Culturas políticas

Imagem: Ron Lach
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Por DYLAN RILEY*

Ao contrastar o pragmatismo americano com a tradição intelectual italiana, Dylan Riley explora como a “cultura política” atua como o elo vital entre os fatos sociais e a transformação ideológica

1.

Enquanto estava em Roma, assisti a uma palestra na Fondazione Basso, ministrada por Giancarlo Monina, seu Responsible studi storici, responsável pelos estudos históricos da instituição. Ele falou para um grupo de jovens aspirantes jornalistas sobre a história da fundação. Ele me avisou que sua palestra era para pessoas “com poca cultura storica”. Mas eu suspeitei que aprenderia bastante e não me decepcionei.

A fala começou com ele pintando uma imagem da significância histórica do local em que estávamos reunidos – o prédio medieval que Lelio Basso (1903-78) comprou nos anos 1960, durante um período em que ele havia se retirado do engajamento ativo com diversos partidos da esquerda não-comunista italiana.

Giancarlo Monina descreveu alguns dos que já palestraram lá: Gabriel García Marquez, Jean-Paul Sartre, Jürgen Habermas, Salvador Allende, os numerosos refugiados de ditaduras latino americanos para os quais a fundação servia de refúgio. Ele insistiu que este era um lugar de “cultura política”, o que levanta a questão de o que ele quer dizer com isso.

De uma perspectiva americana, não existe nada como isso. Em algum sentido ela se assemelha a um “think-tank”, mas estes tendem a não ter pretensões intelectuais. A ideia de “cultura política” ou “formação política” é estrangeira aos americanos. A razão para isso talvez seja dupla: uma combinação do que poderia ser chamado de “positivismo leigo” e da democracia.

Em relação ao primeiro, para americanos, política existe em duas dimensões: existem fatos e existem opiniões. Fatos existem como quantidades e suas relações, enquanto opiniões são visões e atitudes em relação aos fatos. O tecido conjuntivo ou estrutura que conecta o que é e o que deveria ser – o terreno do que poderíamos chamar de “ideologia política” – não recebe qualquer estatuto de realidade.

Essa metafísica então combina a religião cívica americana, que insiste que todas as pessoas têm o direito a suas opiniões e todas as opiniões recebem o mesmo respeito. Nesse contexto a ideia de cultura política, que alguém pode adquirir ou não, é inconcebível. Porque ela sugere a possibilidade que uma pessoa pode, talvez deva, aprender a ser política; e isso por sua vez sugere que uma cultura política pode ser transmitida por meio de uma relação pedagógica. Mas a pedagogia é sempre, pelo menos em parte, uma relação de autoridade, o que viola o preceito de uma democracia de opiniões.

2.

Giancarlo Monina então se voltou para a questão da formação política e intelectual de Lelio Basso. Seu pai, Ugo, era um “Giolittiano” – um liberal elitista. O jovem Lelio Basso se rebelou, escapulia para reuniões do Partido Socialista. Seu primeiro herói político foi Zapata. (A tradição revolucionária mexicana teve enorme influência sobre muitos esquerdistas italianos, incluindo o pai de Mussolini, que deu ao filho o nome de Benito em homenagem a Benito Juárez.)

Formou-se em Direito com uma tese sobre o conceito de liberdade em Marx, sob a orientação de Rodolfo Mondolfo. Durante os anos universitários e em dois períodos de confinamento sob o fascismo, suas posições se consolidaram em um compromisso com o marxismo, combinado a uma rigorosa formação jurídica, que o levaria a se tornar uma das figuras centrais na redação da Constituição italiana após a guerra.

Giancarlo Monina colocou ênfase no marxismo de Lelio Basso, mas também em sua eventual rejeição do comunismo, pelo menos em sua forma leninista. Um luxemburguista convicto, Lelio Basso acreditava na prioridade de uma auto-organização da classe trabalhadora, ainda que ele rejeitasse a obsessão do operarismo com a fábrica. Um membro da plateia levantou a mão: “se Lelio Basso era tão marxista, porque ele não se filiou ao PCI?” Os olhos de Giancarlo Monina brilharam: uma oportunidade ideal para explicar algo importante e verdadeiramente distintivo sobre o socialismo italiano.

Lelio Basso era crítico ao PCI, explicou Giancarlo Monina, não apesar de seu marxismo, mas por causa dele – uma posição que estava longe de ser isolada. Nem Saragat, nem mesmo Craxi renunciaram ao marxismo; não houve uma ideologia social-democrata autônoma. O conflito entre o socialismo italiano e o comunismo italiano foi um conflito intramuros dentro do marxismo, no qual estava longe de ser claro quem tinha a reivindicação mais convincente à ortodoxia.

A Itália nunca teve um Bad Godesberg, a conferência durante a qual o SPD alemão renunciou formalmente ao seu passado marxista. A razão fundamental para isso foi a força política e, sobretudo, cultural do PCI, que protegeu a esquerda italiana das formas mais extremas de antimarxismo da Guerra Fria – forças às quais o SPD esteve plenamente exposto, especialmente após a ilegalização do KPD.

Muito do que foi escrito sobre a relação entre marxismo e social-democracia sofre do que podemos chamar de viés nórdico-alemão, usando a autorrepresentação das sociais-democracias alemãs e escandinavas como um relato adequado. Assim, nos dizem esses relatos, a social-democracia rompeu com a tentativa ingênua do marxismo de nacionalizar a produção; ela, ao invés disso, se orientou para o direcionamento político do investimento privado, redistribuição de renda e mercado de trabalho.

A análise de Marx sobre a lógica do desenvolvimento capitalista, e particularmente sua sugestão de que o capitalismo pode ser superado por outro sistema de produção social, é apresentada como desnecessária, levando a um radicalismo utópico e prejudicial.

Na Itália, por sua vez, a ligação entre marxismo e social-democracia sempre foi muito mais clara. A trajetória de partidos sociais-democratas em países nórdico-germânicos depois da queda do comunismo, assim como aquilo que eventualmente se tornou o PSI (a casa política original de Berlusconi, afinal) mostra qual interpretação é, em última instância, mais convincente.

A social-democracia sem o marxismo tende a perder toda a coerência doutrinária e política – fragmentando-se em pedaços quando desaparece a pressão definidora de seu antagonista.

*Dylan Riley é professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Autor, entre outros livros, de Microverses: observations from a shattered present (Verso). [https://amzn.to/4oIdgba]

Tradução: Julio Tude d’Avila.

Publicado originalmente no blog Sidecar da New Left Review.

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