Escadas quebradas e suas tempestades

Foto: divulgação
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Por JOSÉ COSTA JÚNIOR*

Comentário sobre o filme O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Numa das cenas de O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), a ladra Selina Kyle, a Mulher-Gato interpretada por Anne Hateway, dança num baile de máscaras com Bruce Wayne (Christian Bale) num festivo e sofisticado salão, após invadir sua mansão e roubá-lo. Surpresa após ter sido descoberta, Kyle faz referência à “Ibiza” no diálogo, mas tem sua pronúncia logo corrigida de forma elitista pelo bem-nascido Wayne. O tenso diálogo segue e a ladra é então questionada por suas práticas e motivações, e então responde: “Acha que tudo isso vai durar? Vem tempestade por aí Sr. Wayne. É melhor o senhor e os seus amigos se prepararem. E quando ela chegar, vão se perguntar como puderam pensar que iriam viver na opulência e deixar tão pouco para o resto de nós.”

O filme continua e vemos o herói enfrentando pessoas sem rosto nas ruas e subsolos de Gotham, cooptadas por um líder forte e brutal, que destrói as expectativas e esperanças do moderno e progressista Batman/Wayne. Gente tradicionalmente inferiorizada entrega sua vida contra aqueles que nunca os viram e que agora têm seu momento de destaque e vingança. Realizado após a crise econômica de 2008, o filme capta as tensões e revoltas do nosso tempo, e, mesmo com roteiro e final hollywoodiano, reconhece e retrata o mal-estar social de um tempo que curiosamente prometia um futuro de realizações e otimismo e entregou revoltas e pessimismo.

A “tempestade” citada por Kyle envolve a revolta daqueles que vivem próximos da “opulência” daquele salão, mas que nele não podem entrar, juntamente com a dificuldade de sobrevivência minimamente digna de muitos, mesmo vivendo próximos das riquezas inimagináveis de alguns. As sensações e sentimentos que surgem de tais percepções seriam os motores da tempestade, que não demoraria a chegar naquela Gotham tão parecida com nossas capitais ocidentais – inclusive nas pessoas sem rosto e lutando pelas sobras de tanta opulência. A disparidade de riqueza entre uma pequena classe alta e o restante da população tem aumentado nas últimas décadas, com suas abissais diferenças visíveis em nossos cotidianos e com implicações de longo alcance em termos sociais e políticos.

Esse aumento gritante das desigualdades e as tensões sociais são evidenciadas no estudo The Broken Ladder: How Inequality Affects the Way We Think, Live, and Die (2017), do psicólogo social Keith Payne, professor na Universidade da Carolina do Norte. Seu argumento principal no livro é mostrar que grandes desigualdades desestabilizam as sociedades, impactando o convívio, os laços, a segurança, a saúde e a percepção que as pessoas têm de si e dos outros. Payne parte de observações do cenário social dos Estados Unidos, onde a confiança no trabalho e na liberdade como garantidores de desenvolvimento social e econômico é traço cultural distintivo. No entanto, as possibilidades de ascensão social são cada vez mais raras.

A “escada” de crescimento “quebrou” e a “terra da liberdade” tornou-se um cenário de disputas, com muito mais “perdedores” do que “vencedores”, onde as diferenças crescem cada vez mais. Payne também apresenta estudos sobre o impacto dessa desigualdade crescente na percepção de que as pessoas, explorando estudos daquilo que é conhecido como o “erro fundamental de atribuição” — neste caso, assumir que os sucessos e fracassos das pessoas são, em grande parte, de sua própria responsabilidade. Essa busca individual por crescimento e status nessa “escada quebrada” produz cada vez mais insatisfação e mal-estar, onde os ganhos não são garantidos e as situações debilitantes são cada vez mais frequentes – como a presença do estresse e da depressão, tornando os sujeitos cada vez mais vulneráveis e propensos a comportamentos de risco – e não apenas entre os mais pobres.

Como seres sociais, estamos sempre preocupados com o nosso status e o modo como somos vistos. Porém, com as possibilidades oferecidas pelo mundo moderno, muitos de nós passamos a buscar cada vez mais destaque e reconhecimento, sem necessariamente encontrá-los. Em circunstâncias de comparações e luta por status cada vez mais exigentes, não é incomum que nos sintamos tão mal como atestam os números relativos à saúde mental do nosso tempo. Em sociedades desiguais, em que é sempre possível observar quem está em melhores condições ou num status mais elevado, essa tensão fica latente. As expectativas de trabalho árduo e talento para conseguirmos “subir” na vida já não garantem muita coisa, além da individualização crescente que nos cerca num mundo onde o sujeito torna-se “empreendedor de si mesmo”.

Payne destaca que a percepção de inferioridade que muitos terão em circunstâncias de extrema diferença social impacta decisivamente a vida de todos. Sentimentos como vergonha, raiva, humilhação e revolta florescem com mais intensidade nesses contextos. Mesmo aqueles que possuem um pouco mais de recursos podem ser impactados por tais percepções, além da perda da confiança de que o sistema social funciona. Se o trabalho duro e a confiança não garantem segurança social e status, comportamentos arriscados e autodestrutivos passam a ser comuns, como vias em paralelo para a busca de alguma segurança e estabilidade social. Nesse sentido, a desigualdade impacta a percepção que temos de nós mesmos, contribuindo para o crescente estresse psíquico de nosso tempo, situação que afeta nossas ações e nossos sentimentos, a maneira como vivemos e como morremos, como descreve o subtítulo do estudo.

As “tempestades” sociais apontadas pela personagem Selina Kyle advêm desse tipo de tensão e Payne oferece uma série de evidências para que nos preocupemos cada vez mais com as crescentes desigualdades de nosso tempo. As possibilidades de realização e recursos que observamos nas ruas e nas redes são cenários que nos são cada vez mais impossíveis, e a indignação e a revolta tendem a crescer. A desconfiança pública e os laços sociais tendem a diminuir, com fraturas no espaço comum da vida coletiva. E se não confiamos nos sistemas sociais nos quais estamos inseridos, que motivos temos para mantê-los e aceitar suas regras? A crise dos sistemas políticos ditos democráticos da atualidade e a crescente criminalidade e violência observadas em nossas cidades são evidências dessa desconfiança.

As expectativas frustradas são o motor das tempestades sociais, evidenciadas tanto pelos níveis crescentes de brutalidade social e política, quanto pelo mal-estar social de um tempo que parece doente de si mesmo. Os dados e conclusões oferecidos por Payne evidenciam que somos formas de vida individualizadas, mas socialmente comparativas; reflexivas, porém emotivas; únicas, porém sensíveis às circunstâncias e percepções de si. Vivendo no mundo social com crescentes desigualdades econômicas, que nos fazem cada vez mais mal, confiar numa “escada quebrada” de crescimento eterno e infinito só nos deixará mais frustrados e revoltados. Considerar e desenvolver sistemas sociais mais inclusivos, com maior taxação de grandes riquezas e ampliação no acesso são demandas fundamentais para começar a lidar com tais problemas. Caso contrário, cada vez mais teremos “tempestades por aí”.

Referências

O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Roteiro e Direção de Christopher Nolan. Warner Bros. Estados Unidos. 2012.

PAYNE, Keith. The broken ladder: How inequality affects the way we think, live, and die. Penguin, 2017.

*José Costa Júnior é professor de filosofia e ciências sociais no IFMG –Campus Ponte Nova

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