Faz escuro

Imagem: Joshua Santos
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Por BRUCE E. LEVINE*

Três temas entrelaçados: uma sociedade doente, os adoradores de Donald Trump e o triângulo dramático

Em 3 de março de 2024, a pesquisa The New York Times/Siena informou: “Donald Trump lidera em relação a Joe Biden; obteve 48% a 43% entre os eleitores registrados”. Alguns milhões de americanos estão horrorizados com o fato de que outros milhões de americanos estão prontos para eleger como presidente não apenas um canalha, mas um canalha que não disfarça a sua canalhice.

Eis, pois, que uma pergunta apavorada sobrevém: o que será necessário para que os apoiadores de Donald Trump finalmente fiquem horrorizados com ele? Quanto de fraude financeira? Quanto de interferência eleitoral? Quanta incitação a novas insurreições? Quantas obstruções da Justiça? Quantos furtos mais de documentos de defesa nacional? Quantas empreiteiras mais entrarão em falências? Quantas agressões sexuais? Quantos comentários sobre “agarrar na xoxota”?

Em 2016, Donald Trump reconheceu que seus fiéis não se incomodam com seus crimes legais e com os seus deslizes morais, dizendo de modo lampeiro: “Eu poderia estar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém e, mesmo assim, não perderia nenhum eleitor, ok? Isso é incrível, não é?”

Entre os milhões de americanos que estão horrorizados com Donald Trump e com os seus apoiadores encantados, apenas uma pequena minoria está horrorizada com a sociedade que os criou.

Erich Fromm –uma sociedade doente

Como uma sociedade ficou doente o suficiente para criar um Donald Trump, assim como os seus adoradores?

O psicanalista e psicólogo social Erich Fromm em Escape from Freedom, publicado em 1941, procurou explicar a disseminação do fascismo e do autoritarismo, focando a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco e a União Soviética de Stalin. Erich Fromm concluiu que a liberdade em relação às instituições medievais e seus laços tradicionais, “embora dê ao indivíduo um novo sentimento de independência, ao mesmo tempo o faz se sentir sozinho e isolado no meio social; e essa condição o enche de dúvida e ansiedade, as quais o levam a uma nova forma de submissão, assim como a um comportamento compulsivo e irracional”.

Tais atividades compulsivas e irracionais incluem fugas variadas ao estar verdadeiramente vivo e a formar laços amorosos. Um tipo de fuga consiste na submissão a pessoas autoritárias tais como Hitler, Mussolini, Franco, Stalin (mas também a Putin, Trump etc.). Os seres humanos também se desviam, observou Fromm, para a destrutividade e a conformidade, seja como trabalhador autômato seja como consumidor submisso a uma sociedade materialista. Enquanto há adoradores no time vermelho de Trump, há também adoradores no time azul da Apple – e todos eles estão fugindo da liberdade, escapando para atividades compulsivas e irracionais que os tornam pessoas desalmadas, sem amor para dar, enlouquecidos e mortificados.

Alienados em suas vidas profissionais, pouco comprometidos com as suas não-comunidades, os americanos também estão cada vez mais afastados de suas instituições sociais, nas quais a grande maioria não confia. Uma pesquisa Gallup 2023 relatou que apenas uma minoria dos habitantes dos Estados Unidos tem confiança na polícia (43%), no sistema médico (34%), nos bancos (26%), nas escolas públicas (26%), nos jornais (18%), no sistema de justiça criminal (17%), nos telejornais (14%), nas grandes empresas (14%) e nos três ramos do governo dos EUA: a Suprema Corte (27%), a presidência (26%) e o Congresso (8%).

O termo alienação, lembra Erich Fromm em seu livro de 1955, The Sane Society, já foi usado no passado para designar uma pessoa louca, mas agora o seu uso é mais extenso, já que – afirma – “essa alienação e automatização têm levado a uma insanidade cada vez maior. A vida não tem sentido, não há alegria, não há fé, não há realidade. Todo mundo parece ‘feliz’, só que não se sente assim, não raciocina com essa perspectiva, não ama aos outros”.

Erich Fromm era um socialista democrático que, em The Sane Society, criticava duramente tanto o capitalismo ocidental quanto a abastardamento do comunismo na União Soviética então existente: “ambos são completamente materialistas vulgares em suas perspectivas… não formam mais do que engrenagens de uma máquina que tem de funcionar bem.”

Se uma sociedade se organiza apenas em torno do capital e da acumulação de bens materiais – em outras palavras, se cultiva a merda – não surpreende que possa ser um ambiente tóxico, insalubre, que cria famílias doentes. Ou é assim ou a família se rebela contra tal ambiente. O termo profissional e mais educado para essa merda toda é disfuncional. À medida que uma família se torna disfuncional, ela existirá sem amor. Na ausência de vínculos amorosos, subsistem apenas os vínculos transacionais nos quais os membros da família satisfazem narcisisticamente as suas necessidades de atenção, segurança e de poder por meio da objetificação e da manipulação mútuas.

O triângulo dramático de Karpman

Cinquenta anos atrás, havia psiquiatras líderes que se concentravam nessas objetificações e manipulações mútuas disfuncionais. Hoje, essa informação pode surpreender os jovens pensadores críticos, pois o que apenas veem são psiquiatras que se pensam como pessoas proeminentes, mas que atuam como prostitutas de empresas farmacêuticas. Eis que jorra de suas bocas teorias pseudocientíficas sobre doenças mentais, as quais visam manter o status quo social. Para isso, eles atribuem o sofrimento emocional e os distúrbios comportamentais a defeitos biológico-químicos inexistentes nos próprios indivíduos, em vez de julgá-los como males sociais a serem desafiados.

Cinquenta anos atrás, havia psiquiatras bem conhecidos – incluindo Eric Berne, Murray Bowen, Nathan Ackerman, Salvador Minuchin, Don Jackson e Stephen Karpman – que observavam interações e transações em famílias e em outros grupos, distinguindo entre os laços narcísicos e os laços amorosos.

O triângulo dramático, descrito por Stephen Karpman em 1968, retrata um drama interacional destrutivo que ocorre em famílias disfuncionais e em outros grupos em que falta o amor mútuo. Os “atores” do triângulo dramático desempenham diferentes papéis, mas são todos narcisistas comprometidos com a objetificação e manipulação dos outros, tendo como objetivo satisfazer egoisticamente as suas necessidades.

Os atores desempenham três papéis diferentes: o perseguidor, a vítima e o socorrista; contudo, as suas vidas egoístas estão encobertas ou se mostram ostensivas. A mesma pessoa pode assumir um papel diferente quando as suas necessidades não são atendidas. Assim, por exemplo, as vítimas e os socorristas que não conseguem ter suas necessidades atendidas rotineiramente mudam e se tornam perseguidores.

O gênio perverso de Donald Trump – semelhante ao gênio perverso de Hitler – consiste em que ele pode projetar dramaticamente todos esses três papéis doentios rotativamente. E isso atua de modo magnético para o indivíduo danificado que está preso num desses papéis e aspirando um outro. Para esse indivíduo, esse drama não é visto como drama, mas como realidade – uma realidade na qual a objetificação e a manipulação são as únicas maneiras de obter atendimento às suas necessidades.

O papel de perseguidor: o agressor neste drama às vezes é chamado de vilão ou de valentão. Quando as coisas dão errado para si ou para os outros, o perseguidor gosta de culpar e humilhar os outros por sua inutilidade, estupidez e fraqueza. Os perseguidores não se responsabilizam por nada de ruim que aconteça com eles mesmos ou com os outros. Deixam claro que as opiniões dos outros não valem nada, pois só eles sabem quem é o culpado e por que esse outro é culpado.

Os perseguidores satisfazem suas necessidades de poder escolhendo sempre uma vítima patética na qual batem ou da qual usufruem. Na prática clínica, um papel estereotipado de perseguidor pode ser desempenhado por pais ou cônjuges de dependentes químicos destrutivos/autodestrutivos; o perseguidor mantém um vínculo com essa vítima sustentando o abuso de substâncias, mas também lhe causando humilhação.

Vê-se regularmente como Donald Trump aprecia o papel de perseguidor seja xingando os seus oponentes seja atacando qualquer um que vacile em manter total lealdade a ele. Ao desfrutar descaradamente desse papel de perseguidor, ele se conecta magneticamente com milhões de americanos que têm vergonha de seu papel de vítima e anseiam por serem perseguidores, mesmo se também têm vergonha desse papel.

O papel de vítima: as pessoas vítimas exigem de modo manipulativo – agressiva e/ou passivamente-agressivamente – o resgate dos outros. O objetivo das vítimas é convencer os outros do tratamento injusto recebido por parte do mundo, incluindo-se aí a família e a sociedade. Eis que estas últimas são culpadas por sua miséria e por seus fracassos. As vítimas não assumem nenhuma responsabilidade por suas vidas e pressionam outras pessoas a resgatá-las, rotineiramente tentando culpar os outros. Na prática clínica, um papel de vítima estereotipado é desempenhado por usuários de substâncias tóxicas. Elas atribuem os seus comportamentos destrutivos e autodestrutivos às perseguições que sofrem do mundo; por isso, tentam manipular os outros para que venham resgatá-los.

Donald Trump se põe na posição de vítima de muitas maneiras – grita que uma eleição lhe foi roubada e que, agora, um sistema de justiça injusto quer tirá-lo do jogo. Ao desempenhar descaradamente esse papel, ele se conecta magneticamente com milhões de americanos que têm vergonha de seu papel de vítima.

As motivações egoístas do socorrista são mais encobertas do que os outros participantes do drama, mas o socorrista é tão narcisista quanto o perseguidor e a vítima. Os socorristas – ao contrário dos treinadores ou professores carinhosos e amorosos – não estão verdadeiramente comprometidos em ajudar outras pessoas. Na verdade, os socorristas estereotipados precisam que as vítimas dependam deles para que as suas necessidades de controle e de atenção sejam acolhidas.

Os socorristas também atendem às suas necessidades de status quando são vistos como heróis. Ora, isso fornece ao socorrista uma identificação de salvador, tornando-o profundamente dependente de uma vítima indefesa para que possa obter essa identidade. Na prática clínica, um papel estereotipado de socorrista também é desempenhado por pais ou cônjuges de dependentes químicos destrutivos/autodestrutivos. Pois, tais socorristas permitem que essas vítimas permaneçam nesse papel, mantendo-as financeira e psicologicamente dependentes delas.

Donald Trump também aprecia o papel de salvador e herói: ele promete “tornar a América grande novamente”. Assim, manda construir um muro imenso para salvar os Estados Unidos dos invasores latinos; fala duro com os maus chineses que roubam os empregos dos norte-americanos; ademais, afirma peremptoriamente que vai salvar os americanos reais dos temidos liberais. Ao desempenhar descaradamente o papel de salvador da pátria, Donald Trump se conecta magneticamente com vítimas que anseiam desesperadamente por se tornar também um herói salvador.

O talento perverso de Donald Trump consiste – é preciso repetir – em projetar simultaneamente os papéis de perseguidor, de vítima e de salvador – a trindade profana que ocorre em famílias e sociedades disfuncionais e sem amor. A personificação descarada de Donald Trump dessa trindade profana e sua objetificação e manipulação descaradas dos outros o tornam irresistível para aqueles envergonhados em sua própria escuridão.

A grande sorte de Donald Trump é aparecer em cena quando a sociedade americana se tornou tão doente que interpretar tais papéis do “triângulo dramático” não implica numa perda de status social. Na década de 1960, a sociedade americana estava doente o suficiente para eleger presidentes mentirosos, Lyndon Johnson e Richard Nixon; no entanto, naquele momento ainda a sociedade americana não estava tão doente a ponto de adorar vítimas e perseguidores.

Assim, após a derrota presidencial, em 1960, Richard Nixon passou a acreditar que uma vitória eleitoral lhe tinha sido roubada (uma crença semelhante àquela de Donald Trump, a qual tinha naquele momento pelo menos alguma justificação). Contudo, ele expressou a sua vitimização apenas em privado, sabendo muito bem que a vitimização pública naquela esta época iria acabar com a sua carreira política.

O ator Richard Nixon só iria se apresentar frontalmente como vítima quando passou a acreditar que a sua carreira política havia acabado e que não tinha mais nada a perder. Ora, isso ocorreu quando ele perdeu a eleição, em 1962, para governador da Califórnia. Então, numa entrevista coletiva, ele comentou de modo famoso: “agora, vocês não têm mais um Nixon para chutar; porque, senhores, esta é a minha última conferência de imprensa.” Em 1962, a performance de vítima de Richard Nixon foi vista por grande parte do público como patética, ignóbil e desumana. No entanto, desde então, os tempos mudaram claramente.

Quer que fique ainda mais escuro?

Em outubro de 2016, pouco antes da morte do cantor e compositor Leonard Cohen e da eleição de Donald Trump como presidente, foi lançado o seu álbum You Want It Darker. Sob o título do álbum, You Want It Darker, Leonard começa assim a sua música:

Se você é o traficante, eu estou fora do jogo.
Se você é o curandeiro, isso significa que eu estou quebrado e coxo.
Se você é a glória, então a minha deve ser a vergonha
Se quer que fique mais escuro,
Apagaremos a chama

Se tudo parece mais escuro agora, talvez seja porque eu fui muito exagerado, talvez, também, porque eu perdi os bons modos. Veja-se, porém: em The Mass Psychology of Trumpism, o psicólogo social Dan P. McAdams, autor de The Strange Case of Donald J. Trump (2020), afirmou sem medo: “o meu argumento, por mais estranho que possa parecer, é que a atração duradoura exercida por Donald Trump em amplas massas decorre da percepção – que é dele, mas também dos seus seguidores – de que ele não é bem uma pessoa”.

Por que será que uma pessoa real – um ser humano capaz de relacionamentos amorosos – deixa agora muitos americanos desconfortáveis? Será que isso ocorre porque a sociedade americana se tornou mais desumana? Será que isso aparece como possível porque agora ela está fortemente regida por objetificações e por manipulações? Será por essa razão que um número crescente de americanos se sente agora obrigado a adorar uma não-pessoa?

Dan McAdams nos lembra que arquétipo mutante “vítima-perseguidor-socorrista” se encontra em Satanás, conhecido como uma personagem mitológica que é capaz de manipular pessoas a tal ponto que elas passam a adorá-lo: “Um narcisismo maligno grassa no âmago da personalidade de Satanás. Expulso do céu por causa de seu orgulho dominador, Satanás quer ser Deus. Ele se ressente-se do fato de que ele não é Deus. Insiste, por isso, que o seu valor supremo lhe dá direito a privilégios que ninguém mais deveria desfrutar, ao mesmo tempo em que sustenta o seu reinado como soberano do mundo mortal. Totalmente egocêntrico, cruel, vingativo e desprovido de compaixão e empatia, Satanás, no entanto, possui um carisma e um charme muito substanciais. Completamente contratual em sua abordagem das relações interpessoais, ele aperfeiçoou a arte do negócio. No Evangelho de Lucas, Satanás tenta atrair Jesus para o séquito de seus aduladores oferecendo-lhe poderes e riquezas terrenos: “se tu me adorares, tudo será teu”.

A representação de Satanás feita por Dan McAdams tem outra estranha semelhança com Donald Trump: “Ele não se sente perturbado por uma vida interior complexa, por dúvidas, ambivalências e dilemas morais, os quais rotineiramente atravessam a consciência de humanos maduros”. Todos aqueles, que se sentem envergonhado por terem humanidade, consideram que é “fraqueza” levar a sério a fidelidade conjugal, a amizade, a civilidade e a decência humana. Assim, Donald Trump, que se irrita com essas “fraquezas”, pode ser adorado pelos envergonhados.

Donald Trump se vê como diferente de outros humanos, ressalta Dan McAdams: “Comparou-se muitas vezes com um super-herói. Descreveu-se como um ‘gênio estável’ que nunca cometeu um erro.” A crença de Donald Trump sobre si mesmo é também a crença que os seus adoradores lhe devotam. Eis que veem o triângulo dramático como a essência da própria vida porque o vivem cotidianamente. Por isso, se veem sempre como vítimas que precisam de um perseguidor/salvador, super-herói como tal, para salvá-los.

Escapando do triângulo dramático

Os psicoterapeutas atendem rotineiramente clientes que relatam depressão, ansiedade, abuso de substâncias e outros sofrimentos emocionais, assim como distúrbios comportamentais; não todos, mas muitos desses clientes cresceram em uma família em que impera o triângulo dramático apresentado. Talvez, eles tenham entrado ingenuamente neste drama por meio de um relacionamento abusivo. Os terapeutas conscienciosos veem o sofrimento emocional e os distúrbios comportamentais de tais clientes não como “sintomas” de “doenças mentais” que lhes são inatas, mas como alertas para a realidade de que estão sendo ameaçados pela participação em um drama doentio.

A terapia boa, socialmente útil, começa com o cliente ganhando consciência sobre o seu papel e dos outros neste drama. A terapia permite então que o cliente ganhe força para sair fora desse jogo doentio. É útil para alguns clientes descobrir que há alternativas para os papéis “para cima” e “para baixo” inerentes ao triângulo dramático. Uma dessas alternativas é a dinâmica do empoderamento criada por David Emerald.

Na alternativa do empoderamento amoroso desse autor, em vez de desempenhar o papel de vítima, o paciente é encorajado a se tornar um criador (ou um solucionador de problemas). Ou seja, alguém que vê os desafios da vida como problemas que movem o aprendizado e que levam a descoberta de soluções – a regra maior diz que é preciso se concentrar na busca de soluções.

A alternativa ao perseguidor é o desafiante (ou contador da verdade) que, em vez de intimidar e humilhar, amorosamente facilita que os outros vejam as realidades cruciais. E o socorrista é encorajado a se tornar um professor que, em vez de permitir a dependência de uma vítima, enxerga os outros como seres capazes de resolver seus próprios problemas, ajudando-os por meio de perguntas em vez de sermões para examinar metas e se concentrar nas consequências de suas escolhas.

No entanto, se um cliente aparece e ele está envolvido num dado triângulo dramático – por exemplo, na condição de vítima – é preciso que o terapeuta seja bem talentoso. Mas ele não poderá assumir também as condições alternativas dessa doença, ou seja, ele não pode se tornar um perseguidor ou um socorrista. Eis que se permanece doente quando se escolhe quaisquer dos três papeis no triângulo dramático.

É difícil prever o que vai acontecer na sociedade norte-americana. Como foi observado no início desse artigo, apenas uma pequena minoria daqueles milhões de americanos, os quais estão horrorizados com Donald Trump e com os seus adoradores, reconhecem isso como sintomas de uma sociedade doente. Apenas uma pequena minoria vê que a crescente alienação e automatização na sociedade norte-americana, nas palavras de Erich Fromm, “leva a uma insanidade cada vez maior”. São poucos os que veem que “a vida assim não tem sentido”, que não há alegria, que não há fé, que não há uma boa realidade. Todo mundo parece ‘feliz’, só que não sente, não raciocina, não ama”.

Sociedades insanas, desprovidas de razão e amor, submetem-se aos autoritários e aos seus capangas, os quais podem ser bastante inteligentes. Porém, mesmo se são obtusos, eles podem ser mais ou menos capazes de causar grandes estragos. No passado, os americanos, pelo menos em relação aos europeus, tiveram relativamente mais sorte nesse sentido. Mas é insano acreditar que essa sorte vai durar para sempre.

*Bruce E. Levine é psicólogo clínico. Autor, entre outros livros, de A profession without reason: the crisis of contemporary psychiatry (AK Press).

Tradução: Eleutério F. s. Prado.

Publicado originalmente no portal Counterpunch.


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