General Villas Bôas – Conversas com o comandante

Alberto Guignard, Família de Fuzileiros, 1935. Reprodução fotográfica Vicente de Mello.

Por MARCOS SILVA*

Comentário sobre o livro recém-lançado, organizado por Celso Castro.

A História Oral é um campo de conhecimento consolidado, no Brasil e noutros países, com debates metodológicos em diferentes perspectivas, desde meados do século XX. Seus resultados derivam da interação alcançada por pesquisadores, que escolhem problemáticas e personagens, e narradores, que reagem a questões levantadas pelos primeiros e têm liberdade para proposição de outros problemas. Eles não se resumem, portanto, à voz do pesquisador, nem ao monólogo de quem é entrevistado: há uma construção conjunta do texto final.

O CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, é um pioneiro e importante núcleo de estudos na área em nosso país e publicou grande número de trabalhos sobre a elite política nacional, inclusive sobre militares.

A edição do volume General Villas Bôas – Conversas com o comandante por esse prestigiado centro de pesquisa, com repercussão na imprensa e no debate político, suscita algumas dúvidas metodológicas.

Villas Bôas, em seus agradecimentos, indica o tenente Tabaczeniski (sem prenome) como responsável pela transcrição de suas falas, mais o general Sergio Etchegoyen e Lara Villas Bôas (possivelmente, civil, sem profissão mencionada) no papel de revisores do texto final. Não foi registrada a formação desses três personagens no campo da História Oral ou da História tout-court, o que sugere um trabalho feito a partir de conhecimentos adquiridos noutras esferas de estudos e, também, vínculos pessoais com quem comandou a última versão da obra – o general de seu título.

Celso Castro, do CPDOC, experiente profissional em História Oral, na Apresentação do volume, faz indicações técnicas sobre a preparação do trabalho (número de horas gravadas, datas e local de gravações), registra que foi responsável por transcrição e revisão do texto, com a advertência de que o narrador realizou uma nova revisão depois, quando introduziu muitos acréscimos (calculados em 30%) ao que ele realizara antes: “O livro, em sua versão final, deve ser visto, portanto, menos como uma transcrição literal da entrevista do que como um texto desenvolvido a partir dela”.

História Oral nunca é apenas transcrição literal de entrevista, costuma incluir revisões e alterações. Castro sabe disso muito bem. Sua advertência pesa: provavelmente, houve mais que o rotineiro. O resultado se diferencia de regras habituais das publicações feitas pelo CPDOC nesse universo pois se transformou numa prolongada fala do general.[1]

Vai-se a História Oral, fica a autoimagem do narrador, com copydesk profissional “recopidescado” pelo comandante e por seus auxiliares pessoais. O nome de Castro como organizador do volume se justifica devido a perguntas, notas e propostas de divisão das partes, preservadas, e confere, junto com a FGV, autoridade acadêmica ao volume. Não fica claro se algumas questões, com sabor de bola levantada para o entrevistado (como aquelas que se referem ao projeto de Ernesto Geisel na presidência e à pré-candidatura de Silvio Frota a sua sucessão, abortada pelo primeiro), foram originalmente formuladas por Castro. Uma pergunta praticamente restringe a resposta: “O senhor acha importante a diferenciação entre a instituição e o governo?”. Seria sim ou não, e todo o volume, até então, seguira no primeiro sentido. Faz falta um convite à explicação sobre o funcionamento efetivo dessa diferenciação no Brasil.

O historiador, em várias passagens do livro, registra vínculos familiares dele mesmo no campo militar, atitude cordial que reforça laços com o universo do comandante, o que não se observa no volume sobre Geisel, indicado antes. Isso se deveu, talvez, aos estilos pessoais de cada entrevistado.

Na versão final de Villas Bôas, sua vida não inclui conflitos, tensões, lutas por espaço, vencedores e derrotados, nobiliarquia de farda e militares sem estirpe na área. Ou existe somente uma disputa: contra a ameaça comunista, que mereceu o tópico “O anticomunismo”, depois desdobrado em comentários, na segunda metade do livro, sobre Anistia, Comissão da Verdade e governos Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Esse anticomunismo não é justificado em termos de opções filosóficas, econômicas, sociais e políticas – quais vantagens o capitalismo leva? As rememorações do general parecem um pouco com leves narrativas de Hollywood, ambientadas nas forças armadas norte-americanas, dotadas de um tempero de Guerra Fria requentada, algumas delas talentosas.

Diante de tal visão, 1964 e os governos subsequentes foram lembrados à luz do anticomunismo, sem contrapontos à memória dominante sobre tais episódios e períodos. Problemas sociais não frequentam essas evocações: os homens da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) em 1964, por exemplo, figuram apenas como indisciplinados, talvez instruídos por João Goulart, Leonel Brizola e comunistas, sem sofrerem reais discriminações nem violências – impedimentos civis (casamento, circular socialmente sem farda fora do turno de trabalho, candidaturas a postos eletivos), dificuldades na ascensão educativa e profissional etc.[2]

Discretamente, Villas Bôas informa que prefaciou o livro de memórias de Frota.[3] O narrador não se contrapõe frontalmente a Ernesto, mas o título do volume de Silvio transforma seu oponente em traidor de ideais militares, que o frustrado pré-candidato encarnaria.

O entrevistado evidencia dedicação arquivística ao citar, às vezes amplamente, trechos de falas suas – inclusive discursos – e de terceiros sobre trajeto profissional e outros temas, o que sugere anotações de uma vida inteira, talvez longos registros em diários ou passagens de aulas ministradas. Algumas respostas se assemelham a verdadeiras dissertações, com um toque de autoajuda. Sem esquecer da vasta série de fotografias que encerra o volume.

Há exemplos de confraternizações com civis de elite (fazendeiro e médico, mais respectivas esposas e suas amigas, em Acari, RN, conta de alto valor no restaurante), sem nada similar em relação a setores populares. Também figuram nesse mundo recordações retóricas gerais,como “Na Aman, a gente respira esperança”, atribuída ao desembargador Reis Friede, de alcance amplo e irrestrito – também em escolas públicas e favelas, a esperança pode existir.

Uma das lembranças do narrador foi desmentida na Imprensa: quando Tancredo Neves morreu, Ulysses Guimarães teria defendido novas eleições presidenciais e o general Leônidas Pires se contrapusera a essa proposta, saudara José Sarney como presidente, em nome da Constituição. Em História Oral, uma versão como essa é menos objeto de refutação que exemplo da visão pessoal de quem narra sua verdade, o que não pode levar o leitor a ignorar outras verdades.

É sintomático que, nessa condição rememorativa, o militar apareça como defensor da Constituição contra a cobiça do civil, valores nobres vêm da caserna. O diálogo do Historiador com passagens dessa natureza se torna especialmente significativo para suscitar mais memórias sobre o tema, ao invés de apenas corrigir ou consolidar aquela versão.

Villas Boas se refere a manifestações públicas da mesma época como marcadas por “organização e violência crescentes (…), turba”, acrescenta que essa última destruiu viaturas da polícia. Embora mencione dificuldades econômicas enfrentadas pelos brasileiros na referida conjuntura, ele não associa tais conflitos a verdadeiros problemas sociais, contenta-se com aquela caracterização sucinta ao rejeitar os que protestavam.

As observações sobre a China, onde viveu com a família por dois anos, são muito elogiosas, até exclamativas, sem menções ao trajeto daquele país em nome de comunismo (fala em povo com “ideologia definidora de sua posição no mundo”, citação do geógrafo André Roberto Martin, no que mais parece ser registro de particularidades culturais), embora chegue a evocar brevemente Mao Tsé-Tung sobre o guerrilheiro em meio à população como o peixe na água, ao comentar atividade do CMA (Comando Militar da Amazônia).

Sua fala contra a demarcação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol (Roraima), ato governamental que ocorreu no período presidencial Fernando Henrique Cardoso e foi homologada em 2005, durante a presidência Luiz Inácio Lula da Silva, silencia a proteção de direitos dos grupos tribais em relação a garimpeiros e grileiros e reivindica o maior conhecimento militar sobre aquela área, que considera ter sido menosprezado pelos governos citados. Em sentido paralelo, a crítica ao que julga construção de um mito em torno de Chico Mendes omite o assassinato, em 1988, dessa liderança acreana na luta por direitos dos Povos da Floresta.

Excessos retóricos de Villas Bôas a propósito da Amazônia evidenciam lapsos em relação à História e/ou ideologia em estado radical: “Depois de Pombal (1699/1782), somente nos governos militares a Amazônia veria planos estruturados com vista à integração e ao desenvolvimento”. A preservação da área como território brasileiro no século XIX, a incorporação do Acre ao Brasil em 1903 (governo Rodrigues Alves) e sua transformação em estado em 1962 (governo João Goulart), a ação de Cândido Rondon entre indígenas da Amazônia Ocidental (primeira metade do século XX), tudo isso some como que num passe de mágica. E brotam elogiosa políticas ambientais de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles naquela região brasileira, opção pessoal do comandante, carente de justificativas para não comprometer seus conhecimentos a respeito do tema. Villas Bôas afirma: “Autocrítica é uma prática comum na esquerda”. Valeria a pena que outras orientações políticas também a adotassem.

Sim, é memória do narrador, mas narrador com graus de formação acadêmica correspondentes a sucessivas pós-graduações, mesclados a preferências político-ideológicas. História Oral não se confunde com alguma memória espontânea; se fosse somente isso, para que serviria o Historiador ali presente, do projeto inicial à conclusão? O aludido volume de entrevistas com Ernesto Geisel, por exemplo, inclui contrapontos dos pesquisadores às falas desse personagem, através de perguntas e lembranças.

O episódio do Twitter do comandante sobre o julgamento do pedido de habeas corpus de Luiz Inácio Lula da Silva pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2018, divulgado minutos depois pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, foi desdobrado, no livro, em perguntas de caráter condicional (procedimento repetido em relação a uma possível eleição presidencial de Fernando Haddad em 2018), História contrafactual em estado prático e um pouco selvagem, especulativo. As respostas do general, elaboradas posteriormente àquela situação, inclusive o apelo à diferença entre ameaça e alerta (no limiar do sofisma), assumem uma confortável defesa da legalidade caso o pedido fosse aceito. É a voz do vencedor, prestigiada no governo seguinte, e o silenciamento dos vencidos.

O livro adquire importância pela presença de seu personagem e comandante na política brasileira, além de trazer muitas informações sobre preparação intelectual e práticas políticas das elites militares nacionais.

Seu subtítulo projeta uma imagem de Villas Bôas: comandante. Não há cidadão, “Ninguém é cidadão”(Caetano Veloso e Gilberto Gil, “Haiti”). República sem cidadania, quase Monarquia, sem Rei mas dotada de aristocracia – nobrezas de farda, de toga, de mandato…

Novos debates surgirão.

*Marcos Silva é professor do Departamento de História da FFLCH/USP.

Referência


Celso Castro (Org.). General Villas Bôas: Conversas com o comandante. Rio de Janeiro, FGV Editora, 2021.

Notas


[1] Um exemplo dessas regras é a publicação: D’ARAÚJO, Maria Celina e CASTRO, Celso (Orgs.). Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997.

Cf. SILVA, Marcos. “Filtrada a voz, ouvir os resíduos”. Resenha de Ernesto Geisel, Org. Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, Edição citada. Projeto História. São Paulo: PUC/SP, 22: 425/429, jun 2001

[2] RODRIGUES, Flávio Luís. Vozes do mar – O movimento dos marinheiros e o Golpe de 64. São Paulo: Cortez, 2004.

[3] FROTA, Sílvio. Ideais traídos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.