Edward Hopper

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Por AFRÂNIO CATANI*

O silêncio dando o tom: a pintura de Edward Hopper

Comentário sobre a vida e algumas obras do pintor norte-americano

A primeira vez que tomei conhecimento da pintura de Edward Hopper (1882-1967) ocorreu em 1968 em Piracicaba, interior do Estado de São Paulo, onde eu morava e cursava o ensino médio. Na verdade, muitos meninos faziam a corte a Marcela, que era lindíssima, simpática, gostava de desenhar e copiava cartões artísticos com perfeição. Um pouco antes das férias de julho ela me mostrou a cópia que executara, maravilhosa, de Aves da noite (1942) [veja aqui] , conhecidíssimo óleo sobre tela do pintor – isso só vim a saber bem depois.

Ela se concentrou nos limites da vitrine, mostrando o homem de terno e chapéu no balcão, de costas, o casal sentado sem se falar, diante das chávenas, saleiros, pimenteiros, porta guardanapos de papel, máquinas de café, além do próprio empregado, desempenhando o seu métier. A impressão que dá é de se estar diante de um aquário, com o vidro imenso a revelar/separar quem olha para o quadro. Apenas em fins dos anos 1970 constatei que Marcela não havia copiado o que ficava à esquerda da tela, com outra loja fechada, quase na obscuridade.

Para se ter um panorama geral da obra de Hopper, me vali do trabalho do crítico alemão Ivo Kranzfelder (1958), autor de vários escritos acerca da história da arte e sobre o artista. Folheando as 200 páginas do belo livro editado pela Taschen, mas que carece de melhor revisão nessa tradução, contendo cerca de 160 pinturas do artista, além de esboços, é possível ver como o pintor nascido no Estado de Nova Iorque evoca paisagens urbanas e rurais desertas dos Estados Unidos e seus personagens, isolados, solitários, entediados e, não raro, alienados [1].

Deve-se destacar que ele terminou os estudos secundários em 1899 e decidiu, em comum acordo com os pais, profissionalizar-se como desenhista; contudo, estudou artes gráficas, mais precisamente a ilustração, que lhe poderia assegurar melhor sua saúde financeira (Kranzfelder, p. 7). Assim, passou por várias escolas, se aperfeiçoou em grafismo, depois de permanecer alguns meses em Paris e Londres, frequentando exposições e pintando ao ar livre. Em 1919 ganhou prêmio em concurso de cartazes sobre a guerra e, anos antes, em 1913, com 31 anos, vendeu seu primeiro quadro, Passeio ao mar (1911), óleo sobre tela, por 250 dólares. “Será o único no decorrer dos anos seguintes“ (p. 13), embora suas águas-fortes e outras gravuras também se venderam bem na época. Em julho de 1924 casou-se com a pintora Josephine Nivisou, que o acompanhará até o final da vida, além de ser sua eterna modelo. As mulheres que vai pintar envelhecem com ele.

Sua primeira exposição individual deu-se em 1923, na Frank K. M. Gallery, ocasião em que vendeu todas as obras expostas – onze aquarelas e outras cinco que nem sequer faziam parte dessa mostra. O sucesso financeiro da exposição lhe permitiu abandonar a carreira de ilustrador, que incluiu trabalhos comerciais para a Sunday Magazine, Magazine of Business, Scribner’s Magazine, dentre outras. Hopper sempre depreciou esse ofício, nunca trabalhando mais de três dias por semana nessa atividade, dedicando o restante do tempo à pintura. Chegou a afirmar que entendia a ilustração como “um trabalho deprimente, sendo mal pago, porque raramente fazia o que esperavam dele“ (p. 15).

Em dezembro de 1946 Clement Greenberg (1909-1994), então um dos mais importantes críticos de arte dos EUA escreveu, por ocasião da exposição anual do Museu Whitney, que “é necessário imaginar uma nova categoria para definir o que faz Hopper. Os seus meios técnicos não têm originalidade, são impessoais e de uma grande mediocridade. Mas o seu sentido de composição basta, no fundo, para dar uma ideia da vida americana, coisa que a nossa literatura não faz (…) Hopper é, muito simplesmente, mau, mas se fosse melhor pintor, não seria provavelmente um artista tão bom” (p. 177).

Ou seja, nem sempre o trabalho de Hopper foi elogiado. E ele, conforme destacado em linhas anteriores, apenas com mais de 40 anos é que conseguiu profissionalizar-se como pintor, deixando definitivamente a atividade de ilustrador.

Não poucos críticos realçam que o caráter tipicamente norte-americano de seus quadros reside nos seus temas, nas suas origens e na sua escrita pictórica (p. 55), “apresentando cenas dos EUA como eles elas se oferecem aos olhos, de maneira arquetípica e sequencial“ (p. 75). Marcel Duchamp, por seu lado, chega a escrever que “as únicas obras de arte que os americanos criaram são as instalações sanitárias e as pontes” (p. 77-78).

O processo pictórico de Hopper consiste em “mitificar o banal”: um casal que se ignora, paisagens urbanas mostrando edifícios e praças, ruas desertas e personagens isolados, fachadas de lojas, o campo vazio e acidentes geográficos, faróis na costa litorânea, mas sem que se veja o mar, o frentista resignado que espera numa estrada deserta por um cliente que não chega, além de cenas interiores urbanas. Vários desses quadros são praticamente inconcebíveis sem levar em conta o espectador, muitas vezes transformado em voyeur. Os personagens ficam restritos aos limites dos quadros, embora as obras só possam ser compreendidas se conectadas com ações ou pessoas que se encontram no “exterior“, fora de nosso alcance visual.

Em Anoitecer em Cape Cod (1939) [veja aqui], por exemplo, o ângulo do espectador é indeterminado. Há uma ausência total de comunicação entre as duas pessoas e, até mesmo, entre o homem e o cão, que “talvez arrebite as orelhas porque ouviu um pássaro ou qualquer outro barulho. Neste quadro, é a floresta que invade o território do homem, uma árvore à frente das outras varre as janelas do andar térreo da casa (…) A mulher olha para o vazio, o homem procura chamar a atenção do cão, que se vira na direção oposta“ (p. 98).

Quarto em Nova Iorque (1932) [veja aqui] permite que espreitemos, como um voyeur, por uma janela. “No interior, vemos um homem sentado numa poltrona lendo o jornal. À direita, uma mulher bate com ar sonhador uma tecla de piano (…) O tema já não é a discórdia, mas o tédio” (p. 129).

Em “Escritório à noite” (1940) [veja aqui] “as formas femininas exageradamente acentuadas criam uma tensão sexual reforçada pelo retângulo de luz sobre a parede que aflora as duas personagens“ (p. 163).

Não pretendo me aprofundar nesse espaço acerca da influência do impressionismo sobre Hopper em numerosos quadros, mas apenas lembrar que o tema da solidão nos restaurantes ou nos cafés inspira-se em Degas e Monet transpostos pelo pintor para a sociedade norte-americana.

Hotéis aparecem com frequência em Hopper, representando um “estado intermediário, tanto de trabalho como de lazer“ (p. 161). Há vagões de trem e quartos de hotel, com hóspedes e passageiros entediados, que não olham pela janela nem apreciam a paisagem. Não é demais ressaltar, os casais se ignoram, um homem ou uma mulher encontram-se sós em seus quartos – geralmente as mulheres estão nuas ou com pouca roupa –, um empregado do escritório, num intervalo de sua atividade aborrecida e repetitiva, fita o exterior, sem se levantar de sua cadeira. Entretanto, há um vidro a separá-lo, o que Richard Sennett vai caracterizar como “parede transparente“, o “paradoxo do isolamento na transparência”. O tempo livre é tão desolador como o trabalho e as demais atividades, é uma “alegoria moderna do tédio profundo“. Kranzfelder acrescenta: “Quanto mais recentes são seus quadros, mais tristes são“ (p. 155).

Hopper pintou incessantemente, experimentou um sem número de exposições individuais, recebeu vários prêmios, medalhas e títulos honoríficos pelo seu trabalho, até que em 1964 a doença o afastou da pintura. Num derradeiro esforço produziu, em 1965, seu último quadro, Dois comediantes [veja aqui].

Em 23 de março último, já em pleno isolamento social em que me encontro, tentando não ser contaminado pelo Covid-19, Aldo Hey Neto teve a feliz ideia de me enviar breve pensamento de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), a saber: “O grande ser humano é aquele que no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão” – entendo que essa máxima se aplica, sem qualquer necessidade de esboço, aos trabalhos de Edward Hopper: o conjunto de óleos sobre tela, óleos sobre madeira, óleos sobre cartão, águas-fortes, aquarelas, tintas da China…

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

O presente texto não teria sido escrito sem a troca generosa estabelecida com Aldo Hey Neto e Luciana Domschke, a quem agradeço.

Referências

KRANZFELDER, Ivo. Edward Hopper: 1882-1967 – Visão da Realidade. Tradução: José Luís Luna. Lisboa, Taschen, 2006.

PORTO, Walter. Blues da peste. “Ilustrada”, Folha de S. Paulo, sábado, 04.04.2020, p. B12.

 

 

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