Conflito de interesses no governo Trump

Imagem: Naomie Daslin
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Os nacionalistas econômicos querem retornar a um passado mítico marcado pelo esplendor industrial americano, enquanto o campo tecnológico imagina um futuro utópico administrado pela inteligência artificial

1.

As ideias da extrema direita radical têm raízes em diversas correntes históricas e filosóficas. Ao longo do tempo, deram forma a visões autoritárias, nacionalistas e excludentes. Suas origens podem ser agrupadas em cinco eixos principais.

(i) O nacionalismo radical tem raízes no romantismo do século XIX. Exaltava a nação como uma entidade orgânica, ligada à cultura, à língua e, em algumas versões, à raça. Ideias de supremacia nacional são reforçadas em períodos de crise, quando grupos extremistas culparam estrangeiros e minorias por problemas internos.

(ii) A extrema direita radical se opõe à democracia liberal, vendo-a como fraca e decadente. No passado, defendia a monarquia e a autoridade religiosa contra os ideais iluministas. No século XX, regimes como o fascismo e o nazismo rejeitaram o individualismo liberal, promovendo um Estado autoritário e centralizador.

(iii) A crença em uma liderança forte e carismática, capaz de representar “a vontade do povo” sem necessidade de eleição democrática, remonta a tradições autocráticas antigas. O fascismo de Benito Mussolini e o nazismo de Adolf Hitler levaram essa ideia ao extremo, defendendo um Estado totalitário no qual todas as esferas da sociedade eram subordinadas ao poder do líder.

(iv) Durante a Guerra Fria, ditaduras de extrema direita aproveitaram-se do “anticomunismo” para repressões e golpes militares deliberados como o ocorrido no Brasil. A extrema direita radical passou a ver o socialismo, o marxismo e até o liberalismo cosmopolita como ameaças à “ordem natural”. No mundo contemporâneo, o antiglobalismo surge como novo pilar, alegando as instituições internacionais e elites globais conspirarem contra os interesses nacionais.

(V) Muitas correntes extremistas baseiam-se em interpretações conservadoras de valores religiosos e morais, opondo-se aos direitos civis de minorias e ao feminismo. Esse aspecto tem raízes em movimentos reacionários contra mudanças sociais, como a Revolução Francesa e os direitos civis do século XX.

As ideias da extrema direita radical não surgem de uma única fonte, mas de uma combinação de nacionalismo extremo, autoritarismo, conservadorismo social e exclusão ao liberalismo democrático. Em tempos de crise econômica e social, esses elementos são mobilizados para políticas excludentes, repressivas e antidemocráticas.

2.

As ideologias da supremacia branca, do nativismo e do natalismo anti-woke são pilares da extrema direita norte-americana e têm sido disseminadas globalmente por seus adeptos. Eles se agrupam em um núcleo comum de nacionalismo excludente, conservadorismo moral e exclusão da diversidade, influenciando grupos extremistas em diferentes países.

A ideia de os brancos serem superiores tem raízes nos EUA desde a escravidão e foi reforçada por grupos como a Ku Klux Klan e, mais recentemente, por movimentos como os alt-right e os nacionalistas identitários. Essa ideologia se baseia no medo da “substituição étnica”, um preconceito promovido por ideólogos da extrema direita ao alegarem as elites globalistas estarem promovendo a imigração e a miscigenação para diluir as populações brancas.

O nativismo é a defesa de apenas os “nativos” de uma nação (definidos por “raça” e cultura) terem direitos plenos, enquanto imigrantes e minorias são vistos como ameaças. Nos EUA, essa ideia se intensificou com políticas anti-imigração e retórica contra latinos, muçulmanos e outras minorias, promovidas por políticos e influenciadores de extrema direita. Essa ideologia foi exportada para a Europa, onde partidos de extrema direita usam o medo da imigração para mobilizar uma massa de manobra contra muçulmanos e africanos.

O “natalismo” de extrema direita prega as famílias brancas e cristãs terem mais filhos para combater a suposta “ameaça demográfica” de imigrantes e minorias. O discurso anti-woke rejeita a igualdade de gênero, o feminismo e os direitos LGBTQ+, alegando eles estarem enfraquecendo a sociedade e reduzindo as taxas de natalidade dos “nativos”.

Essas ideologias se espalharam por meio de redes sociais, think tanks e movimentos internacionais de extrema direita. Criaram uma identidade transnacional baseada em valores ultraconservadores. Eventos como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) ajudam a unificar esses grupos globalmente, influenciando partidos e movimentos extremistas na Europa, América Latina e até na Ásia.

A extrema direita norte-americana tem um impacto global, difundindo ideias de supremacia racial, protecionismo cultural e conservadorismo social para fortalecer sua visão de mundo. Aproveitando-se dos ressentimentos alimentados e das tensões sociais, esses movimentos ameaçam valores democráticos e promovem divisões profundas dentro das sociedades.

3.

Dani Rodrik alerta para um confronto iminente no mundo de Trump. “Embora Donald Trump tenha chegado ao poder surfando um tsunami de hostilidade pública contra as ‘elites’, seus apoiadores são, eles mesmos, membros proeminentes do establishment e da plutocracia”.

Como ocorreu durante seu primeiro mandato, Donald Trump – um empresário rico, aético e celebridade da TV – cercou-se de uma mistura de políticos republicanos convencionais, financiadores de Wall Street e nacionalistas econômicos. Mas desta vez esses grupos foram acompanhados por membros da tecno-direita, representados de forma mais gritante por Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo.

A crença de suas agendas específicas serem mais bem servidas sob Donald Trump une esses grupos. Evidentemente, não é o duvidoso caráter dele: (a) os republicanos conservadores querem impostos baixos e menos regulamentação; (b) os nacionalistas econômicos querem fechar o déficit comercial e restaurar a manufatura dos Estados Unidos; (c) os absolutistas da liberdade de expressão, para propagação de seu credo contra a democracia liberal, querem acabar com o que veem como “censura woke”; (d) a tecno-direita quer ter carta branca para implementar sua própria visão do futuro.

Dani Rodrik aposta o resultado ainda mais provável é essas agendas concorrentes logo entrarem em conflito, fazendo a coalizão de Donald Trump implodir. As linhas de conflito mais agudas estão entre os nacionalistas econômicos e a tecno-direita.

Os nacionalistas econômicos querem retornar a um passado mítico marcado pelo esplendor industrial americano, enquanto o campo tecnológico imagina um futuro utópico administrado pela inteligência artificial. Um é populista, o outro elitista.

“Um cultiva o populismo, o outro apenas a tecnologia. Um quer parar a imigração em geral, o outro acolhe novos talentos. Um é paroquial, o outro essencialmente globalista. Um quer desmembrar o Vale do Silício, o outro quer emponderá-lo. Um acredita em taxar os ricos, e o outro em alimentar os ricos”.

Steve Bannon, uma voz de destaque entre os nacionalistas econômicos, chama Musk de “imigrante ilegal parasitário”. Embora Bannon não esteja atualmente no governo de Donald Trump, ele é uma figura importante no movimento MAGA (“Make America Great Again”) e mantém laços estreitos com muitos funcionários de alto escalão da administração. Elon Musk agora domina o ouvido de Trump.

É típico de líderes personalistas, como Donald Trump, colocar cortesãos uns contra os outros para nenhum acumular muito poder. Ele acredita poder permanecer no topo e aproveitar os conflitos para seu próprio benefício.

Independentemente do provável racha, para Dani Rodrik, “a tragédia é os eleitores menos educados da classe trabalhadora terem se juntado à mensagem antielitista de Donald Trump e continuarão sendo os perdedores. Nenhum dos braços da coalizão de Donald Trump oferece uma visão convincente para eles”.

As aspirações dos nacionalistas econômicos dependem de um renascimento irrealista nos empregos de manufatura. A agenda política urgente seria criar uma economia de classe média em uma sociedade pós-industrial. No entanto, as diferentes elites da direita lutam por suas próprias versões dos Estados Unidos, isto é, favoráveis ao seus negócios particulares.

Afinal, Donald Trump ao se candidatar usou sua marca pessoal como celebridade televisa (após o término do programa de TV O Aprendiz) para recuperar sua situação financeira de endividado por alavancagem financeira com dinheiro de outros, muitos caloteados. Como presidente, ele aproveitou sua posição para beneficiar suas empresas, algo amplamente documentado.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]


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