Por LISZT VIEIRA*
A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
1.
O mundo inteiro fala e escreve sobre Donald Trump, mas nem todos arriscaram fazer a relação entre Donald Trump e a possibilidade de uma guerra mundial. Não que ele deseje, mas suas ações criam as condições para que tal venha ocorrer.
Lembra um pouco o conceito de dolo eventual: o agente pode não desejar produzir o evento, mas age de tal forma que esse evento muito provavelmente será produzido. Por exemplo, alguém que dirige um carro a 150 km por hora na cidade vai acabar matando alguém. Ele pode não desejar essa morte, mas seu comportamento cria as condições para que tal venha a ocorrer.
A invasão militar da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o bloqueio naval para impedir navios comerciais de levarem petróleo venezuelano para seus compradores, a ameaça a Cuba e a Groenlândia jogam lenha na fogueira que aquece a possibilidade de uma guerra em larga escala.
A proposta orçamentária de Donald Trump reforça essa suspeita. A previsão de 1.5 trilhão de orçamento militar para 2027 reivindicada por Donald Trump, indica preparação de uma grande guerra. São 600 bilhões de aumento em único ano, mais de 50%. Donald Trump anuncia plano para aumentar em 50% os gastos militares dos EUA; investimento será de 5% do PIB americano. O valor é significativamente maior do que os US$ 901 bilhões aprovados pelo Congresso para 2026.
Ninguém pode prever o futuro, mas há indicações de que Donald Trump pode promover ações militares ainda este ano, antes que aumente o seu enfraquecimento político interno.
Donald Trump deverá perder a maioria no Congresso nas eleições “mid term” em novembro próximo. Segundo as pesquisas eleitorais, o Partido Republicano vai perder a eleição e a maioria no Congresso a partir de novembro. Ou seja, como Donald Trump sabe que a tendência é o seu enfraquecimento político dentro dos Estados Unidos, poderá antecipar e acelerar algumas ações que segundo ele são necessárias para garantir o predomínio estratégico militar dos Estados Unidos no mundo.
2.
Donald Trump está abrindo muitas frentes de luta ao mesmo tempo: Venezuela, Cuba, Groenlândia, Irã. Ele dá a impressão de que quer resolver tudo este ano, antes da eleição de mid term em novembro, imaginando que depois ele vai se enfraquecer politicamente perdendo a maioria no Congresso.
Na realidade, já começou a aumentar seu desgaste interno com a oposição de governadores, manifestações de protesto e até mesmo acusações de demência. “O presidente Donald Trump está sofrendo de “demência fronto temporal”, em estágio inicial”. O alerta é do doutor Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado.
Parece não corresponder à realidade a teoria de esferas de influência, segundo a qual os Estados Unidos ficariam com toda a América, a Rússia com a Europa e a China com a Ásia. Os Estados Unidos já definiram a China como inimigo principal, essa teoria não tem base na realidade das relações internacionais. Alguns analistas, porém, não afastam essa hipótese de ver as Américas sob liderança dos EUA, partes da Eurásia sob influência russa e áreas da Ásia e do Pacífico orbitando a China.
No plano interno, o desgaste aumenta a cada dia. O assassinato da cidadã americana Renee Nicole Good em Minnesota pela polícia de imigração (ICE) produziu enorme revolta. A Polícia de imigração de Donald Trump recruta supremacistas brancos para acelerar deportação. Propaganda usada pelo ICE usa referências de guerra, movimentos neonazistas e busca recrutas entre defensores do porte de armas.
A polícia de imigração do ICE sequestra cidadãos, invade casas, crianças não vão para a escola com medo de sequestro, seus pais têm medo de sair de casa. Enquanto isso, os EUA suspenderam vistos de imigração para 75 países, inclusive o Brasil.
No plano externo, Donald Trump abriu nova frente ao anunciar tarifa de 25% para países que fizerem negócios com Irã. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil exportou o equivalente a US$ 2,9 bilhões ao Irã em 2025 e importou US$ 84 milhões. Depois de ameaçar o Irã, Donald Trump recuou, dizendo que “a matança parou”. Teria sido pressionado por países árabes preocupados com a desestabilização do mercado do petróleo em caso de confronto dos EUA com o Irã.
3.
Ao romper com as regras jurídicas e políticas internacionais, as ações militares de Donald Trump podem criar condições materiais, geográficas e políticas que aumentam o risco de um conflito sistêmico global. A erosão das regras globais, o desprezo pela ONU, OMC, acordos multilaterais, a valorização da “lei do mais forte”, apontam para a possibilidade de uma guerra mundial.
Guerras mundiais começam em geral quando regras são rompidas e deixam de valer. Donald Trump acelera essa erosão e cria condições materiais e geográficas propícias à escalada. Reduz os freios institucionais que evitam guerras globais. Em resumo: Ele não acende o fósforo conscientemente –, mas espalha gasolina em vários cantos do mundo.
Um bom exemplo é a ameaça à Groenlândia. Donald Trump quer que os EUA adquiram a Groenlândia como prioridade de “segurança nacional” e tem discutido várias opções, com assessores e aliados, inclusive usar as Forças Armadas, sem esclarecer se há planos concretos de invasão imediata.
A ideia de uma invasão militar acarretaria resistência internacional e doméstica forte. A Alemanha, Suécia e Noruega anunciaram o envio de tropas para proteger a Groenlândia. A França enviou “elementos militares franceses” (uma quinzena de soldados) e anunciou a criação de um Consulado na Groenlândia.
Depois da invasão militar da Venezuela e sequestro de seu presidente, Donald Trump parece priorizar atos de guerra econômica, como o bloqueio naval no Caribe. Mas ele é imprevisível.
Enfim, sua abordagem geopolítica pode aumentar riscos de conflitos sérios, inclusive confrontos militares de maior escala se uma crise sair do controle. Vale lembrar aqui a famosa frase de Antonio Gramsci: “O mundo velho está morrendo, o novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros”.
O monstro nasceu e está atuante. Controla hoje o Executivo, o Legislativo e parte do Judiciário. Ou seja, age como ditador. Com Donald Trump, a soberania de uma nação sobre seus recursos naturais, um direito conquistado historicamente e assegurado pelo direito internacional, se transforma em concessão da potência hegemônica.
Sua violação das regras da ordem mundial e do direito internacional contribui fortemente para criar condições para a eclosão de uma guerra em larga escala. Mas essa tendência pode ser contrabalançada pelo previsível enfraquecimento político de Donald Trump, o que acarretaria fortalecimento da resistência no plano doméstico e internacional.
*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]






















