Este é Elon Musk

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por TARSO GENRO*

Musk diz que é preciso uma geleia geral, sem Estado e sem classes estruturadas, para que a sociedade só reconheça os sujeitos como indivíduos em luta para meritoriamente serem mais desiguais

Um empresário estrangeiro bilionário, comanda aqui no Brasil a oposição à democracia e à soberania popular e busca aliados estrangeiros, em países próximos, para fazer sua guerra contra a soberania do Estado, a República e a ideia de nação, que esteve na raiz do nosso processo constituinte. E o faz apoiado por uma malta fascista, aliada ao que tem de pior no neoliberalismo autoritário, inimigo dos direitos fundamentais e da soberania popular. Este é Elon Musk.

A ideia de Elon Musk é instituir um novo tipo de Estado, através de uma estrutura privada de poder soberano, que possa corroer os valores democráticos – por dentro e por fora da estrutura normativa do Estado instituído – privando-o do seu poder soberano legitimado pelas eleições democráticos, para criar um sistema criminoso de poder privado que controle a República, de fora para dentro, sem ocupação territorial de caráter militar.

Erik Olin Wright busca, na parte conclusiva do seu livro Análise de classe –abordagens, uma resposta para o dilema “se a classe é a resposta, qual é a questão?” – formulando a pergunta específica: “como as pessoas, individual e coletivamente, situam subjetivamente a si e aos outros, dentro de uma estrutura de desigualdade.” É uma pergunta axial para nos situar hoje na nova estrutura de classes e “não-classes” do capitalismo financeiro turbinado pelas novas tecnologias, globalizado pelo consumismo desigual e exasperado.

Elon Musk e Karl Marx percorreriam o mesmo caminho com propósitos de dar respostas com sentidos e ideais diferentes. Marx diria que pela luta política entre as classes – pacífica ou armada, segundo o Marx que se lê – deveríamos conquistar um estado de extinção das classes, numa sociedade pautada pela igualdade com o reconhecimento das diferenças. Elon Musk diz – como Javier Milei – que é preciso uma geleia geral, sem Estado e sem classes estruturadas, para que a sociedade só reconheça os sujeitos como indivíduos em luta para meritoriamente serem mais desiguais.

Parece irônico colocar num mesmo texto a influência na realidade, de dois práticos e pensadores tão diferentes. Mas não será, se pensarmos que Marx é o principal herdeiro do iluminismo do século XVIII e Elon Musk é hoje o principal agitador e “influencer” do fim do humanismo burguês. Este, ao mesmo tempo em que destrói as heranças humanistas ilustradas, promove uma estética da decadência, que encarna – com a sua idiotia provocativa e o seu talento pervertido – a ideia de monetizar a canalhice como valor agregado à sua ousadia performática.

A experiência de Elon Musk como CEO, chanceler e líder de um novo poder soberano global, que se ergue no horizonte da história contemporânea, não é apenas o novo traçado de uma epopeia fascista libertina, hoje apelidada de “libertária”, mas é, sobretudo, a promessa de uma nova etapa – na época da dissolução do projeto imperial-colonial tradicional – que se encaminha para outro patamar de poder do capital financeiro global, no atual sistema-mundo.

Elon Musk concebe uma linha política, como um agente especial das mudanças tecnológicas e informacionais da grande pirataria do capitalismo, como representação informal de novos entes soberanos. Diferentes e distantes dos estados modernos, formados até agora, o Estado de Musk é o “estados-fluxo”, sem pátria e sem pruridos humanistas: Estado total global de natureza privada, que esmaga as agências públicas que fizeram as normas de poder do Estado de direito.

Estes Estados desafiam a genética do Estado de direito – nacional e social – pela captura da opinião na ditadura do mercado e que tem no seu limite tanto a guerra quanto a ditadura militar como seu recurso derradeiro. A naturalização da violência, o fim de qualquer proteção social e a multiplicação do Estado-polícia, face ao rebaixamento do que resta das funções públicas do Estado, são o seu caminho.

Elon Musk encarna o fato de que há uma outra realidade em marcha, onde os conceitos de pátria, nação e solidariedade, serão soterrados por estes novos gerentes, pilantras do capitalismo em crise, cheios de “brilho” nos momentos mais excitantes da sua vida, para quais não importa nada: miséria, famílias destruídas, crianças assassinadas, jovens mortos de fome, trabalho precário e noites de inverno sem calor. Nada lhes importa.

O que lhes importa é a próxima cotação das bolsas e como os idiotas e patéticos editoriais da desumanidade dos grandes órgãos de imprensa verão sua conduta desafiadora da ordem democrática, para negociar com eles os resultados da monetização da mentira industrialmente produzida nas catacumbas das redes.

A alarmante naturalidade com que a grande imprensa trata a pirataria de Elon Musk contra as democracias do continente, na Bolívia dizendo que seria ótimo um golpe de Estado para que o país possa ser colonizado para entregar seu lítio, no Brasil atacando os poderes da República, o presidente do Supremo e subvertendo a luta política para transformá-la num canil raivoso de protagonistas da direita fascista, ele, Elon Musk, passeia um oceano de delírios como um agente estrangeiro de um Estado sem pátria.

A síntese que Elon Musk representa é a seguinte: seu poder deixado “livre” terá como resultado a implementação de uma soberania de “novo tipo”, cuja ordem normativa será apenas um fluxo digital e comunicacional, combinados numa sequência de redes de empresas – reais e virtuais – em cujos “nós” inteligentes estarão os comandos da nova soberania privada, aceita como se fosse um Estado Nacional invasor que já dominou o território.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios) [https://amzn.to/3ReRb6I]


A Terra é Redonda existe graças
aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Razões para o fim da greve nas Universidade Federaisbancos 16/05/2024 Por TADEU ALENCAR ARRAIS: A nova proposta do Governo Federal anunciada dia 15 de maio merece debate sobre continuar ou não a greve
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • A greve nas universidades e institutos federais não…caminho tempo 17/05/2024 Por GRAÇA DRUCK & LUIZ FILGUEIRAS: As forças de esquerda e democráticas precisam sair da passividade, como que esperando que Lula e o seu governo, bem como o STF resolvam os impasses políticos
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total
  • O cavalo Caramelocavalo caramelo 15/05/2024 Por LEONARDO BOFF: Há que se admitir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • SUS, 36 anos – consolidação e incertezasPaulo Capel Narvai 15/05/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: O SUS não foi o “natimorto” que muitos anteviram. Quase quatro décadas depois, o SUS está institucionalmente consolidado e desenvolveu um notável processo de governança republicana

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES