644,50,3%3,5%
Fonte: RAIS 2024 (MTE/PDET). Vínculos ativos 31/12/2024.

Mediana salarial via histograma de faixas de R$ 100. R$/hora = mediana / (horas × 4,33). Tempo(m): mediana do tempo de emprego, somente vínculos CLT privado (tv=10,15). * Setores com estatutários: valores não comparáveis com CLT privado.

Decomposto pela jornada, o ranking se reorganiza: a administração pública lidera com R$ 48,13/hora (39,6h semanais); o financeiro, que tem a maior mediana nominal, cai para R$ 42,07 pela jornada de 45,9h – acima do limite constitucional de 44 horas. A educação (r$ 26,87/hora com 38,2h) supera o comércio (r$ 12,49/hora) e a construção (r$ 13,57/hora) pela metade da jornada.

É nesse vácuo de estabilidade que o trabalho intermitente avança. Serviços Administrativos lideram com 3,5% dos vínculos nessa modalidade – cerca de 37.600 trabalhadores em São Paulo sem garantia de horas mínimas ou salário fixo.[3] Para quem mora na periferia e leva 90 minutos por trecho até o trabalho, a jornada real chega a 60h semanais: 15h não remuneradas por semana, 750h por ano, confiscadas pela segregação territorial.

A RAIS registra o contrato; a PNADC registra a experiência. Esses contratos são apenas a fração visível: a PNADC 2024 estimou 5,1 milhões de subocupados por insuficiência de horas no Brasil – trabalhadores que têm vínculo, trabalham, mas gostariam e precisariam de mais horas para compor renda. Essa categoria – invisível na taxa de desemprego – concentra-se exatamente nos setores de menor mediana salarial desta análise: comércio, vigilância, limpeza, atendimento. O intermitente da RAIS e o subocupado da PNADC evidenciam o mesmo trabalhador visto por duas lentes diferentes.

A terceirização invisível

A proporção de vínculos classificados como autônomo/sem vínculo empregatício (tv=80) é próxima de zero em todos os setores – entre 0,0% e 0,2%. Mas a cifra é enganosa: esses vínculos estão concentrados em CNAEs específicos de alta remuneração (contabilidade, holdings, seguros), onde o ‘pejotamento’ é mais frequente e menos visível nas agregações setoriais. Na RAIS 2024, 47% dos vínculos tv=80 têm remuneração zerada – o rastro documental de trabalhadores PJ cujos custos previdenciários foram transferidos do empregador para o próprio trabalhador.

A terceirização real está em outra camada: os grupos CNAE 81 e 82 (limpeza, vigilância, apoio administrativo) – que compõem o setor Serviços Administrativos desta análise – concentram 1.074.349 vínculos com mediana de R$ 2.150. São os trabalhadores que sustentam a operação das grandes empresas financeiras e de TI, evidenciando que a riqueza do centro econômico é subsidiada pela compressão salarial dessa massa terceirizada.

Os cinco distritos mais populosos de São Paulo – Grajaú (384.873 hab.), Jardim Ângela (311.432), Capão Redondo (270.767), Sapopemba (266.715) e Sacomã (261.436) – somam 1,5 milhão de moradores, 13,1% da cidade. Todos estão na periferia sul, sudeste e leste. Os distritos que concentram os empregos de maior remuneração têm populações quatro vezes menores: Itaim Bibi (84.123 hab.), Pinheiros (65.145), Moema (73.552).

Tabela 4. Densidade emprego/PEA por distrito — São Paulo, RAIS 2024

DistritoTipoEmp/PEAPop resid.Emprego est.
Itaim BibiPolo atrator420%84.123236.720
PinheirosPolo atrator280%65.145122.211
Jardim PaulistaPolo atrator210%88.234124.143
MoemaPolo atrator190%73.55293.630
Vila MarianaPolo atrator130%98.43285.733
—————
Itaim PaulistaDormitório15%205.29520.632
Cidade TiradentesDormitório16%194.17720.815
Jardim ÂngelaDormitório18%311.43237.558
Cidade AdemarDormitório19%249.21831.725
GrajaúDormitório22%384.87356.730
Fonte: RAIS 2024 (MTE/PDET). Vínculos ativos 31/12/2024.

Densidade = empregos estimados / PEA residente (pop × 0,67). Estimativa baseada no perfil setorial da RAIS e distribuição territorial do Censo 2022. A RAIS pública não disponibiliza CEP do estabelecimento: valores são ordens de grandeza.

O Itaim Bibi tem densidade de 420% – 4 empregos formais para cada trabalhador residente. Itaim Paulista tem 15% – menos de 1 emprego para cada 6 residentes. São Paulo é uma cidade de commuting estrutural: a distância entre moradia e trabalho é diretamente proporcional à posição na hierarquia salarial.

A Lei 13.467/2017 introduziu o trabalho intermitente, ampliou a terceirização e flexibilizou a negociação individual. Seus efeitos mais visíveis na RAIS 2024: crescimento do intermitente nos setores de serviços ao consumidor e disseminação do vínculo PJ nos setores de alta remuneração. O paradoxo é que são os mais qualificados – com maior poder de barganha – os que mais aceitam o PJ, transferindo para si os custos previdenciários que antes eram obrigação patronal. A fragilização resultante só se tornará visível décadas à frente, na aposentadoria.

A concentração de 1,07 milhão de vínculos em serviços administrativos com mediana de r$ 2.150 não é distorção do mercado: é sua condição de funcionamento. O gradiente de porte confirma que quanto menor a empresa, menor a proteção efetiva – não porque o CLT não se aplique, mas porque baixa remuneração, alta rotatividade e dependência econômica tornam a proteção formal insuficiente na prática.

Há uma dimensão que a RAIS não captura diretamente: a escala de trabalho. A legislação brasileira permite a escala 6×1 – seis dias de trabalho para um de folga –, e ela é a realidade de grande parte dos atendentes, vigilantes, faxineiros e operadores dos setores de base. Um trabalhador nessa escala cumpre até 220 horas mensais. Combinada ao tempo de deslocamento na periferia, essa carga representa uma expropriação de tempo que nenhuma mediana salarial consegue traduzir. Não por acaso, a campanha pelo fim da escala 6×1 encontrou eco precisamente nos setores com as menores medianas e maior rotatividade desta análise.

A desigualdade no mercado formal paulistano não é residual nem transitória; é estrutural, territorial e setorialmente organizada. Ela não se esgota na insuficiência quantitativa de postos de trabalho, mas na natureza predatória da sua distribuição. A reprodução deste modelo depende da manutenção de um vasto contingente de empregos desvalorizados, rotativos e segregados. Neste sentido, a estrutura urbana de São Paulo não é apenas o cenário onde a desigualdade ocorre; é o próprio mecanismo que a torna permanente.

O debate sobre a qualidade do emprego permanece sintomaticamente ausente da agenda política. Enquanto o Plano Diretor Estratégico (PDE) prioriza o adensamento e o uso do solo, ignora-se a distribuição setorial do trabalho e seus efeitos devastadores sobre a mobilidade e a vida. As políticas de transporte expandem corredores sem equacionar a assimetria dos destinos, revelando um descompasso planejado: a cidade investe na eficiência da circulação da força de trabalho, mas preserva a imobilidade das hierarquias sociais.

*Marcelo Phintener é analista de dados e doutorando em filosofia política na PUC-SP.

Referências


Fonte primária: RAIS 2024, microdados de vínculos (RAIS_VINC_PUB_SP.COMT), PDET/MTE, dez/2025. Vínculos ativos em 31/12/2024, município de São Paulo (código 355030). Fonte secundária: Censo 2022, Agregados por Setores Censitários, IBGE (27.301 setores em SP). Classificação setorial: 2 primeiros dígitos CNAE 2.0, 12 setores. SM = R$ 1.412,00 (dez/2024). Limitações: (1) a RAIS cobre apenas vínculos formais — os 38% de informais da RMSP não aparecem; (2) a variável de distrito não foi preenchida no arquivo público 2024, impedindo geocodificação direta; (3) proxy territorial baseada em perfil setorial — valores são ordens de grandeza; (4) o cruzamento com dados individuais de trabalhadores exigiria acesso à RAIS identificada, não disponível publicamente.

Notas


[1] O trabalhador típico de serviços administrativos precisa trabalhar um mês inteiro para receber o equivalente a 8 dias de trabalho do trabalhador típico do setor financeiro.

[2] Um trabalhador de serviços administrativos que começa aos 22 anos e se aposenta aos 65 terá, em média, 13 empregos ao longo da vida — cada um durando cerca de 3 anos. Um servidor público terá tido apenas 3 vínculos. A diferença não é de mérito: é de setor.

[3] O trabalho intermitente é a forma mais extrema de transferência de risco ao trabalhador: disponível sem garantia de renda, arcando com todos os custos fixos enquanto aguarda convocação. Sua concentração nos setores de menor salário consolida, agora legalmente, uma precariedade que antes era apenas informal.

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