Fascismo – a velha toupeira capitalista

Imagem: Nejc Soklič
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Por ANDRÉ LEMOS & MÁXIMO MASSON*

A compreensão do fascismo como força estrutural do capitalismo revela como crises econômicas e manipulações psicológicas moldam personalidades autoritárias contra o Estado de direito

1.

Não há dúvidas de que o fascismo é degenerativo para sociedade tanto na perspectiva das estruturas sociais, como para a sociabilidade na perspectiva das virtudes subjetivas humanas. Dado fenômeno, no Brasil, tem sua visibilidade e experiências principalmente em períodos autoritários, não tão aprofundado como nas experiências europeias (ou, de Israel de Benjamin Netanyahu) em forma de Estado fascista, mas avançando no esteio de consecutivas crises políticas-institucionais, desinformação e impunidade.

Que se debelam principalmente em anos eleitorais, das quais é a segunda eleição que no período democrático recente se apresentem dois candidatos, pai e filho, de extrema direita, com discurso e comportamento fascistóide. Onde dada popularidade revela uma sociedade doente, moralmente e politicamente, motivo pelo qual justifica-se tecer algumas notas sobre o fascismo.

Para compreendê-lo, e dialogando com diferentes autores, é necessário analisar os fatores políticos e econômicos que o enredam, pois, em síntese, conforme demonstrado por Nicos Poulantzas (1977), o fascismo não é um evento isolado ou uma “anomalia” em um determinado momento da história. O fascismo está presente politicamente a todo momento, como uma “velha toupeira capitalista”, para um diálogo com a expressão de Luiz Gonzaga Belluzzo (2013).

Com fortes condições de emergir enquanto “sistema” no âmbito do poder, ao buscar coagir o grande capital e tomar de assalto o Estado. Via evolução de governos de extrema direita ou por golpe “revolucionário”, ainda que não tenha um projeto de sociedade. Sendo fomentado, geralmente, em um movimento de massa, invocando o extremismo ideológico ao tempo que neutraliza o debate público ao deslegitimar as representações políticas democráticas e progressistas.

Dessa maneira, é importante compreender o fascismo como um ente do capitalismo, em que as crises políticas e econômicas o favorecem. Uma das referências para tal assertiva é o bloco histórico no entre guerras mundiais, novamente como demonstra Nicos Poulantzas (1977), que a transposição do capitalismo concorrencial para capitalismo monopolista gerou as condições perfeitas para o imperativo do fascismo.

Não sendo, também, algo gratuitamente de caráter cultural, com viés nacionalista, segundo William Reich (1974) antes age sobre os indivíduos uma psicologia das massas à procura da salvação, e que tem como consequência os piores e nefastos modelos de segregação social, a exemplo do “supremacismo”. Possuindo o significado em síntese que o fascismo absorvido pela psicologia das massas “somatório de todas as reações irracionais do homem médio (….) atitude emocional básica do homem oprimido da civilização autoritária da máquina (hoje, na civilização autoritária digital) com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida” (Reich, p.11, 1974).

2.

Neste sentido, a própria terminologia de “nacional-socialismo” utilizado pelo partido de Adolf Hitler é contraditória, e como explicação tem o fato de o fenômeno social do nazismo alemão ter sido antecedido pela Constituição de Weimar, que perdurou entre 1919 e 1933, considerada como uma constituição social pleiteante de garantia de direitos sociais e humanos diante da devastação da Alemanha no período entre guerras mundiais.

Pairava sobre aquela sociedade uma mobilização social com grandes anseios por soluções humanitárias e que acabou sendo utilizada e dominada pelo partido nazista, hitlerista, para a defesa da estatolatria, através do direcionamento daquele paradoxal senso comum circunscrito pela inconformação, desinformação e pelo desespero socioeconômico.

Theodor Adorno (2019), por exemplo, demonstra que a personalidade autoritária se serve de conjunto de elementos que em última instância deslegitimam a política como instituição de solução das questões da sociedade. Através da formatação de um padrão cultural voltado para a distopia política, confinada à burocracia, influenciando indivíduos transtornados com um certo “complexo de usurpação” nas relações sociais e de trabalho, no qual seus objetivos no tempo livre (ou de recreação) se voltam todo para a família, não tendo qualquer perspectiva de mudança social efetiva.

Segundo o autor, um importante agente de coerção seria a mídia hegemônica, se referindo a ela da seguinte maneira: “Esse determinante pode ser chamado de nosso clima geral e, mais particularmente, da influência ideológica da maioria dos meios de comunicação sobre as pessoas para moldar a opinião pública” (Adorno, p.342, 2019).

O formato dessa centralidade do indivíduo na família tradicional levaria a um certo moralismo, ao qual William Reich (1974) discorre sobre o processo da repressão sexual na moldagem do pensamento social (e distinção) e elabora o conceito de “economia sexual”. Para o autor, a coerção pela psicologia de massas autoritária condiciona ao que seria as relações amorosas legítimas, fazendo com que os indivíduos internalizem recalques, num efeito estritamente de restrição cognitiva que se revela de forma emotiva e sentimental.

Demonstra como exemplo de submissão moral, na questão de gênero, o machismo, seja pelo voto, seja por princípios, em determinados contextos históricos, especialmente na Alemanha nazista. E na questão racial, o racismo, o fato de que na ideologia nazista a raça ariana seria a raça originária da humanidade, e por efeito e critério da transmutação do evolucionismo biológico para o social, baseado numa especulação “social darwinista”, seriam superiores, o que justificaria reaver todos os territórios ocupados por outras raças. Assim, o Estado serviria somente ao desejo imperialista, no âmbito territorial, e, para ordem social, no âmbito doméstico.

3.

Como na maioria das reflexões que tratam da psicologia das massas no “estado de fascismo”, em especial as de Reich, a base teórica é a psicanálise proposta por Sigmund Freud, que a partir da obra Psicanálise das massas e análise do eu (publicada em 1921), que teoriza sobre a influência do social, ou dos grupos sociais, no indivíduo. A análise parte das manifestações sociais, mais especificamente, do “comportamento das multidões” em que geralmente o indivíduo é levado a apoiar ou se deixar influenciar acriticamente, vangloriando a autoridade, embasando discursivamente o extremismo e defendendo com eufemismo a força e a violência.

Tal condição comportamental, estaria relacionada à psicologia social, que Freud (2007) chama de “pulsão social”, promovida por uma maioria social de grupo de indivíduos, ou seja, por uma “massa”. Frente a qual o comportamento individual, geralmente frustrado pela repressão sexual, é alterado, se inserindo e sendo sobreposta, por fim, à massa, engajando-se no conservadorismo por serem resistentes ao progresso sociocultural. E num segundo momento o indivíduo passa a se alinhar de modo organizado às ideias de um partido fascista.

Quanto a partidos políticos, de feitio fascista, Caio Bugiato (2022) faz uma síntese do processo de consolidação do partido fascista dialogando teoricamente com Nicos Poulantzas, na qual é possível compilar que a crise política extremada gera uma “força social” de atração da pequena burguesia para aliança com a grande burguesia, frente à classe trabalhadora.

O contexto teria a seguinte evolução: de prevalência de uma das frações da classe dominante no bloco de poder (fração hegemônica); prevalência do capital monopolista; ascensão da polícia política; e perda de autonomia dos aparelhos ideológicos (Poulantzas dialogando com Althusser).

E o partido de massa (fascista) se efetivaria em um processo de pelo menos quatro etapas: na primeira, um partido de massa da pequena burguesia apoiado pelas frações da grande burguesia; na segunda, um partido de massa incorporado das frações da grande e da pequena burguesia; na terceira, um partido fascista em prol da fração burguesa hegemônica no poder; e na quarta, um partido fascista com certa autonomia em relação aos interesses da fração hegemônica, mas os garantindo a longo prazo, sendo a pequena burguesia a detentora do Estado.

4.

De alguma forma o fascismo deixa evidente as tensões e interesses entre classes sociais, bem como, a ausência do pensamento crítico associado a uma visão de mundo mais abrangente pelo indivíduo. Pierre Bourdieu (2008), ajuda a decifrar tais tensões quando destaca o conservadorismo dos valores e princípios da pequena burguesia, e demonstra que há um certo facciosismo nas classes dominantes quanto a relação/posse diferenciada entre capital econômico e capital cultural.

A condição da pequena burguesia da não segurança financeira, simultaneamente, à posição de proprietários os colocaria na posição de valoração “moral” das conquistas materiais individuais numa lógica, segundo Pierre Bourdieu (2008, p. 426), de um “estilo de vida dominante” e “com suas próprias certezas”, porém com ausência do capital cultural, adquirindo posições reacionárias no âmbito cultural e conservadores no âmbito político.

Ou seja, em síntese, liberais na economia e conservadores nos costumes. O autor demonstra, ainda, a “classificação da realidade” através do senso comum (incluindo valores autoritários), pelas camadas populares, fomentado dentre outras instituições, do Estado, especialmente no sistema de ensino enquanto indutor do comportamento via “conformismo lógico” (Pierre Bourdieu dialogando com Émile Durkheim). E que está dialeticamente relacionada à subalternidade da classe trabalhadora, ou, ao “chocar do ovo da serpente” (Barbosa, 2022).

No Brasil, a eleições para presidência, para governos de estados e para o parlamento federal se aproximam e as pesquisas reforçam a tendência definitiva da extrema direita como opção predominante da fração política conservadora. Dada opção, atraente para as frações da direita (não extremadas), revela o caminho com maiores chances, e oportuno para a disputa do poder.

Enquanto, noutro plano, para a extrema direita representa a possibilidade de eleger alguém com princípios fascistóides, e tosco o suficiente para burlar e atropelar quaisquer leis e instituições democráticas. Entre outras intenções, a de amenizar e/ou retirar a punibilidade dos golpistas do 8 de janeiro – os inconformados com a derrota eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) nas urnas.

Dada a situação, e mais explicitamente desde 2016, vem se demonstrando que o modelo de fazer política da extrema direita brasileira busca suplantar o Estado democrático de direito, com o incremento de subestimar a inteligência brasileira. Para isso, apostam e alimentam um senso comum com a desinformação, que se acentuam nas eleições. E acabam por produzir, somado ao fato do endividamento da população, o ato subliminar do compromisso do voto conservador com a intransigência antiética e da impunidade, servindo a esse eleitor como um subterfúgio à própria ignorância, fazendo do arremedo o desejo pela sublevação ou retroalimentação de um “mito” salvador.

Porém, e que serve de otimismo, é que a aposta na ignorância contrasta com inteligência das práticas sociais que produzem conhecimento. Na pandemia do Covid-19, dado fenômeno social ficou evidente, dando a vitória eleitoral em 2022 para o conhecimento (para a cultura, para a ciência e para a vida).

Pois, para além do importante papel das instituições democráticas, a população percebeu a necessidade da prevenção e da ação coletiva como meio de salvaguardar não somente a própria vida, mas também a do próximo. Incorporando direta ou indiretamente uma posição política de consciência humanitária (e cidadã), ao tempo que identificou as vulnerabilidades sociais, mas também sua própria força popular. A doxa (enquanto crença popular) nunca foi tão proeminente para o extremismo, que isso se revele para a defesa da vida democrática.

*André Lemos é sociólogo e mestre em educação.

*Máximo Masson é professor titular de sociologia da educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Referências


Adorno, T. Estudos sobre a Personalidade Autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

Barbosa, J. Bolsonarismo, mitos e mitologias políticas: direita radical e apologia à intervenção militar. In: BARBOSA, J; HERNÁNDEZ, O. (orgs). Extremismos políticos e direitas: Bolsonaro, Trump e a crise das “democracias. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2022.

Belluzzo, L. A crise e o subterrâneo da “velha toupeira capitalista”. In: Barroso, A; Souza, R. (orgs). A Grande Crise Capitalista Global 2007-2013: Gênero, Conexões e Tendências. Aloísio Sérgio Barroso e Renildo Souza (orgs.). São Paulo: Editora Maurício Grabois, 2013. 

Bourdieu, P. A Distinção: Crítica Social do Julgamento. São Paulo: Edusp; Porto. Alegre: Zouk, 2008.

Bugiato, C. Para entender o neofascismo no Brasil: um ensaio a partir das contribuições de Nicos Poulantzas. In: BARBOSA, J; HERNÁNDEZ, O. (orgs). Extremismos políticos e direitas: Bolsonaro, Trump e a crise das “democracias”. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2022. p. 167-180.

Freud, S. Psicologia de las Masasy Analisis del Yo. In: S. Freud, Obras Escogidas, Tomo 3. Vários Tradutores. Editores Madrid: Biblioteca Nueva, 2007.

Poulantzas, N. Fascismo y Dictadura. México: Siglo XXI, 1977.

Reich, W. Psicologia de Massas do Fascismo. Tradução de J. Silva Dias. Porto: Publicações Escorpião, 1974.

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