Comer tâmaras sem precisar contar

Imagem: Monirul Islam
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Por SALEM NASSER*

Em um mundo onde o poder fabrica consenso e apaga cadáveres, a história de Asem e sua tâmara é um raio de luz na escuridão. Não apenas denúncia, mas poesia da resistência: um gesto que atravessa gerações, mostrando que a fome de justiça é mais forte que a fome de pão

1.

No Brasil, os crimes julgados por um júri popular são aqueles dito “de sangue”, em que, de algum modo se atenta contra a vida.

Um dos maiores advogados que um dia atuaram perante júris populares, Waldir Troncoso Peres, ensinou um dia a um grupo de alunos de primeiro ano de direito, entre os quais eu me encontrava, que a principal função do advogado de defesa era fazer com que os jurados esquecessem que existia um cadáver!

Já um grande frasista, e cínico, o jornalista H.L. Menken, dizia que o júri era um grupo de 12 pessoas que se reunia para decidir quem era o melhor advogado!

Pois bem, não resta dúvida de que no mundo há muita gente, muitas instituições, muitos poderes, muitos Estados, que em conjunto tentam nos fazer esquecer que há um genocídio em curso, tentam fazer com que não sejamos capazes de perceber o genocídio e senti-lo. São o melhor advogado que o genocida podia querer para si.

Noam Chomsky e outros falaram da função de fabricar consentimento, e eu diria que é também a de fabricar consenso. Trata-se de poderes que, sob o manto da aparente liberdade de expressão e de debate, efetivamente restringem o campo do que se pode saber, conhecer, discutir, acreditar. São poderes capazes de jogar para a margem, para fora do grande fluxo de comunicação “oficial” (digo oficial por falta de melhor equivalente para “mainstream”), toda nota discordante.

Eu já me imaginei sentado à margem desse grande e poderoso rio, lançando nele a minha modesta isca, tentando fisgar homens e mulheres que quisessem ver as coisas sob outras luzes, que tivessem a disposição para sair do conforto da caverna em acreditavam ser a verdade aquilo que não passava de sombras projetadas sobre uma parede.

2.

Nos dias que correm, podemos incorrer na tentação de acreditar que as margens, ou os marginais, finalmente invadiram o grande curso das águas, as redes sociais substituindo em alguma medida os grandes meios de comunicação e dando mais livre curso às variadas perspectivas pelas quais se pode olhar o mundo.

Não irei mais longe aqui na discussão do que penso serem os ganhos das redes sociais e do que penso serem seus problemas e limites; deixarei para outro momento. Direi apenas que as grandes plataformas e seus donos, de modo geral, também trabalharam, e seguem trabalhando, para que o cadáver do genocídio não ocupe o centro da cena.

Acredito que, por um lado, chegou um determinado momento em que era preciso ceder à força do que as pessoas queriam mostrar, dizer, denunciar, a respeito da Palestina e de Gaza; era preciso abrir um pouco as comportas para preservar a represa.

Por outro lado, acredito que as nossas manifestações em veículos paralelos (o paralelo, aqui, já não são as redes e as plataformas, mas são os canais e as comunidades em que se encontram os que concordam entre si) servem um pouco como válvula de escape, lugares para permitir a saída da pressão excessiva, sem deixar que a caldeira exploda.

Podemos acreditar que grandes jornais e redes de televisão e rádio caminham para a obsolescência e para a insustentabilidade como modelos de negócio, mas está claro para mim que continuam a cumprir um papel fundamental na definição da agenda. Se esses grandes veículos quisessem e tivessem a coragem de adotar essa pauta, tenho certeza de que o genocídio na Palestina seria tema de discussão cotidiana em todos os segmentos da população.

É claro que a razão para a falta de coragem desses veículos é a mesma que explica a covardia de elites políticas, econômicas, intelectuais, especificamente no Ocidente e nos lugares do Sul Global que não sabem pensar autonomamente (que é o caso do Brasil).

3.

Um dos lugares em que se pode acompanhar a tragédia cotidiana, e épica, que se abate sobre os palestinos, sobretudo em Gaza, é o canal Electronic Intifada. Recomendo.

Confesso que não tenho estrutura emocional para assistir todos os dias, mas quando assisti, há dois ou três dias, dei de cara com uma história que podia ser um poema: ao mesmo tempo, um retrato cristalino do sofrimento, uma lição de resistência e de esperança, um pequeno brilho de humanidade, um toque de lirismo…

Os apresentadores, Nora Barrows-Freidman e Ali Abunimah, entrevistam mais uma vez Asem Alnabih. Asem é um dos contribuidores assíduos do site, escrevendo artigos a partir de Gaza. Ele atua como porta-voz da prefeitura de Gaza e é engenheiro e doutorando.

Ali nota de imediato: “Asem, cada vez que falamos com você percebo como você está ficando cada vez mais magro”,

Fala-se da situação em Gaza, das dificuldades. Asem Alnabih de diz privilegiado, ele ainda pode fazer uma refeição por dia, ainda tem algum acesso à energia para carregar o celular, acesso a um pouco de água. E mais, sua mulher e seus filhos não estavam em Gaza quando começou a guerra, e continuam fora; não sofrem, portanto, como o pai ou como as centenas de milhares de mulheres e crianças em Gaza.

Perguntam a Asem Alnabih o que significava o combinado que tinha feito com a esposa e que tinha mencionado no último artigo. Ele propusera à mulher encontrar um modo de fazer com que os filhos percebessem profundamente, “no fundo da alma”, o que significava a fome por que passavam os palestinos de Gaza, talvez uma única refeição por dia, talvez ter que percorrer uma certa distância para encontrar comida?…

Ele esclarece rapidamente: ele sabe quantas pessoas no mundo expressam a sua solidariedade com Gaza, inclusive recorrendo à greve de fome; ele não tinha a intenção de fazer com que as pessoas se sentissem culpadas; convidava apenas a uma compreensão mais profunda… “do fundo da alma.”

Perguntam então qual era a história da tâmara. Ele diz algo como: “gosto muito de tâmaras, tinha uma única tâmara que guardei comigo por seis meses, deixava para comer em algum momento especial. Um dia, vendo o sofrimento pelo qual minha mãe passava e sabendo que ela gosta também de tâmaras, dei para ela. Eu tenho uma irmã caçula, tem 17 anos, e há dois anos só faz estudar para obter seu diploma, sem escola, sem professores, sem eletricidade… eu realmente acredito que ela é um gênio, fala três línguas perfeitamente, não acredito que haja alguém melhor do que ela em matemática e física, realmente acredito que ela é um gênio, vai chegar muito longe… Minha mãe, vendo como minha irmã, Nasmah (que tenho vontade de traduzir como respiro, brisa, fôlego…), estudava e se esforçava, resolveu dar a tâmara para ela. Nasmah, por sua vez, achou que o melhor seria que seu, e meu, pequeno sobrinho, Mu`min (fiel, crente), de 7 anos, comesse aquela única tâmara”,

Asem termina dizendo: “Eu desejo que um dia a minha irmã Nasmah possa comer tâmaras sem precisar contá-las!”

Perguntado sobre o que se passa no fundo de sua alma, responde: “Eu sinto que vou morrer”.

*Salem Nasser é professor da Faculdade de Direito da FGV-SP. Autor de, entre outros livros, de Direito global: normas e suas relações (Alamedina) [https://amzn.to/3s3s64E]


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