Por VALERIO ARCARY*
A agressão dos EUA à Venezuela, sob a doutrina Monroe+Trump, marca um giro neocolonial no continente, onde a extração de um presidente soberano revela a disposição imperial de redesenhar à força a geopolítica hemisférica
“A cem avisa, quem um castiga. A bom entendedor, meia palavra basta” (Provérbios populares portugueses).
1.
A partir deste janeiro de 2026 haverá um antes e um depois. Estamos diante de um giro na situação mundial. Donald Trump nem sequer pediu ao Congresso norte-americano autorização para a intervenção militar na Venezuela. A operação de bombardeios e sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira dama e deputada Cília Flores é, rigorosamente, ilegal, se considerada a Constituição dos EUA.
Trata-se de uma agressão unilateral, com pretextos insustentáveis como a acusação de um suposto Cartel de los Soles, para justificar o terrorismo de Estado da maior potência mundial. O sequestro e criminalização de Nicolás Maduro como traficante de drogas é uma manobra infame para dissimular uma guerra que começou com o cerco militar das águas territoriais do país, o afundamento de dezenas de barcos com mais de cem mortos, a captura de três petroleiros, e culminou com a operação de comandos durante o bombardeio de Caracas. Não foi, formalmente, declarada uma guerra, uma hipocrisia atroz. Mas o plano admitido, publicamente, é o domínio do país, portanto, é uma guerra.
O objetivo declarado da ofensiva é a redução da Venezuela à condição de um protetorado. Os EUA não reconhecem a soberania do país e querem usar o seu poder para decidir quem deve governar. Foi uma ação imperialista sem precedentes na América Latina, desde 1989, quando da invasão do Panamá e prisão de Manuel Noriega na presidência de George Bush. A “extração” militar de Nicolás Maduro, o eufemismo para o rapto do presidente de um país independente, foi somente um primeiro ataque.
O perigo de novas intervenções é real e iminente. A estratégia projeta novos bombardeios para forçar a derrubada do governo pela força, se não ocorrer uma rendição de Delcy Rodrigues. Donald Trump já declarou disposição até de uma possível ocupação do país, imposição de um governo fantoche, o que obedece ao plano de recolonização pela apropriação das reservas de petróleo por companhias norte-americanas, entre outras razões, para excluir o acesso da China.
A superioridade militar de Washington confirmada em Caracas foi uma brutal demonstração de força diante de Moscou e, sobretudo Pequim: dos bombardeios no Irã, passando pelo armamento entregue desde a Ucrânia a Volodymyr Zelensky até Israel de Benjamin Netanyahu, o imperialismo yankee quis provar que é a única potência com capacidade de exercício de poder em escala mundial.
2.
A Venezuela foi o primeiro país a ser atacado por três razões, igualmente, graves: (a) porque tem variadas e imensas riquezas naturais que têm importância crucial, não menos importante o petróleo mais acessível diante da demanda imensurável colocada pelas novas infraestruturas de inteligência artificial; (b) porque foi a nação que foi mais longe, na América do Sul, na afirmação de um Estado independente, desde a revolução cubana, em posição geopolítica sensível; (c) porque era o elo mais fraco da América Latina, em função da fratura social e política interna e do isolamento internacional, dependente das relações com China, Rússia e Irã.
A narrativa de Washington é absurda. Não é verdade que a Venezuela seja um narco Estado. As rotas de abastecimento do mercado de consumo de drogas não saem da Venezuela, usam o oceano Pacífico. Não é verdade que seja uma invasão em defesa da democracia. Trump mantém relações estreitas com tiranias monstruosas como a Arábia Saudita. Quem pode sequer considerar que um governo títere imposto por Donald Trump seria mais legítimo? Todos os pretextos são, absurdamente, desonestos, falsos, fraudulentos.
A agressão é não somente um crime político inominável, mas a confirmação de que Washington decidiu deixar cristalina a decisão de usar a força, quando achar apropriado, ameaçando a Colômbia e Cuba, mesmo se não haja, talvez, perigo real e imediato de algo na escala do que aconteceu em Caracas, e deixar claro que se trata do início de uma ofensiva de longa duração, à escala continental.
Seria imperdoável não concluir que qualquer governo da América Latina que contrarie os interesses dos EUA está ameaçado pela disposição de impor controle sobre o que Washington considera seu direito de domínio no Hemisfério ocidental, o continente americano, incluindo a Groenlândia, do Alasca até à Terra do Fogo na Patagônia. A nova doutrina de segurança nacional dos EUA, a Donroe, Monroe+Trump explicita a nova prioridade.
O reposicionamento de Washington responde à necessidade de retomar o domínio econômico e político diante da crescente presença econômica da China. Nessa reorientação o país decisivo é o Brasil.
A supremacia norte-americana já não é a mesma de trinta anos atrás, diante da ascensão da China à condição de potência. Mas é preciso calibrar a análise desta tendência com rigoroso realismo. Qualquer subestimação do poder dos EUA no mundo terá consequências devastadoras, senão irreversíveis por um longo período. O desfecho da luta anti-imperialista em solidariedade com a Venezuela vai depender, em primeiro lugar da capacidade de luta do povo venezuelano, mas o lugar da solidariedade internacional é, também, chave, a começar pelo papel insubstituível da resistência dentro dos EUA.
3.
O neofascismo latino-americano se alinhará com Donald Trump. O Brasil não está imune ao desenlace deste combate. O terrorismo de Estado é uma arma de intimidação muito forte. O medo é um sentimento muito poderoso. Quem, eventualmente, não tivesse ligado o sinal amarelo depois da interferência nas eleições argentinas, quando Donald Trump fez chantagem aberta e explícita a favor de Javier Milei, agora deve ligar o sinal vermelho. Na Colômbia em maio e no Brasil, em outubro, as tentativas de manipulação do resultado eleitoral não dispensarão as táticas mais sórdidas, nas redes sociais, mas não só.
O governo Lula não precisa concordar com Nicolás Maduro para reconhecer que ele é um preso político e exigir sua liberdade. Ninguém precisa ser chavista para defender a soberania da Venezuela. Quem não o fizer na esquerda brasileira mergulha na desonra, vergonha e infâmia.
O contexto é o de uma nova conjuntura, dramaticamente, perigosa. O regime e o governo se mantêm na Venezuela, embora debilitados. Derrotas são derrotas, deixam feridas, abalam a moral e é importante aprender as lições. Mas perder uma batalha não significa perder a guerra. A guerra apenas começou. As lutas decisivas estão à nossa frente, não ficaram para trás. Fatalismos são maus conselheiros.
Derrotismo é cumplicidade com a desmoralização. Não são somente as armas que decidem as guerras, mas a força da mobilização que se alimenta de consciência anti-imperialista. Enganam-se aqueles que desconsideram que o regime venezuelano tem base social e política interna. É verdade que as condições materiais de vida se deterioraram, até dramaticamente, em função de um cerco imperialista de décadas, e que existe uma compreensível exaustão entre as massas pelos sacrifícios na luta pela sobrevivência.
Também é verdade que existiram processos de corrupção, em distintos graus na alta hierarquia do chavismo, alguns publicamente expostos, como o enriquecimento ilícito de dois presidentes da PDVSA, Rafael Ramires (2004–2014) e Talik El Aissami (2020–2023). Mas não foi porque não avançou em uma ruptura anticapitalista que o imperialismo atacou a Venezuela, e sim porque avançou mais do que qualquer outro país latino-americano na luta pela independência. A desvalorização do significado da luta pela libertação nacional em uma nação dependente, de tipo semicolonial, mesmo se atípica em função da riqueza petroleira, é um grave erro programático.
4.
Nesse marco, as teorias de conspiração que surgiram no ambiente das redes sociais, inclusive na área de influência da esquerda, são falsas e nocivas. Por que a agressão dos EUA foi tão vitoriosa? Por três razões fundamentais: a gigantesca superioridade tecnológica-militar dos EUA, o fator surpresa, mas também, em algum grau, uma traição. O ataque cibernético neutralizou as defesas antiaéreas, e a operação de comandos tinha muita informação sobre o Forte Tiúna.
Evidentemente, existiu infiltração da CIA no terreno, e sempre há traidores recrutados pelo dinheiro. As redes de espionagem dos EUA estão presentes em todo o mundo, inclusive no Brasil. Mas são falsas as “cabalas” imaginárias, pensamento paranoico incompatível com o marxismo, que argumentam que a intervenção militar só poderia ser tão bem-sucedida se tivesse cumplicidade de alto nível dentro do governo, senão de todo o governo.
Evidentemente, ainda há muito por saber sobre o colapso da defesa venezuelana da madrugada de 3 de janeiro. Mas se teorias de conspiração exercem fascínio, são a antessala da desmoralização.
Qual será a linha de Donald Trump? Ninguém pode saber, por enquanto. Deverá ser uma continuidade de ameaças “terminais”, como a insinuação de que Delcy Rodrigues poderia ter um destino pior do que o de Nicolás Maduro, portanto, ser condenada à morte, alternadas com sugestões de negociação. Mas em quais termos? As condições permanecem obscuras.
O estrangulamento econômico é poderoso, mas será suficiente? Washington já surpreendeu uma fração burguesa venezuelana no exterior – em sua maioria na Flórida ou em Madri – ao descartar, sumariamente, qualquer protagonismo para María Corina Machado, reconhecendo que não tem apoio interno. Não existindo uma oposição burguesa interna com um mínimo de respeito social e político, uma admissão envergonhada de que Nicolás Maduro não perdeu as eleições de 2024, a aposta de Donald Trump parece ser alimentar uma divisão interna dentro do regime.
O chavismo sempre foi mais um movimento político-militar do que um partido, muito menos, monolítico. Mas uma rendição incondicional do governo venezuelano pura e simples seria uma desmoralização impensável. Excluída uma transição negociada, a alternativa para Donald Trump seria o uso da força. A armada norte-americana tem o prazo até o verão do hemisfério norte para permanecer de plantão no Caribe, o início da temporada dos furacões. Não parece ser possível uma solução militar “apocalíptica”.
Uma invasão em toda a linha não pode ser descartada, mas parece improvável, por dois fatores: (i) o balanço desastroso da retirada do Iraque e, sobretudo, do Afeganistão; (ii) ao contrário de uma operação de comandos seriam necessários dezenas de milhares de soldados, em um país de grandes dimensões, com terrenos inóspitos, como a cordilheira dos Andes e a selva amazônica, onde a resistência militar pode se manter, indefinidamente. Em outras palavras, um custo tão elevado que, mesmo em caso de vitória militar, seria de Pirro.
5.
Quais são as opções para Caracas? O governo reagiu ao ataque buscando a coesão interna em torno da posse de Delcy Rodrigues como encarregada da presidência sem reconhecer vacância do cargo. A questão chave nesta fórmula jurídica-política é não convocar eleições. Uma decisão preventiva e prudente diante da possibilidade de Donald Trump girar para uma campanha eleições já.
A Venezuela tem interesse em ganhar tempo. Eleições com a nação cercada pela maior máquina de guerra do mundo não podem ser eleições livres. Não está errado o governo Delcy Rodrigues em declarar que se mantém aberto a negociações e, inclusive, que tem disposição de procurar acordos sobre a presença yankee na produção de petróleo. Ninguém com um mínimo de juízo precipita uma guerra que não pode vencer, senão a um custo devastador.
Concessões econômicas são plausíveis diante do perigo de uma invasão que destruiria o país. O destino da Venezuela depende da força social da mobilização interna, e da solidariedade da mobilização internacional contra Trump. Neste marco é mais do que legítimo fazer todas as manobras possíveis para ganhar tempo e disputar, politicamente, a consciência das massas, dentro e fora do país, para a justiça da causa da soberania e da liberdade para Nicolás Maduro.
Qual será o papel da China e Rússia? Ainda permanece obscura a reação de Pequim e Moscou, mas nem Xi Jinping e muito menos Putin irão considerar uma intervenção militar direta, mesmo somente dissuasiva, porque seria um possível gatilho de precipitação de uma Terceira Guerra mundial. Mas nunca é tudo ou nada na luta de classes ou na luta entre Estados. Existem muitas mediações.
China e Rússia deveriam fazer muito mais do que emitir somente uma nota de solidariedade. A Venezuela está cercada e necessita em forma emergencial de apoio econômico e político. Existem muitas iniciativas que seriam justas. Uma reunião internacional de todos os países que condenam a intervenção norte-americana sinalizaria que o governo Delcy Rodrigues não está abandonado à sua própria sorte.
A articulação da defesa da soberania da Venezuela se fará em distintos “círculos” de alianças, dos mais amplos aos mais restritos. A bandeira de “Não à guerra” e “Respeito à soberania de Caracas” será o programa mínimo. Mas, em outro nível de solidariedade, também será necessário defender a liberdade de Nicolás Maduro e Cília Flores. Em outro ainda apoio econômico ao governo Delcy Rodrigues.
A responsabilidade do Brasil neste marco é imensa. A imediata integração da Venezuela nos Brics seria muito positiva. Uma visita de Lula a Caracas seria um gesto corajoso de solidariedade.
*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].






















