Por GUILHERME E. MEYER*
Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
1.
Hamnet é uma tragédia sobre uma tragédia que inspirou uma tragédia. Essa foi a minha impressão ao sair do cinema depois de assistir ao filme de Chloé Zhao, adaptação do romance de Maggie O’Farrell.
Mais tarde, fiquei pensando sobre dois momentos que ocorrem na parte final do filme. O primeiro, quando a madrasta de Agnes a visita em Stratford-upon-Avon para dar-lhe os pêsames pela morte do seu sogro. Agnes comenta que o marido está em Londres trabalhando em uma nova comédia. A madrasta a corrige, explicando que a peça já em cartaz na verdade é uma tragédia, e acrescentando que em Londres não se fala de outra coisa.
Pelo romance de Maggie O’Farrell, sabemos que, meses antes, é William quem conta a Agnes por meio de uma carta que a nova peça é uma comédia. Para Agnes, a notícia reforça a aparente indiferença de William perante a morte do filho. Na verdade, como vemos no romance pela perspectiva de William, num primeiro momento ele se volta para a comédia na tentativa frustrada de esquecer de si mesmo e do que ocorreu.
No segundo momento sobre o qual fiquei pensando, Agnes sorri, e chega mesmo a rir, assistindo ao final da apresentação de Hamlet. A sua reação é inesperada e à primeira vista destoante considerando-se a sequência de mortes no palco, incluindo, por último, a de Hamlet, típica dos finais trágicos. Mais ainda porque a morte angustiante de Hamlet por envenenamento evoca a morte angustiante de Hamnet em decorrência da peste bubônica. Assim, talvez se esperasse de Agnes o mesmo grito dilacerador entoado na cena em que o filho enfim para de se debater nos seus braços.
Porém, é nesse mesmo momento que Agnes tem uma visão do filho. A visão retoma à do próprio Hamnet em seu leito de morte, preso no meio de um cenário teatral (o de “Hamlet”) clamando desesperado pela mãe. Na visão derradeira de Agnes, no entanto, Hamnet se vira para ela e sorri em paz, deixando o cenário pela porta escura que leva aos bastidores – porta que tanto para Agnes quanto William remonta à caverna da árvore em que encontramos Agnes, em posição fetal, na cena de abertura do filme.
2.
Nesses dois momentos, Agnes “se equivoca” e evoca o gênero dramático da comédia, conhecido pelo seu “final feliz”, em geral repleto de casamentos. Assim, eles nos convidam a pensar no filme como uma tragédia cujo final é permeado pela morte, mas também pela reconciliação de Agnes e William.
Não sei se Agnes o perdoa pela ausência, em especial no período logo após a morte de Hamnet; se, aos seus olhos, a criação da peça justifica a ausência. Seja como for, ao assistir à peça, Agnes tem certeza de que a ausência não é indiferença. A peça evidencia a imensa dor carregada por William, compartilhada pelos dois. Se a peça não justifica a ausência, é por meio dela que William articula essa dor e a compartilha com os outros, incluindo Agnes.
Num momento anterior do filme, durante o segundo encontro entre os dois, na floresta, William admite ser bom com as palavras para escrever, não para falar com as pessoas. Parafraseando Hamlet, “The play’s the thing” [“A peça é a coisa”, em tradução literal], ou seja, a peça é aquilo pelo qual William enfim consegue dar forma ao sofrimento até então inexprimível causado pela morte do filho.
Isso de forma alguma resolve uma das principais contradições levantadas pelo filme: para William passar pelo seu processo de luto, que se confunde com o próprio processo de elaboração da peça, Agnes tem de cuidar dos outros dois filhos do casal. Ainda assim, é por meio da peça que Agnes e William se reconectam, libertando Hamnet para cruzar a porta escura do cenário e fazer a travessia do mundo dos vivos para o dos mortos, “The undiscover’d country from whose bourn / No traveller returns”, como diz Hamlet no seu mais famoso solilóquio [“esse país desconhecido, de onde nenhum viajante retorna”, na tradução de Evando Nascimento].
Em dado momento durante a apresentação de “Hamlet”, William, no papel de fantasma do pai de Hamlet, está deixando o palco quando Agnes o interrompe, pedindo que ele se vire e olhe para ela. Seu pedido – “Look at me” [“Olhe para mim”] – ecoa o pedido do fantasma a Hamlet — “Remember me” [“Lembre-se de mim”] — que ao mesmo tempo é o clamor de William para que Hamnet o perdoe pela ausência e se lembre dele.
O pedido de Agnes também retoma o mito grego de Orfeu e Eurídice contado por William no começo do filme, no segundo encontro entre os dois. No relato de William, Orfeu não se contém e se vira para ver se Eurídice está atrás dele, e, ao fazê-lo, a condena a ficar no mundo dos mortos, separando-os para sempre. Na apresentação de Hamlet, em contrapartida, o olhar entre Agnes e William possibilita o retorno de um ao outro e o retorno dos dois à vida.
Numa cena anterior, William recita o solilóquio de Hamlet à beira de uma ponte em Londres no meio da noite, por fim decidindo-se a não pular. Na cena final, é como se ele e Agnes, juntos, optasse por “ser” mesmo diante da insuperável morte do filho, um dos mais dolorosos “slings and arrows / Of outrageous fortune” imagináveis [“lances e lanças do infortúnio”, na tradução de Evando Nascimento]. A imagem da flecha [“arrow”] remonta a outro “golpe”, o da paixão que arrebatou Agnes e William anos antes.
O duplo sentido do termo é um lembrete de que viver implica a possibilidade, e muitas vezes a certeza, de perder quem mais amamos; mas que viver também nos permite amar tanto outras pessoas que não conseguimos imaginar a vida sem elas. A porta escura do cenário, portanto, não simboliza apenas a morte de Hamnet e o vazio deixado por ela; simboliza também o amor entre Agnes e William, nos remetendo à porta em que os dois se olham, se tocam e se beijam pela primeira vez.
Chorei como há muito não chorava no cinema. Um choro de tristeza pela morte de Hamnet e pela dor dos pais, e por imaginar a dor que sentiria se perdesse o meu filho, um pouco mais novo do que Hamnet. Mas um choro também de alegria pelo menino não mais ficar preso entre mundos, implorando pela mãe, e fazer a sua travessia; por William ter a chance de se despedir do filho no papel do fantasma se despedindo de Hamlet; por Agnes e William se reencontrarem e redescobrirem o amor um pelo outro; por Agnes mais uma vez segurar a mão de Hamnet pela mão de Hamlet; por assistir ao filme, emocionado, junto com a minha companheira de vida e dezenas de outras pessoas na sala cheia do cinema, como a plateia juntando as mãos à mão de Agnes.
No fim das contas, o riso comovido de Agnes não destoa do caráter trágico do filme. Muito pelo contrário. Na célebre frase de Hamlet, é ele que segura “the mirror up to nature” [“o espelho para a natureza”], refletindo o nosso sentimento.
*Guilherme E. Meyer é doutor em literatura inglesa e americana pela New York University e professor de literatura no Institute for Social Ecology.
Referência
Hamnet: a vida antes de Hamlet (Hamnet)
Reino Unido, 2025, 125 minutos.
Direção: Chloé Zhao.
Roteiro: Maggie O’Farrell & Chloé Zhao.
Montagem: Chloé Zhao e Affonso Gonçalves.
Elenco: Emily Watson, Jessie Buckley, Jacobi Jupe, Paul Mescal.
Bibliografia
NASCIMENTO, Evando. “To be or not to be: that is the question”. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil, 2017.
O’FARRELL, Maggie. Hamnet, 2020.
SHAKESPEARE, William. Hamlet, 1599-1601.






















