As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Elegia do Z

Imagem: Lucio Fontana
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FLÁVIO AGUIAR*

Em Berlim a letra “Z” está sob suspeita

Libertas
Quæ sera tamen.

Li, com certo espanto, mas não muito,

Dados os tempos em que vivemos,

Que em Berlim a letra “Z” está sob suspeita,

Por ser usada pelos tanques russos

Como identificação na guerra aqui por perto.

Ela pode ser usada, mas com moderação,

Dependendo da circunstância e da ocasião,

Sempre a critério da autoridade

Que, dizem, saberá usá-lo com precisão.

Minha companheira Zinka Ziebell

Ficou preocupada, e eu também:

Serão dois “Zês” no nome um excesso,

Um sinal de exagero na expressão,

Uma herança maldita dos ancestrais

Que pode levá-la até à prisão?

Com tais receios na mente

Passei uma noite febril e fremente

Com sonhos no varejo e no atacado.

Num deles, com horror eu via

O alfabeto deitado em mesa de cirurgia

Como naquele célebre quadro

Da Lição de Anatomia,

Sendo esquartejado por sérios doutores,

Sem gargantilha, mas de colarinho branco,

Embora alguns envergassem a toga

Quais fossem juízes de laço e tesoura.

Quis correr às letras, em seu socorro,

Mas me detive ao ouvir um dos doutos

Pronunciar com ar grave e soturno:

“Comecemos proibindo ‘A marca do Zorro’”,

Ao que outro, pondo sobre o Z seu coturno,

Respondeu: “é boa medida, e também,

Ponhamos em nossa agenda

Proibir ‘O prisioneiro de Zenda’”.

O pé sobre o “Z” causou grande tumulto

Sobretudo nas letras próximas:

Tremeram o “Y”, o “X”, com razão,

Pois logo foram levadas de roldão

Na implacável razzia

E sem qualquer culpa formada:

Seu dolo era serem letras, mais nada.

Uma se foi por ser o “X” da questão,

E a outra por ser a letra inicial

De nomes como Yuri, Yashin,

Levando juntos no mesmo abraço

Cosmonauta e goleiro, submetidos,

No pescoço, pelo mesmo baraço.

E logo outro douto sugeriu:

“Cortemos também o ‘V’ de Vladimir,

E o ‘P’ de Putin não há de sobrar!

E mais adiante sugeriu um mais afoito:

“Voltemos aos velhos tempos,

Cortemos também o ‘L’ de Lênin

E o “T” de Trotsky, o “M” de Maiakovsky,

O ‘D’ de Dostoievsky e o ‘Ch’ de Chostakovitch”.

Distante, a tudo observava o “A” arrogante,

Pensando: “É tudo muito longe…

Afinal, trata-se do “Z”, dos confins do alfabeto…”

Mas logo um novo censor, com ar muito matreiro

Foi dizendo, com jeito de brasileiro frajola:

“Mandemos pro balaio o ‘B’ de Brizola,

Político esperto que nem saracura,

‘B’  que também é de Baiano, antigo apelido

De Luiz Inácio da Silva, o Lula”.

E assim foram caindo, uma a uma,

Todas as letras, sem exceção…

Não escapou de tal sanha desabrida

Nem mesmo o “Z” de “orgasmo”

Retalhado por censor de incontido

Esgar, com satisfeito espasmo.

No imenso alarido de desolação

O “H” ficou mudo, pensando assim escapar.

Mas a fuga foi só uma vã ilusão

Pois logo um censor o agarrou pelas aspas

Vociferando: “estás em Hiroshima,

Em Holocausto, e nos muitos massacres do Hebron,

Coisas que devemos banir da lembrança,

Antes que com sua dolorosa presença

Nas mentes façam muita lambança”.

Já estava tudo demais de quieto

Quando surgiu uma letra muito apressada:

Era o “U” querendo fazer uma delação premiada!

Foi acolhido por um censor togado

Que declarou, sem se fazer de rogado,

Com ar de sibilino monge:

“Eu sou o conhecido juiz Conge,

Com meu brilhante assistente

Espevitado e magro como um anzol,

O famoso doutor Daranhol.

Dize-me o que queres delatar

E teu caso vou então ajuizar”.

“Pois veja”, disse o “U” todo trêmulo,

“Sou o U de Ucrânia e para merecer vosso perdão

Denuncio meu êmulo co-irmão,

O “U” da palavra Rússia: este sim

Deve ser banido por subversivo”.

Depois de rápida conferência

Com seu preclaro assistente,

Manifestou-se assim o douto censor,

Demonstrando ajuizado crivo:

“Ide em paz, U de Ucrânia;

Acolhemos tua denúncia

Pois nesta palavra és

De inocente pronúncia.

De resto, se condenamos o ‘Z’ dos tanques,

Saudamos o Z de Zelensky, nosso herói da ocasião;

Vós sois, como o ditado prega,

As nobres exceções

Que confirmam a regra!”

Mas não parou por aí o massacre

Perpetrado por aquela gente

Vetustamente vestida como um Quacre.

E assim foram banidos

De todos os livros de Geografia

Lugares como Zanzibar, Zâmbia, Zimbábue,

E como se fossem bandidos

Foram riscados dos livros de Filosofia

Gente como Zoroastro e Zaratustra,

E ainda que fossem ariscas

Todas as zebras perderam suas riscas

No livro de Zoologia, que passou a chamar-se

Tão somente Oologia.

A “Zabumba” saiu da Música,

E como na antiga lenda

Zumbi preferiu jogar-se de um penhasco

A ver-se de novo escravizado

Por aqueles senhores de ódio e asco.

Em meu sonho eu já estava atarantado

Com aquela loucura desatada

Quando vi um pouco mais adiante

Outra mesa de cirurgia,

Em que idêntica operação se fazia,

Retalhando e matando outro alfabeto.

Embora estranho para mim

Reconheceu meu conhecimento empírico

Que tratava-se do alfabeto cirílico,

E sem conhecer a língua que usavam

Minha consciência já tão aflita

Pode ver que os outros censores

Falavam com sotaque moscovita…

“Guerra é guerra”, pensei

Com meus tristes botões,

“Trata-se de entronizar a insânia

E de banir com feroz impaciência

Toda forma de inteligência,

Reduzindo a um branco e preto iracundo

Toda a riqueza colorida do mundo”.

Notei que os alfabetos assim destroçados

Pegavam fogo e deles as cinzas juntas caíam

Em jazigo comum depressa cavado.

Aproximei-me do buraco maldito

E vi que naquele borralho improvisado

Algumas brasas ainda bruxuleavam

Depois de passarem por tais Inquisições desalmadas.

Vi, com renovada esperança,

Que ali ardiam, como almas penadas,

O “Z” em “Poesia” escondido,

O “Z” de “Ousadia” disfarçado,

E também o “Z” de Zênite declarado.

E dali elas e outras letras foram se elevando

Por um celeste Zimbório protegidas,

Fugindo das garras dos perseguidores

E no meio delas reluzia

A palavra Liberdade – ainda que tardia.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Eduardo Soares Remy José Fontana Jorge Branco Valerio Arcary José Costa Júnior Luiz Carlos Bresser-Pereira Leonardo Boff Celso Favaretto Tales Ab'Sáber Bruno Machado Yuri Martins-Fontes Bento Prado Jr. Henri Acselrad Walnice Nogueira Galvão Marcelo Módolo Caio Bugiato Armando Boito Rodrigo de Faria Marilena Chauí Gerson Almeida Marcos Silva Vinício Carrilho Martinez José Machado Moita Neto Otaviano Helene Salem Nasser José Raimundo Trindade Milton Pinheiro Flávio Aguiar Francisco Fernandes Ladeira Gabriel Cohn Fábio Konder Comparato Atilio A. Boron Marjorie C. Marona Ricardo Fabbrini Julian Rodrigues Luiz Werneck Vianna Jean Pierre Chauvin Leda Maria Paulani Juarez Guimarães Manuel Domingos Neto João Paulo Ayub Fonseca Denilson Cordeiro Michael Roberts Alexandre Aragão de Albuquerque André Márcio Neves Soares Érico Andrade Slavoj Žižek Ricardo Abramovay João Lanari Bo Jorge Luiz Souto Maior Lorenzo Vitral Liszt Vieira Marcos Aurélio da Silva Anselm Jappe João Carlos Salles Rafael R. Ioris Francisco Pereira de Farias Luiz Roberto Alves Luiz Costa Lima Celso Frederico Alysson Leandro Mascaro Paulo Nogueira Batista Jr Luciano Nascimento Eugênio Trivinho Sergio Amadeu da Silveira João Sette Whitaker Ferreira Airton Paschoa Chico Alencar Plínio de Arruda Sampaio Jr. Roberto Bueno Benicio Viero Schmidt Luiz Renato Martins Carla Teixeira Valério Arcary Annateresa Fabris José Dirceu Manchetômetro Vanderlei Tenório João Carlos Loebens Renato Dagnino Vladimir Safatle Ladislau Dowbor Paulo Martins José Luís Fiori Daniel Afonso da Silva Osvaldo Coggiola Marilia Pacheco Fiorillo Fernão Pessoa Ramos Henry Burnett José Micaelson Lacerda Morais Roberto Noritomi Samuel Kilsztajn Tarso Genro Mariarosaria Fabris Eleonora Albano Rubens Pinto Lyra Maria Rita Kehl Jean Marc Von Der Weid Lucas Fiaschetti Estevez Antônio Sales Rios Neto Elias Jabbour Dênis de Moraes Michael Löwy Luiz Marques Chico Whitaker Francisco de Oliveira Barros Júnior Daniel Brazil Paulo Fernandes Silveira Everaldo de Oliveira Andrade Marcelo Guimarães Lima Ronald Rocha Dennis Oliveira Eduardo Borges Bruno Fabricio Alcebino da Silva Andrew Korybko Anderson Alves Esteves Bernardo Ricupero Eleutério F. S. Prado Afrânio Catani Antonino Infranca André Singer Alexandre de Freitas Barbosa Paulo Capel Narvai Leonardo Sacramento Leonardo Avritzer Carlos Tautz Thomas Piketty Gilberto Lopes Marcus Ianoni Ari Marcelo Solon Sandra Bitencourt Berenice Bento José Geraldo Couto Ricardo Antunes Eugênio Bucci Flávio R. Kothe Kátia Gerab Baggio Heraldo Campos João Feres Júnior Daniel Costa Mário Maestri Claudio Katz Boaventura de Sousa Santos Paulo Sérgio Pinheiro Luís Fernando Vitagliano Igor Felippe Santos Ricardo Musse Lincoln Secco Fernando Nogueira da Costa Priscila Figueiredo Luiz Bernardo Pericás Tadeu Valadares Eliziário Andrade Luis Felipe Miguel Ronaldo Tadeu de Souza Antonio Martins Ronald León Núñez Gilberto Maringoni João Adolfo Hansen Alexandre de Lima Castro Tranjan

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada