As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Opções irreconciliáveis

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MICHAEL LÖWY*

A invasão russa da Ucrânia ressuscitou a OTAN

A OTAN é uma organização imperialista, hegemonizada pelos Estados Unidos, responsável por inúmeras guerras de agressão. A dissolução desse monstro político-militar, engendrado pela Guerra Fria, é uma exigência democrática elementar. Seu enfraquecimento nos últimos anos levou Emmanuel Macron, o presidente neoliberal da França, a constatar em 2019, que a Aliança se encontrava «em estado de morte cerebral». Infelizmente, a criminosa invasão russa da Ucrânia ressuscitou a OTAN!

Vários países neutros (Suécia, Finlândia, etc.) estão examinando sua adesão à OTAN; tropas americanas estão sendo estacionadas na Europa em grande quantidade; a Alemanha, que há dois anos atrás havia recusado aumentar seu orçamento militar, apesar das brutais pressões de Donald Trump, resolveu investir 100 bilhões de euros em rearmamento. Etc, etc. Vladimir Putin salvou a OTAN de seu lento declínio, senão desaparição.

Porque esta invasão da Ucrânia? Enquanto Vladimir Putin pretendia proteger as minorias russofonas da região do Donesk, havia certa racionalidade em sua política. Idem, para sua oposição à expansão da OTAN no Leste Europeu. Mas a brutal invasão da Ucrânia, com seu cortejo de bombardeios de cidades, com milhares de vítimas civis, inclusive idosos, mulheres e crianças, não tem nenhuma justificação.

Com que argumentos busca Putin legitimar esta guerra criminosa contra o povo ucraniano? O argumento da «desnazificação» da Ucrânia não tem pé nem cabeça. O povo ucraniano elegeu como presidente um judeu, Volodymyr Zelenski, que se orgulha de seu avô, que combateu nas fileiras do Exército Vermelho contra o nazismo. Certo, existem partidos e grupos neonazistas na Ucrânia, mas nas últimas eleições tiveram só 3% dos votos. Existem grupos similares na Rússia. Como pode Vladimir Putin se declarar anti-fascista, ele que apoia politicamente e financeiramente vários partidos neofascistas na Europa, como a Frente Nacional da familia Le Pen na França, ou a Legga de Matteo Salvini na Italia? O jornal do Partido Comunista Francês, L’Humanité, publicou um dossiê sobre isso em 22 de março de 2022 com o título A extrema direita e Putin

A outra «legitimação» da invasão se encontra no discurso de Vladimir Putin em 22 de fevereiro de 2022. Segundo o chefe de Estado russo, a Ucrânia «foi inteiramente criada pela Rússia bolchevique e comunista», visto que «Lênin e seus companheiros arrancaram a Ucrânia da Rússia»! A Ucrânia merece ser chamada «a Ucrânia de Lênin», já que ele foi «o autor e arquiteto» deste pais. Foi Lênin que inventou «o direito das nações à autodeterminação até à secessão, que constitui o fundamento do Estado Soviético», uma concessão absurda aos nacionalistas das várias repúblicas que se constituíram depois da Revolução de 1917.

Reconhecer a essas repúblicas o direito de se separarem do Estado russo foi, segundo Vladimir Putin, «uma loucura, algo totalmente incompreensível», uma verdadeira destruição da «Rússia histórica» (isto é tzarista). Dirigindo-se aos governantes da Ucrânia, Putin argumenta: vocês falam em «descomunizar» a Ucrânia (isto é, romper com seu passado comunista), mas ficam no meio do caminho. «Nós vamos mostrar a vocês a verdadeira descomunização», conclui Putin, referindo-se ao seu projeto de re-integrar – pela força evidentemente – a Ucrânia novamente ao Estado russo.

Esta é então a «justificação» putinista da invasão da Ucrânia: argumentos anti-comunistas, anti-leninistas, e a ambição de restaurar a «Rússia histórica» anterior ao bolchevismo – isto é a Rússia tzarista – anexando a Ucrânia. Não por acaso, a grande maioria dos Partidos Comunistas no mundo – inclusive os mais saudosos do socialismo soviético, como o grego e o chileno – condenaram a invasão russa da Ucrânia.

Pode se fazer muitas criticas à Ucrânia atual: falta de democracia, opressão da minoria russófona, «ocidentalismo», etc, etc. Mas não se pode negar o direito do povo ucraniano de se defender contra a invasão russa de seu território, num brutal e criminosos desprezo do direito das nações à autodeterminação.

Ou comunismo ou putinismo, ou Vladimir Illitsch ou Vladimir Putin, ou direito de autodeterminação das nações ou direito dos impérios de invadir e buscar anexar outros países: a cada um cabe escolher o que prefere, mas são opções irreconciliáveis.

Esperemos que algum dia os povos da Europa e da Rússia se libertem de suas oligarquias capitalistas parasitárias. Esta era a proposta dos revolucionários de Outubro de 1917.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de A teoria da revolução no jovem Marx (Boitempo).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Jorge Luiz Souto Maior Lorenzo Vitral Alexandre Aragão de Albuquerque Dennis Oliveira Jean Marc Von Der Weid Paulo Sérgio Pinheiro Claudio Katz Luís Fernando Vitagliano Ronald Rocha Paulo Capel Narvai Antônio Sales Rios Neto Everaldo de Oliveira Andrade Gilberto Maringoni Otaviano Helene Leonardo Avritzer Airton Paschoa Luciano Nascimento José Costa Júnior Osvaldo Coggiola Daniel Afonso da Silva Kátia Gerab Baggio Ricardo Abramovay Ladislau Dowbor Fernando Nogueira da Costa Andrew Korybko Paulo Martins João Carlos Salles Daniel Costa Eugênio Bucci Heraldo Campos Luiz Werneck Vianna Antonino Infranca Sandra Bitencourt Annateresa Fabris João Carlos Loebens João Lanari Bo Marcus Ianoni Slavoj Žižek Marilena Chauí Juarez Guimarães Marjorie C. Marona Alysson Leandro Mascaro Salem Nasser João Paulo Ayub Fonseca Luiz Carlos Bresser-Pereira Tales Ab'Sáber João Adolfo Hansen Celso Frederico Flávio R. Kothe Gabriel Cohn Jorge Branco Ricardo Antunes Lucas Fiaschetti Estevez Francisco Pereira de Farias Ari Marcelo Solon Boaventura de Sousa Santos Tarso Genro José Geraldo Couto José Dirceu Atilio A. Boron Anselm Jappe Valerio Arcary Leonardo Boff Michael Roberts Priscila Figueiredo Chico Alencar Bernardo Ricupero Rafael R. Ioris Marcelo Módolo Bento Prado Jr. Luiz Renato Martins Mariarosaria Fabris Leonardo Sacramento Manuel Domingos Neto Luiz Marques Igor Felippe Santos Henri Acselrad Tadeu Valadares Renato Dagnino Marcos Aurélio da Silva Antonio Martins Mário Maestri Francisco de Oliveira Barros Júnior Thomas Piketty José Micaelson Lacerda Morais Eduardo Borges Luiz Bernardo Pericás Armando Boito Carlos Tautz Dênis de Moraes Eugênio Trivinho Rubens Pinto Lyra Fábio Konder Comparato Alexandre de Lima Castro Tranjan Yuri Martins-Fontes Samuel Kilsztajn Paulo Fernandes Silveira Roberto Noritomi Maria Rita Kehl Alexandre de Freitas Barbosa Manchetômetro Valério Arcary André Singer Michael Löwy Elias Jabbour Daniel Brazil Luiz Roberto Alves Lincoln Secco Walnice Nogueira Galvão Marcos Silva Vanderlei Tenório Remy José Fontana Gerson Almeida Ronaldo Tadeu de Souza Luiz Eduardo Soares Érico Andrade Roberto Bueno Anderson Alves Esteves Liszt Vieira André Márcio Neves Soares José Luís Fiori Denilson Cordeiro José Machado Moita Neto Chico Whitaker Plínio de Arruda Sampaio Jr. Leda Maria Paulani Berenice Bento Marilia Pacheco Fiorillo José Raimundo Trindade Fernão Pessoa Ramos Gilberto Lopes Eliziário Andrade Henry Burnett Celso Favaretto Luis Felipe Miguel Julian Rodrigues Ricardo Fabbrini Rodrigo de Faria Eleonora Albano Paulo Nogueira Batista Jr Luiz Costa Lima Milton Pinheiro Ricardo Musse Bruno Fabricio Alcebino da Silva Caio Bugiato Francisco Fernandes Ladeira Jean Pierre Chauvin Vinício Carrilho Martinez Bruno Machado Benicio Viero Schmidt João Sette Whitaker Ferreira Vladimir Safatle Marcelo Guimarães Lima João Feres Júnior Flávio Aguiar Ronald León Núñez Carla Teixeira Eleutério F. S. Prado Afrânio Catani Sergio Amadeu da Silveira

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada