As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Assim era João

Imagem: Elyeser Szturm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Walnice Nogueira Galvão*

Afora a batida do violão, o modo de cantar de João Gilberto, com voz pequena, acabou também por se impor: contraponteando o ritmo, sobrevoando as fronteiras do compasso, sempre alando à frente dele ou se atrasando

Incomparável artista, João Gilberto foi o criador da batida de violão que impregnaria a invenção da bossa nova por Tom Jobim, secundado por uma plêiade de talentosos jovens da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Desse modo, o samba, negro e do morro (que assim continuaria), engendrou um rebento, que passou a ser branco, de classe média, fecundado pelo jazz, o que garantiu a alçada internacional da bossa nova, hoje considerada lá fora como “ a verdadeira música popular brasileira”. Sem esquecer seu forte componente erudito, devido ao pianista clássico Tom Jobim e ao poeta da segunda geração modernista Vinicius de Morais.

Afora a batida do violão, o modo de cantar de João Gilberto, com voz pequena, acabou também por se impor: contraponteando o ritmo, sobrevoando as fronteiras do compasso, sempre alando à frente dele ou se atrasando (nisso, Miltinho era um virtuose). Todos sabemos que essa voz é impostada, porque ao natural, ouvida em rara gravação, soa como o vozeirão de Orlando Silva. Tinha antecedentes ilustres, como o cantor fora de série (meio diseur), de dicção quase falada, que foi Mário Reis – e os do samba-canção, como Dick Farney e Lúcio Alves. Pertence à mesma escola Noel Rosa, quando canta com um fio de voz quase desfalecente mas com afinação, ginga e humor extraordinários. E fora daqui certamente Chet Baker, que soa tão parecido que quase dá para confundir. João Gilberto e toda a sua geração dedicaram-se a essa depuração do canto do samba.

Entretanto, uma explicação mais pedestre é fornecida pelos criadores da bossa nova, entre eles Roberto Menescal, hoje patriarca indisputável dos primórdios. Dizem que a maneira intimista e em surdina foi determinada pelo fato de todos morarem em apartamento. Tinham que tocar e cantar baixinho, senão os vizinhos reclamavam. De acordo com esse integrante da primeira turma, aquela que frequentava o apartamento do pai de Nara e Danuza Leão em Copacabana, foi assim que se definiu a maneira, que viria a se tornar propriamente um estilo.

Ele buscava a perfeição. A integridade de João Gilberto, que se protegia da massificação, do culto à celebridade, da exploração midiática mediante uma cuidadosa cortina de fumaça, alimentaria todo um lendário. Contava-se que era capaz de abandonar um show antes de começá-lo, descontente com os instrumentos ou os microfones. Ou então que, conversando ao telefone com um amigo (que foi correndo contar a história), batia distraidamente o lápis no aparelho até começar a fazê-lo ritmicamente, já enlevado numa possível gravação vindoura e esquecendo que havia um interlocutor do outro lado. As anedotas se multiplicam. Sabia-se que era avesso ao intercâmbio social – não ia a bares, não ia a festas, não comparecia a eventos, não apreciava badalação nem multidões – e não gostava de receber pessoas.

Ir a um show de João Gilberto era aventurar-se por terra ignota. Os fãs indagavam uns aos outros se ele apareceria mesmo; ou, caso aparecesse, se daria o show ou iria embora antes do início, como era useiro e vezeiro em fazer; ou se interromperia na metade.

Assisti um deles no Tom Brasil, em São Paulo, que se anunciava com duração de uma hora, nem mais nem menos um minuto, a partir das 21 horas. Para começar, o interregno de meia hora que ele levou para levantar a cortina a bem dizer nem chegava a configurar um atraso – tratando-se de quem se tratava. João, com seu banquinho e seu violão, cumpriu rigorosamente a obrigação, levantando-se ao fim de uma hora para agradecer os aplausos e retirar-se. Chamado várias vezes à cena pela plateia em delírio, acabaria por resignar-se a conceder um bis. A plateia silenciou e ele deu início a um bis… que duraria duas horas! Encadeando uma canção na outra, como palavra puxa palavra, só parou ao fim de duas horas. Cantou até o hino nacional, o que é de não se acreditar. Os fãs, em êxtase, só foram embora no dia seguinte, pois passava da meia-noite na cidade deserta, trauteando com João: “Madrugada já rompeu…” Foi uma ocasião digna de ficar na memória, marcada por uma estrelinha de ouro.

*Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Andrew Korybko Flávio Aguiar Walnice Nogueira Galvão Fernão Pessoa Ramos Ronald Rocha Paulo Fernandes Silveira Marcos Aurélio da Silva Heraldo Campos Otaviano Helene Claudio Katz Luiz Marques Kátia Gerab Baggio Everaldo de Oliveira Andrade Alexandre de Lima Castro Tranjan Carla Teixeira Gabriel Cohn Julian Rodrigues Fernando Nogueira da Costa Dênis de Moraes Tarso Genro Jorge Luiz Souto Maior João Carlos Salles Marcus Ianoni Leonardo Boff Samuel Kilsztajn Alexandre de Freitas Barbosa Armando Boito Ari Marcelo Solon Manchetômetro Salem Nasser Francisco de Oliveira Barros Júnior José Dirceu Anderson Alves Esteves Rafael R. Ioris Marjorie C. Marona Afrânio Catani Ladislau Dowbor José Luís Fiori Daniel Costa Vladimir Safatle Alysson Leandro Mascaro Luiz Werneck Vianna Antônio Sales Rios Neto Marcelo Guimarães Lima Gilberto Maringoni Bento Prado Jr. Elias Jabbour Yuri Martins-Fontes Jean Pierre Chauvin Eliziário Andrade João Carlos Loebens Paulo Martins Igor Felippe Santos Juarez Guimarães José Raimundo Trindade Luis Felipe Miguel Maria Rita Kehl Gilberto Lopes Remy José Fontana José Micaelson Lacerda Morais Francisco Pereira de Farias Carlos Tautz André Márcio Neves Soares Leonardo Avritzer João Paulo Ayub Fonseca Flávio R. Kothe Francisco Fernandes Ladeira Henry Burnett Liszt Vieira João Sette Whitaker Ferreira Valério Arcary Bruno Fabricio Alcebino da Silva Eleutério F. S. Prado José Machado Moita Neto Bruno Machado Celso Frederico Osvaldo Coggiola Luiz Eduardo Soares Ricardo Antunes Lincoln Secco Antonio Martins Fábio Konder Comparato Daniel Brazil Luciano Nascimento Jorge Branco Marcelo Módolo Denilson Cordeiro Jean Marc Von Der Weid Lucas Fiaschetti Estevez Annateresa Fabris Ricardo Abramovay Érico Andrade Alexandre Aragão de Albuquerque Sergio Amadeu da Silveira Boaventura de Sousa Santos Antonino Infranca Luís Fernando Vitagliano Paulo Sérgio Pinheiro Leonardo Sacramento André Singer Dennis Oliveira Manuel Domingos Neto José Geraldo Couto Lorenzo Vitral Michael Roberts José Costa Júnior Anselm Jappe Caio Bugiato Luiz Roberto Alves Daniel Afonso da Silva Tales Ab'Sáber Luiz Costa Lima Vanderlei Tenório Eleonora Albano Ricardo Musse Ronald León Núñez Ronaldo Tadeu de Souza Slavoj Žižek Chico Alencar Mariarosaria Fabris Luiz Bernardo Pericás Thomas Piketty Priscila Figueiredo João Feres Júnior Leda Maria Paulani Sandra Bitencourt Milton Pinheiro Michael Löwy Benicio Viero Schmidt Roberto Noritomi Plínio de Arruda Sampaio Jr. Berenice Bento Rubens Pinto Lyra Gerson Almeida Celso Favaretto Ricardo Fabbrini Renato Dagnino Henri Acselrad João Lanari Bo Vinício Carrilho Martinez Luiz Carlos Bresser-Pereira Bernardo Ricupero Rodrigo de Faria Tadeu Valadares João Adolfo Hansen Eugênio Bucci Atilio A. Boron Paulo Nogueira Batista Jr Eugênio Trivinho Valerio Arcary Chico Whitaker Roberto Bueno Mário Maestri Luiz Renato Martins Airton Paschoa Paulo Capel Narvai Eduardo Borges Marilia Pacheco Fiorillo Marilena Chauí Marcos Silva

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada