A polícia mata três pessoas todos os dias

Imagem de domínio público

Por GILBERTO LOPES*

Ensaio literário-documental sobre a liberdade dos negros nos EUA.

Um relato de William Faulkner

“Negro tolo! Acha que há ianques suficientes no mundo para vencer os brancos? Perguntou sua mãe. Loosh estava convencido de que havia, de que vinham para libertá-los, de que já estavam chegando.

Quer dizer que libertarão todos nós? Seremos todos livres?

Sim! O general Sherman vai varrer a Terra e toda a raça será livre!”

Eram os anos 60 (do século XIX), os quatro anos em que a Guerra Civil assolou os Estados Unidos, entre abril de 1861 e abril de 1865. Vinham libertá-los. Loosh os tinha visto no final da estrada, no Mississippi. Vicksburg tinha caído após quase dois meses de cerco, em julho de 1863. Nas margens do rio.

No dia seguinte, fazia calor. O coronel Sartoris estava sentado em mangas de camisa e meias, com os pés sobre o parapeito do alpendre, quando os viram chegar. Fazia calor e os casacos azuis pareciam ainda mais quentes. Vinham com pressa. Estavam à sua procura e o coronel esperou calmamente por eles. Queriam saber onde vivia o coronel John Sartoris.

Loosh saía de sua cabana, com sua trouxa no ombro.

“– Loosh! Você vai embora também?, disse a avó.

– Sim, eu vou. Fui libertado, o anjo de Deus vai conduzir-me ao Jordão, já não sou de John Sartoris, sou só meu e de meu Deus. E seguiu seu caminho, libertado.

– Não vá, Filadélfia! Não sabe que isso só levará você à miséria e à fome?

– Eu sei. O que eles lhe disseram não pode ser verdade. Mas ele é meu marido, tenho que ir com ele”.

Sartoris tinha escapado. Restavam o canhão e as peças de ferro do mosquete, quando encontraram as cinzas da casa. Tinham arrancado o portão e tudo. Saíram pela estrada e viajaram durante seis dias. Então os viram… uma nuvem de poeira que se movia devagar. Muito lentamente para que fossem homens a cavalo. Uma casa queimada, como a deles: três chaminés em pé sobre um monte de cinzas, e uma mulher branca com uma criança, olhando para eles de uma cabana, que estava atrás.

Seguiram. As casas e as descaroçadoras de algodão queimadas, as cercas derrubadas e as mulheres e crianças brancas (nunca vimos um negro sequer) olhando-nos das cabanas dos negros, onde agora viviam.

“Pobre gente, disse a avó.

Dormiram na carroça. De repente, ouviram. Vinham pela estrada. Pareciam uns cinquenta deles. Ouvimos seus passos apressados e uma espécie de murmúrio. De repente, comecei a sentir seu cheiro. Negros!

Em seguida, o sol nasceu e seguimos.

Vamos! Vamos ouvir os negros no rio, disse o primo Denny.

Começaram a passar pela estrada enquanto as casas ainda ardiam. Era impossível contá-los. Levavam crianças nas costas, homens e mulheres velhos que não podiam andar, homens e mulheres que deveriam estar em casa esperando a morte. Iam cantando. Seu sonho era cruzar o rio Jordão.

Foi o que disse Loosh. Que o general Sherman os levaria ao Jordão, lembrou-se a avó”.

“– Esses negros não são ianques, disse. As mulheres ainda não sabiam se eram viúvas e se tinham perdido seus filhos. Vão explodir a ponte, depois que o exército atravessá-la. Ninguém sabe o que farão depois. Saímos para ouvi-los novamente.

– Consegue ouvi-los?, perguntou-me. E podíamos ouvi-los novamente. Os passos apressados, como se estivessem cantando em sussurros, passando apressadamente pelo portão. É o terceiro grupo esta noite.

Quando o sol nasceu, já estávamos caminhando. Começamos a ver a poeira quase de imediato e parecia que era possível cheirá-los. Apareciam sozinhos, ou em famílias, nos bosques, ao nosso lado, à nossa frente, ou atrás de nós. Como uma onda que esconde a estrada, como a água teria feito numa inundação. A maioria deles não olhava para nós. Era como se não estivéssemos lá. Já não têm que se preocupar com a casa, nem com o dinheiro, pois as queimam e os roubam. Também não têm que se preocupar com os negros, porque eles vagueiam toda a noite pelas estradas, à espera de se afogarem no Jordão pela manhã”.

De repente, chegamos ao rio. A cavalaria fechou a passagem. Proferiram um longo lamento e a carroça levantou-se ao vento; vi homens, mulheres e crianças caindo debaixo dos cavalos. Sentíamos que a carroça passava por cima deles, não podíamos parar. Agora podíamos vê-lo claramente: uma maré de negros sendo bloqueada pelo destacamento da cavalaria… e o canto, por toda a margem, com as vozes das mulheres:

“– Glória, glória, aleluia! Atrás de nós seguiam cantando, entrando no rio.

– Maldita seja esta guerra, maldita seja! Levaram o dinheiro, os negros e as mulas. Maldita seja!

A avó disse-lhes que passassem à frente.

– Suponho que todos vocês querem cruzar mais alguns rios e seguir o exército ianque, não é verdade? Perguntou-lhes.

Não responderam.

Depois voltou a perguntar-lhes:

– Quem vocês ouvirão a partir de agora?

– A senhora! Um deles respondeu, após um longo silêncio”.

Depois parou de falar. Ficou ali com os velhos, as mulheres e as crianças, e os onze ou doze negros perdidos na liberdade, com roupas feitas de sacos de algodão e sacos de farinha. Os negros que tinham perdido seus brancos viviam escondidos nas cavernas, nas colinas. Como animais.

Todos eles voltaram, quando enterramos a avó. Seus proprietários tinham desaparecido. Viviam como animais, nas cavernas, sem depender de ninguém, sem que ninguém dependesse deles, sem que ninguém se importasse com seu regresso, se viveriam ou se morreriam. A chuva lenta e cinzenta maltratava, lenta e cinzenta e fria, a terra vermelha em que tinham enterrado a avó.

Até que tudo acabou. Tudo o que restava era a rendição. O coronel Sartoris tinha voltado para casa. Mas os soldados do Sul, apesar de se renderem, continuavam sendo soldados.

Renderam-se e reconheceram que pertenciam aos Estados Unidos. A guerra tinha acabado e arrancavam ciprestes e carvalhos para reconstruir a casa. Eles tinham vivido quatro anos apenas por uma razão: expulsar do Sul as tropas ianques. Acreditavam que quando concluíssem aquilo, tudo acabaria.

Mas tudo tinha apenas começado.

“– Sabe o que eu já não sou?, perguntou seu amigo, seu irmão de leite. Um negro.

– O quê?, eu perguntei.

– Já não sou negro. Fui abolido. Já não há negros, nem em Jefferson ou em qualquer outro lugar”.

Os dois Burden tinham vindo para o Missouri, encarregados por Washington de organizar os negros. Eram os carpet baggers. Com um saco para comprar os votos dos miseráveis negros para políticos alheios à terra, que sistematicamente descumpriam suas promessas eleitorais.

A guerra ainda não tinha terminado. Acabava de começar. Antes, um ianque levava um fuzil; agora, em vez do fuzil, levava numa mão um maço de notas de um dólar, emitidas pelo Tesouro dos Estados Unidos, e, na outra, um maço de cédulas eleitorais para os negros.

Todos falavam de eleições. Mas o coronel Sartoris tinha dito aos dois Burden que as eleições não se realizariam com Cash Benbow, ou qualquer outro negro, como candidato. Os homens do condado deveriam cavalgar até Jefferson, no dia seguinte, portando armas. Os Burden já tinham seus eleitores negros acampados numa área de descaroçar algodão, próxima ao povoado. Vigiados. Tudo se resumia a rabiscar pequenos pedaços de papel e enfiá-los na urna.

Quando chegamos à praça, vimos a multidão de negros, amontoados atrás da porta do hotel, com seis ou oito homens brancos conduzindo-os como uma boiada. E os homens de Sartori enfileirados na porta do hotel, bloqueando-a.

Um velho homem negro era o porteiro. Demasiado velho até para ser livre. E então Sartoris saiu. Ouviram-se três tiros. O primeiro, dos Burden. Os outros dois da pistola de Sartoris. A manada de negros estava imóvel. Sartoris colocou o chapéu, pegou a urna e disse:

“– Estas eleições serão realizadas em minha casa. Alguém se opõe?

A democracia norte-americana

A democracia tinha começado a funcionar. Foi seu ato inaugural. Como Faulkner contou em detalhes no seu notável Os invictos (Ed. Arx).

“– Aqueles que querem que Cassius Benbow seja prefeito da cidade de Jefferson escrevam “sim”. Aqueles que são contra, escrevam “não”.

– Eu mesmo escreverei, para poupar tempo, disse George Wyatt. Ele escrevia, e os homens pegavam uma a uma e as colocavam na urna.

– Não é preciso contá-las, disse Wyatt.

– Todos votaram “não”.

O coronel Sartoris e outros homens tinham organizado patrulhas noturnas, para evitar que os carpet baggers promovessem uma insurreição dos negros. Eram do Norte, estrangeiros. Não tinham nada para fazer ali. Depois concorreu para a câmara legislativa. Obteve uma vitória esmagadora.

– Os tempos estão mudando. O que virá será uma questão de consolidações, embustes e trapaças. Estou cansado de matar homens! E foi para o duelo desarmado. Foi a origem de tudo.

“– Pelo amor de Deus, homem maldito! Homem, dispararam contra mim! Já fui alvejado da mesma forma antes, sr. oficial. Por favor, sr. policial, não atire! Por favor! Dizia ele, enquanto Thomas Lane o perseguia com a arma sacada.

– Não consigo respirar, não consigo respirar… Repetia o negro Floyd, já no chão, com o joelho de outro policial, Dereck Chauvin, em seu pescoço.

– É necessário muito oxigênio, muitíssimo, para falar.

Dizia Chauvin, enquanto apertava o oxigênio que restava nos pulmões de Floyd.

– Você vai me matar! Dizia Floyd, prevendo que seu destino estava nas mãos da polícia”.

Antwainnetta Edwards descansava no alpendre de sua casa em Kenosha, nas margens do lago Michigan, balançando sua filha recém-nascida. Há quatro dias, o protesto tinha surgido na pequena cidade (com pouco mais de cem mil habitantes), onde a polícia tinha baleado o negro Jacob Blake no domingo, 23 de agosto. Tinha 29 anos e ficou paraplégico.

Os protestos irromperam em violência na segunda-feira à noite e o caos eclodiu na terça-feira, quando milícias brancas, armadas, apareceram nas ruas e atacaram manifestantes que protestavam cantando black lives matter. Duas pessoas morreram e muitas ficaram feridas. As pequenas empresas locais foram queimadas.

“– Agora temos que viajar até o condado mais próximo para comprar comida, enquanto a polícia e as milícias armadas controlam as ruas. Todos os negócios, no bairro de negros ou mulatos, estão fechados ou destruídos.

Algum dia a bolha teria que estourar. A comunidade passou do pedido de ajuda à sua exigência. “Enquanto isso, nos encarregaremos de cuidar de nós mesmos. Ninguém se preocupa realmente com esta comunidade. Não está protegida, como o centro da cidade, porque os negros vivem aqui. Há uma cultura perversa nas forças policiais deste país, mas é o resultado do racismo e não se pode arrancar essas raízes simplesmente livrando-se da polícia ou votando”. “Por culpa do capitalismo, do racismo e da discriminação, as pessoas mais escuras e pobres dos Estados Unidos vivem vidas precárias, inclusive, em algumas ocasiões, fora da lei”, explica Derecka Purnell, jornalista e autora de Becoming abolitionists: police, protests, and the pursuit of freedom [Astra House, 2021]. A busca da liberdade!

Negro tolo

“– Negro tolo! Dissera ao negro Loosh sua mãe.

– Acha que há ianques suficientes no mundo para vencer os brancos? Perguntou-lhe. Loosh estava convencido de que havia, de que vinham para libertá-los, de que já estavam chegando.

– Quer dizer que libertarão todos nós? Seremos todos livres?

– Sim! o general Sherman vai varrer a Terra e toda a raça será livre!”

Enquanto Chauvin era julgado, um policial branco matava Ma’Khia Bryant, uma garota negra de 15 anos de idade, em Columbia, Ohio. Ela tinha chamado a polícia porque as crianças mais velhas a ameaçavam. A polícia disparou quatro vezes contra ela. Quem se atreverá a chamar a polícia agora, quando estiverem em apuros?

“Mesmo que consigamos eliminar os preconceitos raciais da polícia, isso não resolverá os problemas de desigualdade e exploração. Se assim fosse, também não haveria tantos pobres, gente branca, na prisão. Na semana passada, vi um vídeo em que três policiais prendiam e espancavam uma mulher branca de 73 anos, com demência, que estava colhendo flores a caminho de casa. Ela tinha esquecido de pagar as compras no Walmart. A polícia deslocou seu ombro e amarrou as mãos e os pés dela. Ela gritava que queria ir para casa e eles zombavam dela”, disse Derecka.

Milhares de policiais mataram mais de dez mil pessoas de todas as raças entre 2005 e 2017. Somente 82 foram acusados de assassinato ou de homicídio culposo. Apesar de todas as mudanças, a polícia ainda mata cerca de três pessoas todos os dias nos Estados Unidos, disse Derecka Purnell.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor de Crisis política del mundo moderno (Uruk).

Tradução: Fernando Lima das Neves.