Por JOÃO LANARI BO*
Comentário sobre o filme de Sergei Loznitsa, em exibição nos cinemas
1.
O século XX foi, sabidamente, um século violento – guerras e tecnologias se entrecruzaram e produziram morte e destruição em escala inédita. Para um país como a Rússia, imenso e fadado a extremos, como dizia Fiódor Dostoiévski, essas ondas de violência foram, e são, particularmente fortes, guerras internas e externas.
Guerras, inclusive, que se desdobram na surdina dos corredores burocráticos, na sordidez das prisões geladas. Dois procuradores, realizado por Sergei Loznitsa, revisita essa cena, uma espécie de museu de cera em movimento.
Sim, museu de cera – museu remete a imobilidade, flagrante temporal de corpos e objetos, e cera sugere uma interioridade transitória, fugaz. Adaptado de uma novela do escritor Georgy Demidov, brilhante físico e discípulo de Lev Landau, que passou 14 anos nos Gulag soviético. O livro foi escrito em 1969 e só foi publicado em 2009, após seus manuscritos terem sido apreendidos pela KGB em 1980. A pedido da filha, foram liberados em 1988, durante a Glasnost de Mikhail Gorbachov.
Dois procuradores opta por uma linguagem minimalista, mas não menos aterradora. O adjetivo kafkiano, incorporado no vernáculo popular, encontra aqui sua expressividade cabal.
N prólogo do filme, praticamente sem diálogos, apenas murmúrios que ecoam em uma prisão labiríntica em Bryansk, um presidiário idoso recebe a tarefa de destruir cartas dos prisioneiros que apelam ao próprio Stalin por punições injustas. Uma delas, escrita com sangue em uma tira de metal, é endereçada ao promotor distrital local – e chega às mãos do jovem e inexperiente promotor Kornyev.
Interpretado por Aleksandr Kuznetsov, Kornyev é jovem advogado idealista. A mensagem denunciava um complô contrarrevolucionário na prisão – o autor é um prisioneiro de alta segurança idoso e doente, vítima de tortura física e mental. Ex-professor de direito Stepniak (Aleksandr Filippenko), membro da geração revolucionária bolchevique, foi acusado de trair o regime. Kornyev resolve ir a Moscou levar a denúncia às altas autoridades.
2.
Rodado na proporção 4:3, câmera fixa, com total ausência de cores brilhantes, o filme reproduz uma ambiência que é reflexo da atmosfera sufocante do período, o período mais dramático dos expurgos de Stálin, entre 1937 e 38. Josef Stalin comandou a URSS de 1929 até sua morte, em 5 de março de 1953 – foram vários ciclos de expurgos e perseguições, atingindo militares de alta patente, líderes revolucionários como León Trótsky e Nikolai Bukharin, artistas e escritores, funcionários públicos e acadêmicos.
Stepniak recusou-se a validar condenações falaciosas, e pior, recusou-se também a assinar a própria confissão. Obrigar os acusados a admitir a culpa era a principal peça de acusação, que podia levar ao Gulag ou à execução sumária, sem maiores considerações. Uma pantomima jurídica, enfim.
Kornyev não sabia nada disso, como de resto a quase totalidade da população – todo corria na penumbra do poder, dos corredores às prisões. No biênio 1937-38 estima-se que entre 700 e 800 mil pessoas foram assassinadas, mais centenas de milhares deportadas para os campos de trabalho forçado, onde muitos morreram.
Ninguém sabe o número total de vítimas diretas e indiretas, seria algo em torno de dois milhões – a Rússia é um enorme país, muita documentação se perdeu nas turbulências históricas. Alguns historiadores calculam cerca de mil mortes por dia, baseado em execuções documentadas. A fonte desse terror era a polícia secreta, conhecida como NKDV, depois nomeada KGB – e atualmente FSB.
São poucas situações em Dois procuradores, sempre com o promotor Kornyev. Além do encontro com Stepniak, destacam-se uma viagem de trem com populares, onde exala um personagem com mão e perna amputados em virtude da guerra – o ator é o mesmo Filippenko – e uma incursão abrupta e bem-sucedida ao gabinete do Procurador-Geral Andrei Vichínski, insuperável figura do cinismo macabro stalinista. Anatoliy Beliy interpreta Vichínski de modo absolutamente impassível, frio e surpreso pela coragem do jovem promotor em trazer a denúncia do que se passava na província.
Cada representante do sistema judiciário soviético redireciona as preocupações de Kornev para outro representante (frequentemente através de longas distâncias de viagem). O procurador vai aos poucos isolando-se numa esfera própria, incrédulo diante da estrutura institucional que percorre, da província à capital. Cada passo é uma escalada em espiral, perfazendo uma lógica circular que conecta um sistema perverso e cruel.
3.
Como se fora uma tragédia grega, Dois procuradores evolui, com frieza, em direção ao um fatalismo. Não há na narrativa nada que sugira uma virada surpreendente, apenas a pervasiva sensação de obscuridade, de incerteza, que se instala. A última viagem de trem de Kornyev culmina a sucessão de traições e enganos, confirmando a premissa do filme (e do livro) – idealismo inocente não é apenas arriscado, mas potencialmente fatal.
Se Vichínski algum dia figurar em algum museu de cera do stalinismo, o modelo já está dado no filme de Loznitsa – que, a propósito, utilizou o próprio em carne e osso em O processo, de 2018, feito a partir de material de arquivo do infame “Julgamento do Partido Industrial”, em 1930. O evento, filmado e gravado durante 13 dias – com tecnologia inédita de captação sonora – veio a ser um dos pioneiros das performances estilo reality show stalinista. Vichínski foi o juiz da farsa que condenou engenheiros e dirigentes industriais.
Embora a história de Dois procuradores se passe em 1937, a alusão ao presente e à fragilidade das instituições transparece no percurso de jovem procurador – independente das condições particulares de Kornyev, o sistema já determinou seu destino. Um vazio toma pouco a pouco o personagem, assim como os espectadores contemporâneos.
Para Loznitsa, existem paralelos entre o sistema retratado em “Dois Procuradores” e a Rússia atual. Nessa lógica, ressalta, o colapso da União Soviética trouxe apenas uma breve ilusão de mudança. E complementa: “Ao observarmos essa história do passado, também reconhecemos o presente”.
*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo) [https://amzn.to/45rHa9F]
Referência
Dois procuradores (Zwei Staatsanwälte)
Ucrânia, 2025, 118 minutos.
Direção: Sergei Loznitsa
Roteiro: Sergei Loznitsa, Georgy Demidov.
Fotografia: Oleg Mutu.
Trilha Sonora: Christiaan Verbeek.
Elenco: Aleksandr Kuznetsov, Alexander Filippenko, Anatoli Beliy, Andris Keišs, Vytautas Kaniušonis.






















