Eleições no México

Imagem: Israel Torres
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Por CARLOS TAUTZ*

O Presidente AMLO vem há quatro anos estimulando o voto em Claudia Sheinbaum Pardo, indicada pelas pesquisas de intenção de voto como a mais provável vitoriosa nas eleições de 2 de junho

Continuísmo e continuidade. A eleição presidencial no México neste 2 de junho deve confirmar, como prevêem todas as pesquisas eleitorais, a eleição da candidata governista, Claudia Sheinbaum. Com ela, devem seguir também todas as políticas sociais compensatórias de seu antecessor, o cientista político Andrés Manuel López Obrador, que está no poder desde 2018.

A dúvida é: conseguirá – ou, pelo menos, tentará – Claudia Sheinbaum avançar onde AMLO (como é conhecido Lópes Obrador) fracassou? Até onde vai o limite do estado democrático de direito no México, que AMLO parece estar perdendo, além do combate à corrupção estatal e às organizações criminosas internacionais que traficam drogas e milhares de pessoas para o gigante vizinho, os EUA, com quem o México tem mais de 3.100 km de fronteiras comuns?

Claudia Sheinbaum conseguirá – ou, pelo menos, tentará – retirar das tarefas mais comezinhas do país as Forças Armadas, que AMLO colocou em áreas civis como o policiamento, a construção de rodovias e até de refinarias de petróleo, em uma estratégia de militarização da vida social que se verifica também em outros países da América Latina?

A continuidade entre AMLO e Claudia Sheinbaun aparece ainda em outras características – e dilemas. Ela, como ele, já governou a capital cidade do México antes de pleitear a presidência e também terá na geopolítica um dos temas de seu governo, caso eleita.

Este último tema não será tarefa fácil. Washington volta a priorizar a América Latina após décadas dedicadas a lutar pelo petróleo do Oriente Médio, a confrontar política e militarmente (por procuração) a Rússia e, mais recentemente, a dedicar-se a uma guerra comercial que em breve pode se transformar em confronto bélico com a China na Ásia.

“A situação em toda a América Latina hoje é bem complicada em sua relação com os EUA”, resume a professora Ana Esther Ceceña, que na Universidade Autônoma do México coordena o Observatório da Geopolítica. “O México é um território a ser recolonizado com certa urgência pelos EUA”, diz a economista e coautora de livros como “El proceso de ocupación de América Latina en el siglo XXI” e “El capitalismo monopolista, los supergrupos y la economía mexicana”, entre outros.

No texto abaixo, ela faz observações críticas sobre a relação entre AMLO e Claudia Sheinbaun e coloca em pauta a crescente influência política e econômica na América Latina da China, do Irã e da Rússia. Em particular, ela trata de um projeto de interconexão entre dois oceanos, que está sendo desenvolvido no México e que pode levar a uma disputa de escala global.

O Corredor Interoceânico de que fala Ana Esther está localizado no Istmo de Tehuantepec, que uma estreita faixa do território mexicano, de apenas 300 quilômetros de extensão, que separa o Oceano Pacífico do Oceano Atlântico. O Corredor, em construção, será uma alternativa ao Canal do Panamá, sob controle administrativo, político e militar dos EUA, mas que teve as suas atividades extremamente reduzidas devido às mudanças no clima do planeta, que alteraram o nível e os regimes das marés naquela região.

Estas mudanças abrem espaço para o que o Corredor, no México, se viabilize não apenas como ponto de ligação comercial entre dois oceanos. Mas, também, como meio de acesso rápido das frotas russa e chinesa, chegadas desde os Oceanos Índico e Pacífico, ao Golfo do México – onde estão importantes interesses estadunidenses – e ao Caribe, uma região que sempre foi considerada pelos EUA o primeiro círculo de sua hegemonia de alcance global.

Ana Esther Ceceña

O Presidente AMLO vem há quatro anos estimulando o voto em sua candidata Claudia Sheinbaum Pardo (uma geocientista e governadora da capital Cidade do México entre 2018 e 2023), indicada pelas pesquisas de intenção de voto como a mais provável vitoriosa nas eleições de 2 de junho, e que possui muito mais sensibilidade ao tema das mudanças climáticas.

Ela é beneficiada pela popularidade de AMLO sobretudo nas classes populares, mas não só, porque AMLO favoreceu muito também a um certo tipo de empresariado, que deseja a continuidade de certas políticas de engenharia social muito inteligente e de impacto, em especial para os jovens. A relação que AMLO vem tendo com empresários e investidores dos EUA, com o capital transnacional, é boa, exceto em alguns campos, como o de energia, onde há muitas fricções.

Sobre o governo de AMLO, é necessário dizer que foi muito pouco, tanto pelas esperanças que se tinha de ele construir uma política mais democrática e com mais participação. Mas, sobretudo, a um combate a coisas que pesavam sobre a sociedade mexicana, como a corrupção e o verdadeiro saque que haviam feito os presidentes anteriores. Promessas que o próprio AMLO havia feito, como combater a corrupção, fazer os militares voltarem aos quartéis, restabelecer o Estado de direito e muitas outras coisas que não foram realizadas.

Em alguns pontos se avançou em sentido contrário, como no caso da militarização. Tínhamos uma situação complicada desde 2006, no governo do ex-Presidente Calderón, quando se iniciou uma escalada militarista contra grupos de traficantes de drogas. Mas, ao contrário, com López Obrador a situação piorou muitíssimo, ampliando a responsabilidade do Exército que em verdade são temas civis, de segurança interna e a construção de infraestrutura e a constituição de um banco para pagar aposentadorias.

Tudo no País está hoje intermediado pelas Forças Armadas. Mas, a violência aumentou, além de tudo mais que tem a ver com o crime organizado. Em todo o país aumentou o controle territorial por parte de grupos delinquentes e eles que impõe as regras de comportamento sociais – inclusive nas eleições de agora. São regras da vida, da política e os limites da democracia estão em mãos de poderes de fato.

A candidata de López Obrador promete dar continuidade ao governo dele. Inclusive, uma ideia desenvolvimentista distinta dos tempos atuais. Isto levou à destruição de boa parte do ambiente, das florestas no sudeste mexicano, onde ele apoiou projetos devastadores. Tem havido muita oposição a estes projetos, como o trem Maya [uma a polêmica ferrovia bilionária que leva os ricos a passear por territórios dos pobres], o corredor interoceânico e a construção de uma refinaria em uma região ambientalmente frágil.

Esses projetos, que têm tido muita objeção por parte dos cientistas, foram entregues à Marinha e ao Exército e declarados projetos de segurança nacional – o que não são! Ao contrário, mas estão sendo tratados com critérios muito particulares dos militares. Estes são elementos que pesam muito na desqualificação do governo de AMLO, e que devem pesar muito sobre sua sucessora, caso ela siga com eles como já declarou que seguirá.

A posição do México em relação ao chamado Grande Caribe, a Bacia do Caribe, é importantíssima na gestão de muitas políticas dos EUA em relação ao petróleo, à água e aos minerais. Aí, não importa apenas a posição geográfica do México, mas também a possibilidade de que as águas territoriais do México [no Oceano Atlântico, na Bacia do Caribe ] apareçam como uma extensão do braço extrativista dos EUA em direção ao sul [da América Latina]. Também os portos mexicanos no Oceano Pacífico podem ajudar à entrada e saída em direção à região da Ásia-Pacífico . O México é um território a ser recolonizado com certa urgência pelos EUA.

A relação com os EUA tem várias arestas e uma delas é a migração. As prisões [temporárias, de migrantes que passam pelo México a caminho dos EUA], e aceitas por nosso governo, nos transformaram em um país de retenção de migrantes, até que os EUA os deixem entrar. Enquanto isso, a gestão dessas pessoas fica a cargo do México, que está sobrecarregado, sobretudo nas regiões em que estão localizados os projetos de infraestrutura [administrados pelas Forças Armadas]. Os migrantes vão para aí até que tenham, ou não, a sua migração aprovada para os EUA, e esta situação é explosiva. Há conflitos muito forte e profundos [com os militares], sem que o governo mexicano tenha proposto soluções.

Outro dos elementos complicados, embora o governo de Lopez Obrador o considere promissor, pela posição geográfica de México e EUA [são 3.141 quilômetros de extensão, desde o Oceano Pacífico para o oeste, e do Golfo do México para o leste] é o chamado nearshoring [um tipo de subcontratação trabalhista com salários mais baixos].

Quer dizer, os investimentos que chegam ao México destinam-se a fazer a triangulação do que chega “sujo” aqui e entra “limpo” nos EUA. O México está servindo como um pátio industrial em que são montadas as partes das mercadorias que serão enviadas aos EUA. O governo diz estar contente, porque aumentaram os investimentos e um pouco o nível de emprego.

Mais um elemento complicador, neste marco geopolítico global, é a presença de grupos econômicos da Ásia-Pacífico, incluindo a Rússia, que pesam muito no comércio internacional do México e competem com o comércio com os EUA.

Esta é uma aposta que pode complicar muito mais os EUA do que os países da Ásia-Pacífico, que chegam a todos os portos dos EUA no Oceano Pacífico. Isso põe o México em uma situação particular, por ser o aliado mais próximo [dos EUA] e que pode resolver o problema com o Corredor Interoceânico. Mas, este Corredor, se substituir em grande medida o Canal do Panamá, se converterá em um local estratégico e que terá que ser militarizado, e não somente pelas Forças Armadas do México, que já tem problemas suficientes com os grupos criminosos, que não conseguem controlar. Essa situação abre espaço para que as forças armadas dos EUA controle os espaços estratégicos [como o do Corredor Interoceânico] em território mexicano.

A situação da América Latina hoje é bem complicada em sua relação com os EUA, que tem se ocupado de aumentar as relações com Cuba e Venezuela e os países de que não gosta na região. Há um movimento permanente de vínculos que se constroem e se rompem. A região vê várias oportunidades interessantes de relação com a China, a Rússia e até o Irã e com outros países, que vêem uma abertura de possibilidades abertas pela desdolarização, o comércio complementar em moedas próprias e sem passar pelo dólar – o banco do BRICS+, por exemplo.

Esta situação permite aos países latino-americanos pensar que têm algumas portas de saída em outras rotas que não sejam os EUA. Uma, por exemplo, é a relação de Cuba com a Rússia no campo do turismo, que é muito importante para os cubanos. Há um redesenho de equilíbrios de poder que está muito aberto neste momento, que está nos cobrando certas certezas e nos permitindo construir novas rotas e linhas, novas esperanças para estes países.

*Carlos Tautz é jornalista e doutorando em história na Universidade Federal Fluminense (UFF).


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