Dostoiévski e a beleza capaz de salvar o mundo

Cy Twombly, A Canção da Guarda Fronteiriça, 1952

Por MARIANA LINS COSTA*

A declaração de que a “beleza salvará o mundo” é muito mais exigente e menos afeita ao nosso gosto pós-moderno

“Senhores—gritou alto para todos—,
o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! […]
Qual é a beleza que vai salvar o mundo?  […]”
O príncipe o examinou atentamente e não lhe respondeu
 [1].

Para Dostoiévski, segundo suas próprias palavras, “o belo é um ideal” [2]. Essa declaração deve ser entendida conceitualmente. Como de praxe entre os intelectuais russos da sua época, a estética hegeliana era, para ele, referência central e, em especial, o conceito de ideal que designa a manifestação sensível do absoluto – o que, segundo Hegel, é o mesmo que dizer o belo da arte. Observe-se que este belo da arte ou ideal, tal qual conceituado por Hegel, extrapola os limites do que comumente se entende por arte. Pois a arte ideal é, como a religião e a filosofia, uma forma de apreensão do absoluto, ou seja, uma das “Formas” em que o absoluto (ou a verdade) é trazido à consciência como seu objeto. Diferentemente das demais Formas, porém, na arte, o absoluto é trazido à consciência como intuição e sensibilidade. O ideal da arte ou belo artístico é, assim, adequação entre forma exterior e singular e conteúdo interior e universal ou ainda a exteriorização sensível adequada a “uma interioridade em si mesma infinita”. As suas configurações são como um “Argos de mil olhos”, em “que a alma e a espiritualidade internas” são vistas “em todos os pontos” [3]. Não havendo separação entre universalidade e sensibilidade, a verdade é então apresentada imediatamente.

Há limitações no grau de elevação em que esse grande racionalista posiciona a arte. Para nós “modernos”, diz ele, a arte enquanto campo de manifestação da verdade pertence a um estágio já ultrapassado do espírito. E acrescenta: podemos até “ter a esperança de que a arte vá sempre progredir mais e se consumar, mas sua Forma deixou de ser a mais alta necessidade do espírito” [4]. Tais datação e limitação não poderiam ser compartilhadas por Dostoiévski; para quem, independentemente da época, o verdadeiro artista almeja o ideal. Vide, por exemplo, a sua formulação de que “é possível reconhecer a qualidade elevada de uma obra de arte”, no “fato de que nela possamos ver a mais plena harmonia entre a ideia artística e a forma na qual ela se encontra encarnada” [5]. Ou quando ele se refere, tanto em cartas quanto em ensaios, ao conteúdo dos seus romances como ideia, o que distingue da forma. Ou ainda a sua separação no fazer artístico entre o poeta que concebe a ideia e o artista que lapida a forma [6].

Dostoiévski não só compreendeu a arte como busca pelo ideal; para ele, a ânsia pela verdade jamais poderia ser satisfeita exclusivamente através da “Forma do pensamento puro”. Primeiro, porque a racionalidade é, em todas as suas modalidades, necessariamente meio e jamais fim; segundo, porque a beleza é, para o ser humano, uma necessidade tão primordial quanto comer e beber a ponto de que sem ela simplesmente não aceitaria viver no mundo: “sem o ideal de beleza o homem ficaria angustiado, morreria, ficaria louco, bateria nele mesmo ou se lançaria em fantasias pagãs” [7].

Numa sentença: a exigência do ideal jamais deixou e jamais deixará de ser a mais alta necessidade do espírito. Donde decorre a sua interpretação da miraculosidade de Cristo à luz do ideal e da beleza. Pois na mesma carta em que declara que o “belo é um ideal”, afirma que “somente uma figura no mundo é positivamente bela: Cristo, de modo que o fenômeno dessa figura […] já é em si um milagre infinito”. Segundo o autor de O idiota, todo o Evangelho de João é a “manifestação do belo” no “milagre da Encarnação”. A expressão bíblica a “Palavra se fez carne” é por ele decifrada à luz da noção de ideal: Cristo é a manifestação da beleza, porque é o universal (Palavra) adequada à forma da singularidade (carne). Daí também a sua anotação: “não a moral de Cristo, não o seu ensinamento irá salvar o mundo, mas precisamente a fé que a Palavra se tornou carne” [8].

Ao se referir à beleza de Cristo, Dostoiévski a qualifica de “positiva”. Essa é a sua principal reformulação ou recriação do conceito hegeliano de ideal – pois, para esse autor, há um ideal de beleza positivo, mas também um negativo. Em Os irmãos Karamázov, por exemplo, essa distinção entre duas formas de beleza, aparece sob as insígnias do ideal de Madona e do ideal de Sodoma, e em Os demônios do ideal do deus-homem e o do homem-deus. Dito brevemente, enquanto o ideal de beleza positivo consiste na configuração sensível e particular do universal enquanto o verdadeiro, o negativo seria a configuração sensível e particular adequada à negação da verdade de todo e qualquer universal – o que, nos termos dostoievskianos, diz diretamente respeito à inexistência de Deus e da imortalidade da alma. Vide, nesse sentido, a fórmula expressa em Os irmãos Karamázov:

para cada indivíduo particular, […] que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável e quase a mais nobre para sua situação. [9]

O ideal de beleza negativo está longe de significar a simples aniquilação do ideal de beleza positivo. Se o ideal de beleza positivo tem como conteúdo espiritual o próprio deus que é a própria verdade; sendo o contrário verdadeiro, isto é, que deus e a imortalidade da alma não existem, então aquele que encarnar a inexistência de deus e da imortalidade da alma de modo adequado (o que flerta inevitavelmente com o crime) será ele mesmo belo. Um herói negativo, um ídolo maldito – que embora não traga consigo a boa nova de uma outra vida, traz a promessa de que antes da escuridão eterna e necessária a todos nós, a da morte desprovida da imortalidade, é possível atingir ainda que por um breve instante, por um “triz”, a hora do desejo e da satisfação essenciais, quer seja ou não uma aberração da piedade. Como tão bem indagou Nietzsche, para o nosso completo desconcerto: será que alguma vez vivemos um “instante descomunal” capaz de nos levar a desejar viver a nossa vida mais uma vez e novamente, por toda a eternidade, sem modificar nada? [10]

Esse “instante descomunal” é, sob certa perspectiva, aquele em que a adequação entre interioridade e exterioridade, o ideal, é atingida ainda que num átimo; um átimo que supostamente seria capaz de justificar esteticamente toda uma vida não ideal, pois se trata do instante em que o indivíduo se transforma em ídolo. “E por que se tornar um ídolo?”, pergunta-se o próprio Dostoiévski, ao passo que responde: “Porque a necessidade da beleza é sentida mais fortemente quando o homem está em desacordo com a realidade, em estado de desarmonia, em conflito” [11]. Ou ainda conforme indaga, mais uma vez, Nietzsche: se somos todos os “assassinos” de Deus, “não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?” [12].

Num mundo desprovido de universalidade divina, atingir por um instante, concreta e sensivelmente o ideal não é pouco – o que explica o fascínio que a beleza negativa dos heróis Nastácia Filíppova de O idiota e Stavróguin de Os demônios inspiram nos demais personagens e em nós, seus leitores. “[D]iante do senhor, é como se eu estivesse diante do Verdadeiro” – confessa um dos personagens a Stavróguin. “Tudo na senhora é perfeição… até a magreza e a palidez… não se deseja imaginá-la de outra forma…” [14] – declara-se a Nastácia Filíppova, um apaixonado príncipe que ao invés de um elogio superficial à sua beleza física, está com essas palavras reconhecendo a sua condição ideal.

Para o autodeclarado cristão Dostoiévski – que, em carta, confessou que permaneceria para sempre um filho da descrença e dúvida até o túmulo – a corda que se estende entre o animal e o Übermensch conduz, no final das contas, ao esfacelamento psicológico e espiritual, quando não também ao social. O herói forjado por si mesmo sob o impacto da notícia da “morte de deus”, não atinge nada muito além do que a sua própria destruição. Nastácia morre louca, assassinada pelo recém-marido, quem ela sabia de antemão que iria assassiná-la. Stavróguin se suicida, acometido por uma espécie de loucura lúcida, depois de incorrer no crime de pedofilia para provar-se livre.

Feliz ou infelizmente, um dos ensinamentos contido nas obras literárias de Dostoiévski não é tanto o de que Deus existe indubitavelmente como uma realidade extra-psíquica, conforme acreditam os leitores mais apressados de Crime e castigo que, numa interpretação excessivamente direta da conversão de Raskolnikóv, esquecem que seus personagens tanto mentem, quanto se enganam. O seu ensinamento antes está mais próximo daquilo que o stárietz Zózima disse a Ivan: “Se não pode resolver-se no sentido positivo, nunca se resolverá no negativo, o senhor mesmo conhece essa qualidade do seu coração; e nisso está todo o tormento dele.” [15]

Sim, a declaração de que a “beleza salvará o mundo” é muito mais exigente e menos afeita ao nosso gosto pós-moderno do que desejariam o nosso entusiasmo e comoção provocados por ela.

*Mariana Lins Costa é pesquisadora de pós-doutorado em filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Publicado originalmente no site da ANPOF.

 

Notas


[1]  Dostoiévski. O idiota. São Paulo: Editora 34, 2001, 427.
[2]  Dostoiévski. Complete Letters: 1868-1871. New York: Ardis Publishers, 1990, 121.
[3]  Hegel. Cursos de Estética I. São Paulo: Edusp, 1999, p. 167; 166.
[4]  Idem, 117.
[5]  Dostoiévski. Occasional writings. Evanston: Northwestern University Press, 101
[6]  Dostoiévski. Complete Letters: 1868-1871, 161.
[7]  Dostoiévski apud Jackson, R. L. Dostoevsky’s quest for form. London: Yale University Press, 1966, 55.
[8]  Idem, 56.
[9]  Dostoiévski. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2008, 110.
[10]  Nietzsche. A Gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 341.
[11]  Dostoiévski. Occasional writings, 124.
[12]  Nietzsche. A Gaia ciência, 147-8.
[13]  Dostoiévski. Os demônios. São Paulo: Editora 34, 2004, 260.
[14]  Dostoiévski. O idiota, 172.
[15]  Dostoiévski. Os irmãos Karamázov, 112.