Força eleitoral

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Por IGOR FELIPPE SANTOS*

Lula supera perseguição e se consagra ao derrotar “vale tudo” de Jair Bolsonaro

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em uma disputa encarniçada contra o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) é a vitória mais importante das forças populares na última década. Depois da brutal ofensiva da direita para destruir a esquerda e implementar um programa ultraneoliberal, Lula voltará à presidência com uma ampla e heterogênea aliança.

O resultado das eleições consagra a força eleitoral e a profunda identidade com o povo brasileiro de Lula. Somente a maior liderança popular da história do Brasil poderia vencer essa disputa. Depois de toda a difamação moral, da perseguição política, midiática e judicial, do encarceramento injusto por 580 dias, ele unificou as forças populares, resgatou a confiança da militância, contagiou a sociedade e construiu uma ampla aliança nacional.

A militância teve um papel fundamental para a vitória, com ações de agitação, trabalho de base e mobilização, especialmente nos comícios e caminhadas com o Lula. Os comitês populares, construídos antes mesmo das eleições, tiveram o papel importante de desenhar uma estrutura organizativa e consolidar um calendário de ações de agitação política, que movimentaram a militância em torno da eleição do Lula. Na abertura do período eleitoral, o processo político se intensificou e ganhou uma dinâmica em torno da campanha dos candidatos a deputado. No segundo turno, apesar da votação expressiva de Jair Bolsonaro, contagiou toda a sociedade que se envolveu de diversas formas para eleger Lula.

Jair Bolsonaro levou ao máximo que pôde, ainda que de forma ilegal, o uso do dinheiro público e das mentiras como método de manipulação em uma eleição que transcorreu sob condições bastante desiguais. A escala da utilização da máquina pública se deu de forma inédita em uma disputa presidencial. O uso das finanças nacionais via as emendas secretas destinaram R$ 44 bilhões neste ano, que irrigaram prefeituras e empresas fantasmas no Nordeste que financiaram a campanha em todo o país. Somente na “parcela” liberada em setembro, nas vésperas das eleições, R$ 3,5 bi foram para as mãos de parlamentares aliados do atual presidente. A ampliação eleitoreira do Auxílio Brasil, com o aumento da base de beneficiados e do valor dos pagamentos, distribuiu R$ 35 bilhões para manipular o resultado.

A profunda luta político-ideológica imposta pela corrente bolsonarista fez uma escalada de mentiras (as chamadas fake news) nas redes sociais e nos programas de rádio e TV, manejando uma agenda ultraconservadora. Há indícios de que essas ações tiveram a assessoria estrangeira de Steve Bannon, com recursos externos para o pagamento de anúncios no Google, YouTube e Facebook. O presidente do TSE, Alexandre de Moraes, ministro do STF, atuou para coibir o “gabinete do ódio”. Articulou restrições com as plataformas, derrubou canais, páginas, grupos e perfis que espalhavam fake news e chamou Carlos Bolsonaro, o responsável pela articulação de redes do presidente, para prestar depoimento. Mesmo assim, não acabou com o problema das fake news, que encontrou terreno fértil no conservadorismo brasileiro.

Muitos pastores pentecostais e padres conservadores transformaram seus púlpitos em comitês eleitorais de Jair Bolsonaro. Fizeram pregações fantasiosas contra o comunismo, em nome de Deus, da família e da propriedade. Além disso, explodiram as denúncias de assédio eleitoral de patrões para chantagear trabalhadores. Foram 2.556 denúncias neste ano, 12 vezes superior ao registrado em 2018. Quase 2 mil empresas foram denunciadas, a maioria na região Sudeste, sobretudo em Minas Gerais.

Lula construiu uma ampla aliança desde o primeiro turno. Unificou o campo da esquerda, atraiu a centro e incidiu sobre franjas da direita. Levou para a campanha artistas, intelectuais, esportistas e personalidades, que fizeram um esforço para encerrar a disputa na primeira rodada. No segundo turno, congregou a maior parte do campo de oposição a Jair Bolsonaro, construindo a maior aliança política, em torno da luta democrática. Assim, incidiu em frações da burguesia, expressa na adesão dos velhos caciques tucanos e dos criadores do Plano Real.

O segundo turno da eleição foi decidido nos detalhes, em uma disputa que terminou com uma diferença de um pouco mais de 2 milhões de votos. O embate, em certa medida, aconteceu às cegas, com o descrédito das pesquisas de opinião depois do primeiro turno. Os ataques das campanhas de ambos os lados baixaram muito o nível, inclusive no horário eleitoral na TV e no rádio. Com a tática do “bateu levou”, a campanha do Lula saiu da passividade e obrigou o bolsonarismo a se defender. Na reta final, o desgaste do “pintou um clima” com menores de idade, dos tiros e granadas jogados por Roberto Jefferson contra policiais federais e, especialmente, das declarações de Paulo Guedes sobre questões econômicas pode ter sido decisivo.

A “questão meridional” brasileira se expressou na larga vantagem de 12 milhões de Lula no Nordeste. Nas outras regiões, Bolsonaro venceu, com diferença mais expressiva no Sul e no Centro-oeste. Dos votos agregados pelo petista no segundo turno, 60% (1,75 milhão) foram conquistados no Sudeste, que foi a região onde Bolsonaro mais encolheu em comparação à eleição de 2018.

Nas eleições para os governos estaduais, a vitória de Tarcísio de Freitas (PR), ministro de Bolsonaro, demonstrou a força do conservadorismo no interior de São Paulo, um contraponto à trincheira progressista na capital e na região metropolitana, que deu maioria a Lula e Haddad. Na Bahia, o petista Jerônimo Rodrigues venceu em uma dura disputa com ACM Neto. No Rio Grande do Sul, em Pernambuco e no Mato Grosso do Sul, o PSDB elegeu governadores e ganhou uma sobrevida depois de minguar na eleição para o Congresso Nacional.

A vitória de Lula representa uma mudança na correlação de forças na institucionalidade. A retomada do governo confere ao presidente instrumentos para reorganizar o quadro político e articular segmentos econômicos para construir uma força político-social para avançar com um projeto de mudanças sociais. No entanto, o governo enfrentará uma oposição radical sob liderança da extrema-direita. Com disposição de fazer mobilizações de rua, como demonstram os bloqueios nas estradas depois das eleições, a corrente bolsonarista se consolida no campo da direita com os 58 milhões de votos obtidos por Bolsonaro.

A implementação de um programa de emergência para resolver os graves problemas do povo e o debate de um novo projeto de país dependerá, sobretudo, da capacidade de organização popular e luta da classe trabalhadora e da consolidação de instrumentos para enfrentar a intensa luta ideológica. Assim, avançar na implementação de um programa capaz de unificar setores e concentrar força política e social para fazer as mudanças na política e na economia.

*Igor Felippe Santos é jornalista e ativista de movimentos sociais. É apresentador do podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato.

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