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Economia em três anos?

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

O quarto ano, durante o dia, se esvaziou completamente, porque a grande maioria já faz estágios e, na prática, abandona os estudos

O Brasil, um país atrasado e inculto com seu capitalismo tardio, copia os Estados Unidos. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, segundo disse o embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães (1964 a 1965), no regime militar ditatorial.

Era vergonhosa também a submissão do ex-presidente brasileiro à bandeira e ao presidente norte-americano. Sempre foi um anacrônico cultivador da Guerra Fria e do anticomunismo para se eleger. Pior, muita gente inculta segue o (falso) mito!

No Ensino Superior, ainda permanece a submissão ao modelo dos Estados Unidos com predominância de ensino privado e/ou pago. Um curso de bacharelado dura 4 anos, de mestrado 2 anos e, de doutorado de 5 a 7 anos, visando os alunos tornarem “clientes do ensino pago” em longo prazo.

Com muitos alunos, inclusive em EaD (Ensino à Distância), por cada professor, é muito rentável. O negócio interessa inclusive a Fundos de Investimentos estrangeiros.

Muitas instituições de ensino brasileiras (vulgas “Unisquinas”) vendem aos jovens brasileiros um certificado de graduação, mas não oferecem boa educação. Se o aluno investe seu tempo e seu dinheiro, deve receber boa educação. Infelizmente, boa parte parece só querer adquirir o diploma propício a ganhar oportunidade de ser treinado em alguma empresa e obter um salário.

Lamentavelmente, essa cultura de buscar logo quando possível “estagiar”, para depois virar trainee e garantir um emprego, acomete também universitários matriculados em curso de Economia com ensino de excelência. O quarto ano, durante o dia, se esvaziou completamente, porque a grande maioria já faz estágios e, na prática, abandona os estudos, só assistindo aulas à noite, dando atenção somente ao celular, e fazendo provas ou trabalhos apenas suficientes para a aprovação e alcançar a formatura.

O Estado brasileiro paga pelos alunos das universidades públicas e os outros têm de se virar por conta própria. O melhor sistema seria o governo garantir financiamento a todos cidadãos dispostos a cumprir as exigências de qualquer universidade, público ou privada, com ensino de qualidade pago. Garantiria o empréstimo a todos os estudantes necessitados, para pagar como crédito consignado, depois de formado, descontado no futuro holerite por seu empregador em certa proporção de seu salário.

A meta de “economizar” – planejar poupança ao cortar o consumo, no jargão profissional – parece ter se massificado depois do susto da pandemia-distanciamento social-desemprego. Incentivado pela elevação da taxa de juro e permanência acima de 1% ao mês durante doze meses, a ANBIMA registrou essa maior demanda por aplicações. Em dois anos (dez2020-dez2022), houve a abertura de 42 milhões de contas de investimento em produtos financeiros mais rentáveis e fechamento de 10 milhões de contas de poupança menos rentáveis.

Economia tem duplo significado. De um lado, refere-se ao controle ou moderação das despesas para fazer poupança. De outro, é uma ciência dedicada a estudar os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais e financeiros necessários ao bem-estar individual e social.

A ciência econômica envolve o conjunto das teorias de decisões individuais ou racionais: “o que deveria ser”. Mas a particularidade de seu conhecimento, não alcançado sem estudo focalizado, é a lei de movimento social: “o que é”.

Ambas, respectivamente, economia normativa e economia positiva, exigem uma abordagem sistêmica financeira da resultante das interconexões entre finanças pessoais, corporativas, públicas, bancárias e internacionais. Essa visão holista permite a percepção de suas configurações dinâmicas, isto é, variáveis ao longo do tempo, adequadas para elaboração de possíveis cenários futuros emergentes, embora incertos, adequados às tomadas de decisões estratégicas de todos os agentes econômicos.

Por isso, a meta para o bem-estar social deveria ser a massificação popular do conhecimento de economia, pelo menos, de educação financeira. Em lugar dos grandes espaços vazios das salas-de-aula de Universidades públicas, durante o dia, por qual razão não se poderia propiciar esse conhecimento gratuito a quem, de fato, se interessar com uma grande economia de escala?

Dado o elevado custo da baixa relação de alunos / professor, no Brasil, o Ensino Superior deveria ser massificado como sempre foi na Argentina. Nossa vizinha tem o dobro do percentual da população com educação superior em relação ao brasileiro: entre jovens (25-34 anos), 40% a 20%; entre idosos (55-64 anos): 30% a 15%. Sofremos uma “goleada”!

A Coreia do Sul tem um baixo percentual entre idosos (20%), mas o maior do mundo (70%) entre os jovens. Demonstra o planejamento de um Estado desenvolvimentista ter bom resultado para a educação popular com Ensino Superior.

Devemos copiar a Europa: integrar mestrado à graduação, durante cinco anos, para quem desejar a pós-graduação, e oferecer um bacharelado com apenas três anos de créditos obrigatórios, durante o dia, para o 4º ano ser dedicado à elaboração da monografia à noite, quando o aluno estiver com estágio durante o dia. O percentual de adultos (25-64 anos) com mestrado dela é 16% contra 0,8% no Brasil – e com doutorado 1,1% a 0,24%.

Lá, diferentemente das Américas, o ensino superior é público ou gratuito. O Processo de Bolonha, assinado por 29 países (inclusive Reino Unido), propicia maior mobilidade entre alunos de diferentes países e unifica as etapas de Ensino Superior.

O sistema de créditos ECTS (European Credit Transfer and Accumulation System) é amplamente utilizado em cursos de Ciências Econômicas na Europa, assim como em outros programas de ensino superior. Ele é projetado para facilitar a transferência de créditos entre diferentes universidades e países dos estudantes em intercâmbio.

Não é possível ensinar o fundamental da Ciência Econômica em 3 anos?! O quadro abaixo falseia o contra-argumento dos conservadores, reacionários contra essa possibilidade de aquisição de conhecimento econômico em menos tempo por mais gente.

A grade curricular acima contempla, entre outros conhecimentos, Microeconomia (estudo do comportamento econômico de agentes individuais, como consumidores e empresas, inclusive introdução aos princípios de marketing e gestão de empresas), Macroeconomia (análise das tendências econômicas em nível agregado, como crescimento econômico, inflação e desemprego, com análise das políticas econômicas governamentais e seu impacto), Direito e Economia (exploração das interações entre o sistema legal e as atividades econômicas), Teoria Monetária e Financeira (estudo de teorias relacionadas a moeda, bancos e inflação), Finanças (estudo das decisões de carteira, financiamento e gestão de riscos), Matemática, Estatística e Econometria (formulação deduções racionais e uso de métodos estatísticos para analisar dados econômicos e testar hipóteses), Economia do Trabalho (análise do mercado de trabalho, desemprego, salários e políticas trabalhistas), Economia Internacional (exploração das relações econômicas entre nações, incluindo comércio internacional e taxas de câmbio), Economia do Desenvolvimento (estudo das questões econômicas relacionadas ao desenvolvimento econômico e social), Economia Ambiental (discussão sobre a interação entre economia e meio ambiente, sustentabilidade e recursos naturais).

Uma educação superior massiva, em todas as áreas de conhecimento, propiciaria inclusive a sociedade brasileira evitar fenômenos como o dia da vergonha nacional (08/01/23) com gente xucra vandalizando as sedes dos três poderes da República.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).


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