El otro lado

Patrick Heron, Pinceladas Nº 3: 1998-1999, 1998-9
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUÍS FELIPE SOUZA*

Considerações sobre a exposição em cartaz no Centro interdisciplinar de artes contemporâneas Santa Mònica.

No coração da cidade de Barcelona, em meio ao frenesi dos transeuntes que surgem e desaparecem nas Ramblas, está a exposição artística imersiva intitulada El otro lado, disponível ao público, até 02 de junho de 2024. O Centro interdisciplinar de artes contemporâneas Santa Mònica oferece, gratuitamente, uma experiência que convida os participantes a realizar uma inflexão na forma como se organiza o sentido. A exposição é composta por vários artistas. Conta com a participação de escritores, psicanalistas, filósofas e antropólogos que participam na experiência que busca oferecer vislumbres da descentralização estruturante da subjetividade.

A exposição opera na lógica de um estranhamento. Inicialmente, o visitante experimenta esse estranhamento ao se deparar com uma sequência de eventos, pois é solicitado que deixe seus pertences do lado de fora da exposição. Depois, há um estranhamento próprio mediante a crescente desconfiança das convicções que formam o Eu e a personalidade. A experiência proposta pelo centro de artes Santa Mònica avança na medida em que os pressupostos mais fulcrais da realidade são postos em questão.

No início do percurso, os participantes podem escolher roupas peculiares em um grande closet para vestirem-se. Como um convite à criação de um corpo a partir de novas referências, pode-se deixar na antessala as certezas que povoam a lógica da consciência. Na primeira sala da imersão, somos individualmente convidados a nos deitarmos em um colchão dentro de uma sala escura. O colchão de água se movimenta em ondulações que acompanham as vozes que induzem o visitante a um encontro com a morte. A abertura para que conteúdos tão surrealistas quanto oníricos façam parte da nova realidade instaurada possibilita uma experiência sensível no curso da mostra.

O corpo, conforme concebido pela psicanálise, não se finda na sua capacidade de autorreferenciação. Há nele um limiar que suplanta a capacidade da representação, nomeadamente a cisão deixada pela submissão à linguagem. O processo de constituição da subjetividade, das identidades e personalidades, deixa um resto inassimilável que aparece nas frestas não preenchidas pela consciência. A pulsão lateja no corpo o que resiste à simbolização.

El otro lado explora os limites possíveis de experienciar o que no corpo vacila e se mostra apenas parcialmente em vidas oníricas. Trata-se de uma tentativa de comunicação com o ponto em que o saber falha em estabelecer o sentido, com a perda do visitante em meio ao emaranhado pulsional que se revela pelos corredores da mostra. O excedente da vida que está para além do sentido simbólico, do qual a realidade é tributária, mostra-se cotidianamente, apesar de a incapacidade de simbolizá-lo fazê-lo parecer apenas um móvel amorfo que ocupa todo um cômodo.

Desde o princípio parecem claras as intenções da exposição em instaurar pontes que se içam até o ponto em que o outro lado possa estar acessível ao estado de vigília. O sujeito que se deixara morrer na primeira sala poderá, enfim, desconfiar de suas convicções desfazendo-se da literalidade que o induz a ler a realidade mediante uma cientificidade empirista. A experiência estética/sensível da mostra suplanta também as tentativas de fazer sentido. O percurso conduz o visitante por corredores de quadros com códigos binários, formados por zeros e uns, que geram figuras oblíquas. As figuras formadas por dados revelam-se frágeis em configurar um sentido lógico para o que ali se passa.

A desconfiança da realidade que nos cerca aumenta quando, na sala subsequente, ouve-se a fala de uma obra interativa. Trata-se de uma mulher que, em vídeo, instrui-nos a inverter a lógica da apreciação artística. Seu pedido aos participantes segue o apelo de uma inflexão na avaliação das obras categorizadas como mais ou menos valiosas. O sentido estético que louva a beleza da forma se esvai quando se abre ao nonsense que sustenta os tijolos que compõem a realidade. A exposição impacta o convidado mais desapercebido ao expô-lo à angústia dominante de quando caem as imagens impregnadas de certezas.

Não saber, e apenas entregar-se à morte e ao irreal, é carregado de uma ansiedade angustiante. Trata-se do encontro com as fronteiras do representável. Somos expostos a essa entidade confusa que subjaz as representações. A indução à morte com que fomos recebidos no início da mostra adverte-nos a não tentar fazer daquela experiência uma que seja autorreferenciada, mas deixar-se cair no sem-imagem em que predomina a pulsão que impregna experiências humanas.

O visitante vê-se ressurgir no nascimento de um novo corpo que fora construído para si, mais afastado que está dos limites do saber. Esse corpo, com novas roupagens surrealistas, aparece na sala que caracteriza um parto. Nela, precisamos nos esgueirar por entre as paredes apertadas de um canal vaginal para desembocarmos no nascimento de um corpo que agora reconhece sua imagem como uma roupagem de códigos linguísticos. As categorias que regem a realidade demonstram-se frágeis, a pulsão insiste em sinalizar que há algo além do saber, construtor de nomenclaturas e identidades.

A austeridade da pulsão que impregna a morte, o sexo e o desejo nos é revelada quando se abandonam as pretensões de concatenar a experiência que ocorre no centro de artes a um sentido mais lógico do que sensível. No andar de cima, o visitante pode habitar uma casa sem reflexos, sem letra. A opacidade dos jornais, dos espelhos, da televisão que anuncia coisas avulso em alto volume, parece lembrar-nos que ali já não mais impera a lógica gramatical que organiza as nossas vidas.

Os dentes espalhados pela casa surgem como lembretes do resto que, no corpo, marca a vida. A vivência imersiva em Santa Mònica ratifica a falseabilidade da autoimagem, segundo a qual o sujeito referencia-se no mundo.

A filósofa Eurídice Cabañes, que assim como outros pensadores participa virtualmente da exposição, comenta como o virtual e o real são menos díspares do que podem parecer. O corpo real, como teima em chamá-lo o discurso biomédico, modifica-se em diferentes formas mediante suas produções mais próprias. A multiplicidade das vidas possíveis no mundo digital-virtual oferece-se também ao mundo tangível quando o corpo físico percebe as camadas simbólicas e imaginárias que o produzem. A filósofa demonstra como as vivências particulares modificam-se nas diferentes relações, bem como se modifica a relação do sujeito consigo mesmo quando se reconhece o potencial de produção que advém desta entidade que habita o corpo sem deixar-se representar.

Os organizadores da exposição, Ferran Utzet e Enric Puig Punyet, advertem que a passagem ao “outro lado” é um encontro com a incoerência que se coloca fora das categorias organizadoras da realidade. A dicotomia que dá forma as representações, como homem e mulher, loucura e sensatez, virtualidade e realidade, dá lugar ao sem sentido da pulsão. O participante prossegue pelo labirinto artístico como um sonâmbulo que toca nas paredes do irreal, reconhecendo-se onde não existe.

*Luís Felipe Souza é mestrando em psicologia do trabalho na Universidade de Coimbra.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES