Drummond, a pedra e a perda

Por PAULO CAPEL NARVAI*

Pressões do governo Bolsonaro para ocultação e deformação de dados sobre a pandemia são parte da estratégia terraplanista de negar fatos de modo contumaz.

Ao deixar o Ministério da Saúde (MS) no final de maio de 2020, após 17 meses comandando a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), e tendo a incumbência de entregar ao governo e à sociedade brasileira dados epidemiológicos fidedignos sobre a pandemia da COVID-19, Wanderson Kleber de Oliveira, citou seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade e o poema, hoje um clássico, “No Meio do Caminho”1. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, escreveu o enigmático Oliveira, há 17 anos epidemiologista da SVS/MS, sem esclarecer a que “pedras” metafóricas (obstáculos, dificuldades…) se referia.

A pedra que Drummond eternizou em 1928 ao publicar seu poema na primeira edição da Revista de Antropofagia poderia ter sido apenas uma pedra mesmo, das muitas com as quais o poeta se deparava ao caminhar pelas vielas da mineira Itabira. Mas o poeta, lá nos anos 1920, como o epidemiologista, agora em 2020, não seriam assim tão literais. Drummond, por ser poeta e Oliveira, por razões compreensíveis: ajudou a criar a SVS e, conforme fez questão de mencionar em sua carta de despedida2, é “servidor público civil” do MS desde 2003. Oliveira poderia até deixar o comando, mas não sairia “atirando pedras” na SVS.

Há, porém, mais do que pedras no poema e na citação. Muito mais.

Gilberto Mendonça Teles, poeta goiano dos melhores brasileiros contemporâneos, conhecedor profundo e analista percuciente da obra do poeta itabirano, autor de ‘Drummond, a estilística da repetição’, aventa a hipótese de uma hipértese no poema3. Segundo Teles, o poema “No Meio do Caminho” seria uma espécie de necrológio para Carlos Flávio, primeiro filho de Drummond que, nascido em 1927, sobreviveu por apenas meia hora. O recurso à hipértese teria transformado a palavra perda em pedra, com o deslocamento do “r”. A pedra do poema teria a intenção de, por assim dizer, colocar uma pedra na perda, uma espécie de laje sepulcral atribuindo à pedra uma função de lápide poética.

“Os números falam por si”, diz o ditado e muitos acreditam. Não é bem assim, embora alguns números como que gritem por si. Números, mais propriamente dados para o que nos importa aqui, não falam por si, pois requerem sempre, como acontece com poesias, alguma interpretação. Por vezes, a junção ou articulação de dois dados produz um terceiro sentido, que não está presente nos dados tomados isoladamente. A produção de sentido nessas situações é um fenômeno similar ao obtido pela repetição de uma palavra num poema, como fazia magistralmente Drummond, exímio na técnica.

A palavra está lá, é a mesma, mas a cada repetição muda seu significado, alterando-se o todo do qual faz parte. Da mesma forma, com dados. Por essa razão, leituras, análises, interpretações nunca são neutras, pois inevitavelmente marcadas por crenças e valores de quem as faz. Esta consideração sobre números e dados e palavras ocorreu-me ao buscar decifrar a que pedras se refere Wanderson Oliveira que ele, por lealdade a colegas e à SVS, não pudesse tornar públicas ao pedir para sair. Os fatos posteriores à sua exoneração, envolvendo a divulgação de dados pelo MS constituem a chave. Por óbvio, não falarei de hidroxi-cloroquina, alho cru, orações ou benzeduras, pedras certamente, mas suficientemente abordadas por outros articulistas.

Ao mudar completamente o padrão criado por Wanderson e colegas da SVS/MS para divulgar dados sobre a pandemia da COVID-19, o Ministério da Saúde, por determinação do seu secretário-executivo, atendeu a uma exigência do palácio do Planalto de que o número de mortos pela pandemia teria de ser inferior a “mil por dia”. A ordem de Bolsonaro teve como fundamento conselhos de um conhecido empresário comercial para quem os dados que vinham sendo anunciados não condiziam com a realidade, pois “os hospitais estão vazios”4. Mas tudo foi anunciado como se o motivo fosse buscar “aumentar a transparência” e “facilitar o entendimento” sobre a evolução da pandemia “por regiões”, seguindo o método Hamilton Mourão de inverter intenções e responsabilidades.

O vice-presidente da República tem se notabilizado por atribuir aos outros, sobretudo governadores e prefeitos, práticas que marcam o governo do qual ele faz parte. Acusa opositores, por exemplo, de “politizar e partidarizar a epidemia”, que é justamente o que Bolsonaro faz, reiteradamente, desde as primeiras notícias sobre a COVID-19. Ao invés de exercer as atribuições que a lei lhe impõe, nada faz e acusa os outros de serem o que ele é: omisso e incompetente, qualidades que exibe com orgulho, diariamente, ao país.

Pressões para a ocultação e a deformação de dados sobre a pandemia da COVID-19 vêm marcando todas as ações do MS, sob Bolsonaro, cujo governo tem demonstrado irresistível tendência à ocultação de dados, como parte de sua estratégia terraplanista de negar fatos, de modo contumaz. Vale, segundo essa estratégia, a versão que interessa ao governo, não os fatos a que se referem. Trata-se de uma estratégia de governo que, envolvendo vários setores, não se circunscreve ao Ministério da Saúde e aos atropelos de dados sobre a COVID-19.

Nesse contexto, e para esta finalidade, “apagões estatísticos” não são apenas possíveis, mas desejáveis. De acordo com Thais Carrança, da ‘Repórter Brasil5, os principais indicadores de desemprego e renda no país estão suspensos ou enfrentam problemas que podem comprometer sua divulgação. A repórter lembra que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), indicador de contratações e demissões de trabalhadores com carteira assinada, divulgada mensalmente, não tem dados publicados desde janeiro último. Não há data para os dados voltarem a ser divulgados. Também não vêm sendo atualizados, desde dezembro de 2018, os dados referentes ao seguro-desemprego. E vem sendo feita por telefone a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, que abrange o mercado de trabalho formal e informal e revela a taxa de desemprego oficial do país.

O percentual de pessoas que respondem caiu de 90% para 60% e, com a amostra prejudicada, a investigação pode ter seus resultados comprometidos. Ainda no âmbito da saúde foi interrompida, após um processo exaustivo de planejamento de mais de dois anos, a realização da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal dos Povos Indígenas, cujos trabalhos de campo estavam prestes a se iniciar no segundo trimestre de 2020.

Pode não ter sido a única, mas certamente a produção e análise de dados epidemiológicos no âmbito da SVS/MS foi uma das pedras a que se referiu o epidemiologista.

Vale assinalar que o enfrentamento e controle de epidemias têm nos dados e sua divulgação oportuna e adequada, justamente um dos recursos “terapêuticos” mais eficazes. A informação é, nesses contextos, um remédio indispensável. O poder de sua credibilidade equivale ao princípio ativo de um medicamento. Se não há fidedignidade é como se o remédio fosse falso, ou um simples placebo. O dado precisa, portanto, ser claro, exato, preciso.

No século I a.C., período histórico em que Roma começava a se constituir em império, navios piratas, às centenas, dominavam a navegação no Mediterrâneo e, desafiando o poder romano, criavam dificuldades ao comércio, incluindo o transporte de trigo entre as províncias e para o centro político do império. Em 66 a.C., após pilhagens e latrocínios na costa do que hoje é a Itália, os romanos reagiram, sob o comando de Pompeu. Os piratas foram esmagados militarmente.

Plutarco narrou a vida de Pompeu (106-48 a.C.) e atribuiu ao general romano a frase “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Mas Plutarco escreveu em grego e pode ter sido mal traduzido para o latim, língua em que a frase chegou ao poeta Fernando Pessoa. Muitos reclamam do português que, incorporando-a ao poema ‘Navegar é Preciso’, acrescentou, interpretando: “viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Há quem argumente não fazer sentido afirmar que viver não é necessário, mas navegar, sim, pois no plano individual a primeira é uma condição para a segunda. Ou a contraposição de viver com criar.

Pessoa teria se deixado levar por uma má tradução e embarcado em uma canoa furada. Faço essa longa consideração para afirmar meu alinhamento com outra interpretação que alguns fazem da frase de Pompeu, a que vê no termo “preciso” outro sentido, o de exatidão, não o de necessidade. De acordo com essa interpretação, Pompeu teria dito, com base em sua experiência marítima, que “Navegar é exato, mas viver não”. A navegação com segurança requer a exatidão de rumo, que deve ser precisa, exata, o que não conseguimos dar às nossas vidas, pois acontecimentos imprevisíveis costumam mudar o que planejamos.

Produzir diariamente informações precisas, fundamentadas em dados exatos, conferindo-os e confirmando o que for necessário, é o que se ensina, em capacitações e treinamentos, a funcionários da Saúde Pública que lidam com agravos e doenças. Em sua formação, são preparados para reconhecer, respeitar e valorizar conhecimentos científicos e exercer com responsabilidade as funções que lhes são atribuídas. Foi o que aprenderam os mais de 1.700 trabalhadores da SVS, tanto os que atuam em Brasília, quanto os lotados no Instituto Evandro Chagas e no Centro Nacional de Primatas, em Ananindeua, no Pará.

Mas as autoridades do governo federal não se importam nem levam em consideração, o que pensam esses servidores públicos sobre o trabalho que realizam. No Ministério da Saúde as informações precisas, fundamentadas em dados exatos, devidamente conferidos e críveis, não vêm sendo produzidas adequadamente durante a pandemia. Desde o início, registram-se dificuldades com subnotificações e a precariedade de dados, a despeito da competência e esforço desses profissionais.

Há visível descontentamento e frustração profissional entre os servidores públicos lotados no MS. Fala-se abertamente em “medo e perseguição”6. Pior: ainda que imprecisos e reconhecidamente subnotificados, os dados estão sendo atualmente substituídos por peças publicitárias que difundem à sociedade louvores ao presidente da República, produzindo manobras propagandísticas7 para ocultar óbitos causados pela COVID-19.

A deliberada invisibilidade da pandemia, que se busca lograr com a manipulação e o ocultamento de dados, é parte da estratégia terraplanista de negar sua ocorrência. Bolsonaro quer, efetivamente, colocar uma pedra sobre os dados da COVID-19. Por ele, isto teria ocorrido já nas primeiras semanas de evolução da pandemia, daí sua fúria indisfarçável contra o ex-ministro Luiz Mandetta e o seu sucessor, Nelson Teich. Mas a vigência de liberdades democráticas o impede. Ainda. Para ir em frente em seu propósito sepulcral terá de rasgar a Constituição.

Trata-se, portanto, ao contrário do que pensa Wanderson Oliveira, de mais do que uma pedra no caminho. Trata-se da perda irreparável de dados valiosos sobre uma doença que vem matando milhares, em todas as classes sociais, em todo o Brasil. A pedra é uma perda criminosa de dados. Mas esta é apenas uma das pedras. Como epidemiologista competente, Oliveira sabe exatamente o que isto significa.

Embora Bolsonaro tenha comemorado a jogada dos seus publicitários no MS (“Acabou matéria no Jornal Nacional!), os coveiros são testemunhas das mortes que o MS quer esconder da sociedade, pois em cemitérios a terra é redonda e as versões terraplanistas dos publicitários governistas não alteram os enterros.

Oliveira sabe que se a perda de dados é uma pedra no meio do caminho, sabe também que há sete pedras nos dez versos do poema de Drummond. Sabe, portanto, embora talvez prefira não admitir, que há uma pedra principal nas reiterações pétreas do poema. A pedra principal é Bolsonaro. É preciso reescrever em parte o poema: “No meio do caminho tinha um Bolsonaro/Nunca me esquecerei desse acontecimento/Na vida de minhas retinas tão fatigadas/Nunca me esquecerei que no meio do caminho/Tinha um Bolsonaro/Tinha um Bolsonaro no meio do caminho”. Lamento o mau gosto, e peço mil desculpas ao poeta, mas esta é a verdade do poema, para a citação que dele fez Wanderson Oliveira.

A respeito da balbúrdia com os dados relativos à pandemia do novo coronavírus, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, reclamou da desfaçatez do MS, pediu seriedade e disse que “não se brinca com mortes e doentes”. Maia parece incomodado em ver o Brasil ao lado da Coreia do Norte, onde Kim Jong-un decretou que a Covid-19 não causou óbito ou sequer acometeu algum cidadão norte-coreano. Ou na iminência de reproduzir o Turcomenistão, país que simplesmente proibiu as palavras “pandemia”, “COVID-19” e “coronavírus”, conforme registrou Marcello Rollemberg no Jornal da USP8. A tentativa de restabelecer a ordem na casa, para acabar com a lambança dos dados no MS, veio com uma determinação do STF. Pandemia é assunto de Estado, não apenas do poder Executivo, ou de uma parte do governo. Mas a bagunça segue em frente e a balbúrdia domina o Ministério da Saúde.

Em “Bicharada”, música da ópera infantil Os Saltimbancos, Chico Buarque fala de um certo país: “Era uma vez/E é ainda/Certo país/E é ainda/Onde os animais/Eram tratados como bestas/São ainda, são ainda”.

São. Ainda.

* Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública na USP

Notas

  1. Andrade CD. No meio do caminho [internet]. Disponível aqui.
  2. Em carta, Wanderson de Oliveira cita ‘pedras no caminho’ e diz que perdeu motivação após tensão em 14 de abril. G1 Bem Estar [internet]. 27 mai 2020. Disponível aqui.
  3. Gilberto Mendonça Teles. Entrevista a Marcos Caldeira Mendonça. O Trem. Itabira, 30 jun 2012. Disponível aqui.
  4. Mudança na divulgação ocorreu após Bolsonaro exigir menos de mil mortes por dia. O Tempo [internet]. 8 jun 2020. Disponivel aqui.
  5. Falta de transparência do governo promove ‘apagão estatístico’ sobre desemprego. Repórter Brasil [internet]. Por Thais Carrança. 22 abr 2020. Disponível aqui.
  6. Clima entre técnicos do Ministério da Saúde é de medo e perseguição. Veja [internet]. Por Mariana Zylberkan. 8 jun 2020. Disponível aqui.
  7. Ministério da Saúde muda formato de divulgação de dados de covid-19. Agência Brasil [internet]. Por Andreia Verdélio. 8 jun 2020. Disponível aqui.
  8. Rollemberg M. Com números não se brinca. Jornal da USP [internet]. 8 jun 2020. Disponível aqui.