Cinema e política em Leon Hirszman

Vasco Prado, Liberdade n° 1, alumínio fundido pintado a duco, 60.50 cm x 33.50 cm, 1972. Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini

Por EDUARDO MORETTIN*

Prefácio do livro recém-lançado “Por um Cinema Popular: Leon Hirszman, Política e Resistência”, de Reinaldo Cardenuto

O livro Por um Cinema Popular: Leon Hirszman, Política e Resistência, de Reinaldo Cardenuto, é uma contribuição fundamental para o exame das relações entre cinema e política durante o regime civil-militar brasileiro. A partir da obra de Hirszman, tanto de seus filmes quanto de trabalhos menos conhecidos, o autor percorre as questões-chave para compreender os projetos estéticos ligados à resistência à ditadura no período.

Antes de comentar alguns dos muitos aspectos que considero importantes do livro, gostaria de recuperar um pouco da trajetória do autor a fim de mostrar ao leitor a coerência de seu percurso e o lugar que nele ocupa Por um Cinema Popular, ponto de chegada de extensa produção anterior.

Em sua dissertação de mestrado, intitulada Discursos de Intervenção: O Cinema de Propaganda Ideológica para o cpc e o ipês às Vésperas do Golpe de 1964, Cardenuto contrapunha Cinco Vezes Favela (1962), produção do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) aos documentários de Jean Manzon financiados pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês), instituto que, como se sabe, com os recursos dos empresários brasileiros e apoio norte-americano, agia claramente no sentido de fomentar o golpe em curso contra o governo de João Goulart.

O contraponto proposto pelo autor valorizava a dimensão discursiva dos filmes, ao mesmo tempo que mobilizava as questões ideológicas e políticas postas em marcha por cada um dos lados. Neste trabalho defendido em 2008 na Universidade de São Paulo, Cardenuto realiza sólida investigação teórica sobre o nacional e o popular, um dos eixos centrais do debate sobre a cultura brasileira que, elaborado no início dos anos 1960, persistirá na década seguinte a organizar a pauta de muitos atores sociais, como é o caso de Hirszman, figura exponencial do Cinema Novo.

O diretor de Pedreira de São Diogo, um dos episódios de Cinco Vezes Favela, era, em função do papel que desempenhou nesta produção do CPC e em outros projetos da entidade, figura importante na reconstituição dos processos históricos e culturais promovida por Cardenuto nesta pesquisa. Em paralelo e em conjunto com a realização de seu mestrado, o autor se ocupou de Hirszman e do período por meio de inúmeras iniciativas.

Dentre elas, posso citar a sua participação nos materiais produzidos para os lançamentos dos DVDs de sua obra pela Video Filmes[i] e na mostra “Leon Hirszman”, ocorrida em setembro de 2005 na cidade de São Paulo.[ii] Cabe lembrar também a curadoria de outra mostra, “Golpe de 64: Amarga Memória”, realizada em 2004 quando Cardenuto integrava o Núcleo de Cinema e Vídeo do Centro Cultural São Paulo, atividade que atesta seu amplo conhecimento da filmografia sobre o tema e, de certa forma, consolida o percurso formativo necessário para um historiador que lida com o período.[iii]

A vintena de páginas de seu projeto de doutorado em torno de Hirszman e de sua atuação nos anos 1970 e 1980 já indicava, portanto, um auspicioso doutorado, pesquisa que acolhi com prazer durante os anos que separam o seu ingresso em nosso programa de pós-graduação em 2010 e a defesa, ocorrida em 2014. A excelência da comissão julgadora de sua tese, composta por Ismail Xavier, Marcos Napolitano, João Roberto Faria e Mônica Kornis, apontava para a importância de sua contribuição e a diversidade dos caminhos que irradiavam de sua leitura, que seguem a história do cinema sem deixar de vista a do teatro, que valorizam o exercício de análise fílmica ao mesmo tempo que mergulham nos dilemas do frentismo nos anos 1970, como tão bem expressa o seu exame de Eles Não Usam Black-Tie (1981).

Articulam-se, assim, áreas do conhecimento como a dramaturgia teatral, os estudos do cinema, as ciências sociais e a história política do Brasil, todos os campos abordados quase à exaustão, como as notas explicativas denotam. Esta excelência depois foi confirmada pelos prêmios recebidos: Menção Honrosa do Prêmio Compós de Teses Eduardo Peñuela da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) em 2015; Menção Honrosa do Prêmio Capes de Tese 2015 da área de Ciências Sociais Aplicadas; e, por fim, Menção Honrosa do Prêmio Tese Destaque USP em 2016. A publicação em livro, com apoio da Fapesp, parece soar como consequência natural do reconhecimento pregresso.[iv]

Por um Cinema Popular: Leon Hirszman, Política e Resistência se dedica aos principais filmes e projetos de Leon Hirszman entre os anos de 1976 a 1981: Que País é Este? (1976-1977), programa televisivo produzido pela Radiotelevisione Italiana (RAI) e realizado em parceria com o jornalista Zuenir Ventura, trabalho praticamente desconhecido do cineasta; abc da Greve (1979-1990), documentário que registra em 1979 as greves operárias do ABC (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano), montado em 1980, mas lançado em 1991, quatro anos após a morte do diretor; e Eles Não Usam Black-Tie, o seu filme de maior bilheteria, adaptação da peça homônima escrita por Gianfrancesco Guarnieri em 1956.

No livro, assim como na tese, os oito capítulos, anexos e suas mais de quatrocentas páginas se estruturam com subtítulos e divisões internas dispostos com o intuito de facilitar o acesso do leitor ao seu conteúdo. Sem abrir mão da erudição e da complexidade, Cardenuto assumiu conscientemente a ideia de que o livro poderia ser apreciado a partir de dois movimentos distintos: um que fosse de “cabo a rabo”, dado o encadeamento de temas, agentes históricos e questões, e outro no qual os capítulos pudessem ser lidos de modo independente, sem a perda dos argumentos gerais desenvolvidos, como, de modo geral, ocorre em trabalhos que procuram, como o dele, dar conta de diferentes fenômenos artísticos, culturais e políticos. Com essa perspectiva no horizonte, organizou a escrita de modo a reiterar, a cada capítulo, ideias centrais em torno da cinematografia de Hirszman e de outras questões políticas, sociais e culturais relacionadas ao Brasil dos anos 1960 e 1970.

Deve ser destacada ainda a extensa pesquisa histórica realizada pelo autor. Os acervos da Cinemateca Brasileira, do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp, entre outros, foram vasculhados a fim de resgatar documentos textuais e orais que pudessem reconstituir os projetos ideológicos que se encontram na origem dos filmes que constituem o corpus examinado pelo livro. Como diz Cardenuto, Hirszman era “praticamente um ágrafo, alguém que fazia raríssimas anotações escritas”. Por isso, os registros gravados de seus depoimentos ou de suas participações em debates foram fundamentais para recuperar os elementos concernentes ao “seu processo criativo ou [às] suas preferências ideológicas”.

No que diz respeito às fontes, destaco, dentre inúmeros exemplos que poderia trazer, o exame das gravações das conversas do diretor com Guarnieri a propósito da adaptação de Eles Não Usam Black-Tie e da transcrição da banda sonora do filme, hoje perdido, Que País é Este?. Cabe ressaltar que o resgate destes testemunhos do cineasta em acervos não teve como resultado a complacência do crítico que acomoda suas leituras às do realizador, como vemos em muitos trabalhos. Cardenuto abordou estas falas como um ponto de vista, privilegiado, de certo, a ser cotejado tanto com os filmes quanto com outros documentos, sem relação de necessária subordinação do que vemos e ouvimos nas articulações das imagens e sons das obras analisadas às fontes. Por fim, devem ser ressaltadas as entrevistas, como a de Zuenir Ventura, a extensa bibliografia, cuja listagem ocupa mais de dez páginas, e os anexos, em particular o chamado “roteiro literário” de Que País é Este?, primoroso trabalho de reconstituição feito pelo autor a partir de diversas fontes.[v]

Por um Cinema Popular traz em seu início uma abordagem geral da obra de Hirszman, dos anos sessenta aos anos oitenta, centrada na discussão do que Cardenuto chama de cinema popular, com a formulação de uma poética realista que atingisse o maior público possível. Mapeia seu engajamento com o PCB, o envolvimento com o Cinema Novo, o impacto do golpe militar no campo cinematográfico e teatral, com destaque para a atuação do Teatro de Arena, os dilemas decorrentes da modernização da indústria cultural no Brasil, em particular a televisão, e as perspectivas que surgiram voltadas para as possibilidades de uma arte que conciliasse o nacional e o popular. A atenção dada ao Teatro de Arena se deve à aproximação do diretor a artistas como Paulo Pontes, Vianinha e Gianfrancesco Guarnieri e à formulação do que o autor chama de “dramaturgia de avaliação”,[vi] que retoma e revisa as proposições estéticas do nacional e popular para criar formas dramatúrgicas que permitissem “uma aproximação crítica mais eficaz com os espectadores”.

Para Cardenuto, os três eixos desta dramaturgia estão presentes nos filmes analisados de Hirszman, formas de expressão desta reelaboração da estética engajada dos anos 1960, da qual ele participou via CPC, e de sua atualização em um perspectiva comunista que se deparava com novos desafios. São eles: “o retorno às representações politizadas do povo, a insistência no militante de esquerda como interlocutor do engajamento e o elogio à forma dramática realista, especialmente na chave emoção-conscientização”. Para chegar a esta conclusão o autor esmiúça o debate presente no campo teatral, revisitando peças como Rasga Coração, de Vianinha, e Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, dentre outras que poderiam ser aqui citadas.

Dado o quadro geral, Cardenuto examina a fundo seu corpus. Uma das maiores contribuições do livro ao entendimento da obra de Hirszman é a recuperação histórica de Que País é Este? que, como indica o título, era uma “tentativa de diagnóstico” da situação vivida pelo país, como nos diz Zuenir Ventura. No capítulo dedicado ao documentário, o autor aprofunda a discussão do frentismo e a sua representação fílmica, comparação e análise que não se restringe aos filmes, mas também às peças que abordaram e incorporaram o tema.[vii]

Em todos os capítulos, o contexto histórico é convocado para o exame das questões trazidas pelas obras, sempre em uma relação dialética, sem perspectivas teleológicas e com a valorização do que no percurso se apresenta como indecisão ou reavaliação, princípio de método que remonta aos trabalhos de Paulo Emilio e Ismail Xavier. Temos o surgimento do novo sindicalismo da região do ABC paulista, o questionamento à unidade sindical defendida pelo PCB, a cinematografia dedicada ao registro das greves do final da década de 1970, marcada por diretores como Renato Tapajós, Roberto Gervitz e Sérgio Toledo Segall, questões que são mobilizadas para situar as especificidades de abc da Greve e Eles Não Usam Black-Tie. No caso do documentário, por exemplo, o autor demonstra como o filme de Hirszman explicita as dissonâncias e “o descontentamento daqueles que se colocaram contrários ao acordo” ao mesmo tempo em que “registra a voz de metalúrgicos que se colocaram a favor do acordo firmado por Lula”. Desta forma, oferece um testemunho da História “sem ocultar as dificuldades enfrentadas pelo novo sindicalismo durante as paralisações de 1979”.

Outro traço importante de Por um Cinema Popular é o rigor com que o autor estuda com afinco os projetos que se encontram nas origens dos filmes. Neste sentido, é exemplar o capítulo sétimo, dedicado ao exame de Segunda-feira, Greve Geral, argumento primeiro que surgiu das conversas entre Hirszman e Guarnieri antes de Black-Tie, e à reflexão dos ajustes possíveis a serem realizados na adaptação cinematográfica, tendo em vista que as respostas a serem dadas no início da década de 1980 eram diferentes das imaginadas pela peça de Guarnieri encenada nos anos 1950. Desta forma, o livro termina com a recuperação dos debates sobre a dramaturgia de avaliação para, na atualização da peça proposta pelo filme, mostrar “as fraturas existentes no movimento operário do novo contexto histórico, [e como Hirszman e Guarnieri] renunciariam à heroicidade exemplar associada ao pressuposto comunista anterior a 1964 e instalariam a morte como dado sensível para a leitura de um Brasil em tempos ditatoriais”.

No momento em que o emprego da qualificação “novo”, tanto no que diz respeito a projetos políticos ou historiográficos, perde o significado efetivo de uma real ruptura com práticas passadas, o livro traz, pelos motivos expostos acima, um verdadeiro alento. Em seu mergulho de corpo e alma na história do cinema brasileiro, Cardenuto propõe ao leitor outras rotas possíveis para que cheguemos à superfície e vislumbremos o espaço em sua cartografia geral, para que possamos, enfim, repensar este período histórico, entender os seus movimentos e apreender sua configuração para que tenhamos um horizonte.

Em tempos tão distópicos quanto os atuais, em meio à pandemia provocada pelo COVID 19 e à tentativa de destruição da democracia por aqueles que se encontram momentaneamente à frente dos destinos de nosso país, não é sem nostalgia que percorro as páginas que recuperam a luta de um artista da magnitude de Hirszman. Nostalgia, explico, porque as respostas dadas pelo diretor de S. Bernardo no campo artístico, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, como a censura, a truculência da ditadura, e o embate político, tiveram como legado obras-primas que, com sua estética de acolhimento, criaram laços entre o público e os filmes com o intuito de fomentar nos interlocutores a percepção de que o verdadeiro inimigo se encontrava no regime militar. Em tempos nebulosos, respostas claras, assertivas e diretivas.

Por um Cinema Popular: Leon Hirszman, Política e Resistência, entre as suas inúmeras contribuições, suscitará no leitor a inquietação dos que viveram os anos de chumbo e que procuraram resistir ao autoritarismo, tendo como norte o avanço rumo à normalidade democrática. Somos devedores, porque beneficiados, desta luta. Como disse o autor, já ao final de seu livro, “Black-Tie transpirava a sensação de que outro Brasil poderia surgir no horizonte”. Hoje, a despeito da possibilidade histórica que tivemos de concretizar esta sensação, a pergunta feita por Hirszman em seu documentário dos anos 1970 continua atual: que país é este? O pesadelo atual parece interminável, mas a leitura nos provoca a reflexão: o que podemos fazer para sairmos do lugar em que nos encontramos?

*Eduardo Morettin é professor de história do audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Humberto Mauro, cinema, história (Alameda).

Referência


Reinaldo Cardenuto. Por um Cinema Popular: Leon Hirszman, Política e Resistência. Cotia (SP), Ateliê Editorial, 2020, 490 págs.

Notas


[i] Eu me refiro particularmente aos textos que acompanham os volumes 1 a 4 desta coleção, lançados entre 2007 e 2009, organizados por Cardenuto e Carlos Augusto Calil, e a assessoria de pesquisa para o filme Deixa que Eu Falo (2007), de Eduardo Escorel, que está disponível na mesma coleção.

[ii] Cardenuto, que à época atuava como assessor da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, foi o responsável pela produção e pesquisa, cabendo a Calil a coordenação do projeto. O catálogo traz uma série de entrevistas concedidas por Hirszman, além de sua filmografia completa.

[iii] O catálogo, homônimo, traz a apresentação de Cardenuto e textos de especialistas, como Marcelo Ridenti, Carlos Fico, Inimá Simões e Rubens Machado Jr., dentre outros, além de extensa filmografia sobre o assunto.

[iv] Gostaria ainda de destacar que Cardenuto lançou em 2016 Entre Imagens (Intervalos), co-dirigido com Andre Fratti Costa, curta-metragem que trata da trajetória de Antonio Benetazzo, artista plástico e militante assassinado pela ditadura militar. Além desta obra, foi curador da exposição “Antonio Benetazzo, permanências do sensível”, que resultou também na publicação de livro homônimo.

[v] No que diz respeito a este trabalho de reconstituição realizado com Que País é Este?, Cardenuto se alinha à tradição, consolidada em nosso país em virtude de ausência de sólida política de preservação audiovisual, de recuperar os regimes de historicidade e estéticos de uma obra a partir dos arquivos cinematográficos, de seus fundos e coleções. Dentre os pesquisadores ao qual filio o autor de Por um Cinema Popular está Paulo Emilio Salles Gomes e sua análise de Na Primavera da Vida (1926), de Humberto Mauro, estudo presente no luminoso Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte, São Paulo, Perspectiva, 1974.

[vi] Como o próprio autor informa, o conceito foi primeiramente elaborado no artigo escrito por ele para a revista Estudos Avançados, com o título “Dramaturgia de Avaliação: O Teatro Político dos Anos 1970”, vol. 26, n. 76, nov.-dez. 2012, pp. 311-332. Cardenuto discorreu sobre o assunto também em “A Sobrevida da Dramaturgia Comunista na Televisão dos Anos 1970: O Percurso de um Realismo Crítico em Negociação”, publicado no livro Comunistas Brasileiros: Cultura Política e Produção Cultural, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2013, pp. 85-106, organizado por Marcos Napolitano, Rodrigo Czajka e Rodrigo Patto Sá Motta.

[vii] Esta discussão amplia e aprofunda as análises do pioneiro trabalho de Marcos Napolitano, Coração Civil: A Vida Cultural Brasileira sob o Regime Militar (1964-1985), São Paulo, Intermeios, 2017, e dialoga com o livro de Margarida Maria Adamatti, Crítica de Cinema e Repressão: Estética e Política no Jornal Alternativo Opinião, São Paulo, Alameda, 2019.