Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
A universidade pública latino-americana não é instituição atrasada, mas síntese da forma histórica da dependência. Nela, a dualidade entre excelência seletiva e precariedade massiva não é falha, mas engrenagem de reprodução
1.
A episteme da modernidade dependente constitui um esforço teórico destinado a compreender a produção do conhecimento nas sociedades marcadas por inserção subordinada no capitalismo mundial e por instabilidade estrutural de suas instituições. Seu ponto de partida não é a denúncia conjuntural nem a constatação econômica isolada. Ela nasce da percepção de que a dependência atravessa o próprio regime de temporalidade dessas formações sociais.
Produzir conhecimento, nesse contexto, não significa apenas investigar objetos específicos. Significa sustentar as condições históricas que tornam possível a própria investigação.
A tradição marxiana oferece o fundamento ontológico dessa formulação ao afirmar que o conhecimento não se desenvolve fora da prática social. A consciência não antecede a vida material; emerge das relações concretas de produção e reprodução da existência. As categorias teóricas não são universais abstratos, mas expressões históricas de formas sociais determinadas.
A partir desse princípio, a episteme da modernidade dependente reconhece que a ciência produzida na periferia não pode ser compreendida como simples aplicação de teorias elaboradas no centro. Ela é produzida sob condições históricas próprias, e essas condições moldam seu ritmo, sua institucionalidade e suas possibilidades de continuidade.
O princípio da totalidade reforça esse deslocamento metodológico. A universidade não pode ser analisada isoladamente do Estado, nem o Estado isoladamente da economia, nem a economia isoladamente do regime financeiro internacional. Todos esses momentos compõem uma mesma forma histórica. A dependência não é setor da realidade. É modo de organização da totalidade social.
Quando a universidade sofre instabilidade orçamentária, quando a política científica é interrompida, quando programas de formação são reformulados antes de amadurecer, não se trata de acidentes administrativos. Trata-se de manifestações coerentes de uma forma histórica cuja lógica precisa ser reconhecida.
A teoria marxista da dependência realizou deslocamento decisivo ao demonstrar que o subdesenvolvimento não é etapa anterior ao desenvolvimento, mas resultado estrutural da expansão do capitalismo mundial. A periferia não está fora do sistema; está integrada de maneira subordinada. Transferência de valor, superexploração do trabalho, vulnerabilidade externa e limitação tecnológica não constituem falhas transitórias, mas engrenagens de reprodução estrutural.
Esse diagnóstico altera profundamente a compreensão da modernização latino-americana. Crescimento econômico pode ocorrer. Industrialização pode avançar. Universidades podem expandir-se. E ainda assim a dependência permanecer.
2.
A razão dualista explicita a forma interna dessa modernização seletiva. Excelência restrita e precariedade massiva coexistem como partes de um mesmo mecanismo. Centros de pesquisa sofisticados convivem com instituições fragilizadas. Programas de alto desempenho coexistem com precarização docente e instabilidade contratual. Não há incoerência nisso. Há coerência estrutural.
O deslocamento decisivo ocorre quando a financeirização global altera o regime temporal da modernidade. A crise deixa de ser interrupção eventual e torna-se método permanente de gestão. O capital fictício antecipa rendas futuras, transforma expectativas em ativos e reorganiza o presente sob lógica de curto prazo. O planejamento estatal encurta. Políticas públicas passam a ser avaliadas por ciclos cada vez menores. A continuidade institucional torna-se frágil.
Nesse contexto, a dependência manifesta-se como experiência histórica do tempo bloqueado. O futuro não desaparece, mas torna-se escasso. Ele precisa ser disputado, administrado e constantemente reconstruído.
A universidade constitui espaço privilegiado onde essa transformação se torna visível. A produção científica exige duração, transmissão intergeracional, memória institucional e financiamento estável. Quando essas condições se fragilizam, a prática científica é atravessada por reinícios permanentes. Projetos são reformulados antes de consolidar resultados. Linhas de pesquisa adaptam-se a editais sucessivos. Pesquisadores dedicam parte crescente de seu tempo à reconstrução das próprias condições que tornam possível sua investigação.
A dependência revela, então, sua dimensão epistemológica. Não se trata apenas de posição na divisão internacional do trabalho, mas de inserção desigual nos circuitos globais de validação do conhecimento. Revistas, indexadores, rankings e métricas organizam hierarquias duráveis entre centros de formulação conceitual e periferias de aplicação empírica. Surge a dupla alienação do pesquisador periférico: distanciado parcialmente de sua realidade social e integrado de forma incompleta ao circuito científico global.
A episteme da modernidade dependente propõe, portanto, deslocamento fundamental: antes de perguntar o que conhecemos, é preciso perguntar sob quais condições históricas se torna possível conhecer.
A universidade, nesse cenário, não é vítima lateral. É síntese da forma histórica que a produz.
3.
Durante décadas afirmou-se que a universidade latino-americana era atrasada ou ineficiente. Diagnóstico confortável. Sempre é mais fácil acusar a superfície do que interrogar a estrutura. Mas a universidade não é desvio do desenvolvimento. É expressão institucional da modernidade dependente.
Ela exige duração. Precisa de gerações que se sobreponham, de memória institucional, de projetos que não sejam interrompidos a cada ciclo fiscal. Isso supõe sociedade capaz de sustentar continuidade. E a modernidade dependente raramente conseguiu garantir duração como regra. Garantiu episódios.
Cada plano nacional surge como refundação. Cada política científica é anunciada como reinício. Cada crise é tratada como exceção. Emergência permanente. Essa é a gramática.
O fundo público, nas sociedades dependentes, é constantemente tensionado sob a sombra da dívida. A dívida não é apenas instrumento financeiro; é dispositivo disciplinador. Ela reorganiza prioridades e subordina políticas sociais à rentabilidade do capital. A universidade entra na conta.
Quando o capital fictício transforma expectativa futura em ativo negociável, reorganiza-se a própria ideia de formação. O estudante deixa de ser apenas sujeito histórico em processo e torna-se portador de fluxo financeiro projetado. O diploma converte-se em promessa de renda antecipada.
Nesse contexto, a expansão do ensino superior não é automaticamente democratização substantiva. Pode ser ampliação da base de endividamento. Pode ser universalização do risco. Pode ser socialização da precariedade sob retórica de inclusão.
Excelência seletiva e precariedade massiva reaparecem como estrutura. Laboratórios de ponta convivem com contratos temporários. Rankings celebram desempenho enquanto bolsas intermitentes sustentam o cotidiano. A vitrine funciona. O entorno sustenta.
E, no entanto, é ali que ainda se produz teoria.
A universidade torna-se último lugar da crítica não por pureza moral, mas porque ainda preserva vestígios de duração em sociedades marcadas pela compressão temporal. A política tornou-se episódica. A economia tornou-se volátil. O debate público tornou-se instantâneo. O tempo fragmentou-se.
Restou à universidade sustentar continuidade relativa.
Mas essa permanência é frágil. A crítica não é protegida por abstração moral. Depende de financiamento, estabilidade institucional e condições materiais. Quando o fundo público é comprimido, a crítica não desaparece por censura direta. Desaparece por asfixia lenta.
4.
A modernidade dependente não elimina a universidade. Ela a reorganiza sob regime de tensão permanente. Precisa dela como vitrine de excelência e como instrumento de legitimação internacional, mas não necessita garantir sua estabilidade plena. Precisa mantê-la funcionalmente instável.
A dependência não opera apenas na balança comercial. Opera na balança temporal. Sociedades centrais podem errar e recalibrar. Podem sustentar continuidade institucional por décadas. Nas periferias, cada ciclo começa como se fosse inaugural. Reinício permanente. Esse é o bloqueio do tempo.
Lucidez, aqui, não é pessimismo. É reconhecimento da coerência estrutural da forma histórica. A dualidade não é falha transitória. É engrenagem. A universidade não é exterior à dependência. É sua forma institucional privilegiada.
A episteme da modernidade dependente não oferece consolo. Oferece inteligibilidade. Ela afirma que a escassez de futuro não é metáfora dramática, mas categoria histórica. Afirma que a financeirização não é desvio conjuntural, mas reorganização estrutural da temporalidade social. Afirma que sem recuperar a dimensão longa do tempo histórico não haverá crítica capaz de ultrapassar a forma.
A universidade pública permanece hoje como um dos últimos espaços onde ainda é possível pensar a totalidade. Não porque esteja protegida, mas porque ainda conserva vestígios de duração. Se perder essa duração, perderá também sua função histórica. E nesse momento a modernidade dependente deixará de produzir teoria sobre si mesma e passará apenas a administrar sua própria compressão.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].






















