Indigestão linguística na crônica esportiva

Victor Willing, Lugar com uma coisa vermelha, 1980.

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

Os narradores esportivos ainda pensam que a imagem não é uma linguagem, mas ao contrário um objeto fixo e obscuro que precisa ser insistente e ardorosamente narrado

A combinação entre as previsões dos membros da chamada Escola de Frankfurt e as análises de Jean Baudrillard sobre a sociedade dos espetáculos se associa às ciências da linguagem para garantir o entendimento da indigestão linguística vigente no campo das mídias esportivas brasileiras e seu rebatimento nas redes sociais contemporâneas. A relevância do tema não é dada somente pela influência do discurso sobre a juventude como também porque a crônica esportiva cedeu ao espírito do hooliganismo e da quebra da conexão entre discurso e realidade, o que não significa a destruição de objetos industriais nos campos esportivos, mas da linguagem. A primeira destruição é sempre da linguagem, como se vê no conúbio entre a política partidária e as administrações públicas corruptas.

A relação entre as falas e as imagens sincrônicas piorou o quadro. Seria possível encher várias cadernetas de campo a respeito das confusões linguísticas dos narradores esportivos, nas quais se negam mutuamente o discurso e a figuração. A rigor, não foi criado ainda um repertório capaz de enunciar e absorver essa sincronia, pois o palavrório narrativo pensa em sobrepor-se ao imagético, o que é fatal. Pense-se na hipótese de narrar fartamente diante da escultura de David e, ao final, nada restar senão o grande ícone a questionar o humano falador. Não restaria palavra sobre palavra… Uma narração voluptuosa sobre David nunca encontra o sentido da escultura. Talvez fosse possível se o discurso entendesse o modo pelo qual David foi composto.

Mais agudo se torna o problema porque não há sinais de qualquer aprendizado do novo repertório capaz de estabelecer a comunicação entre a fala e suas imagens. Os narradores ainda pensam que a imagem não é uma linguagem, mas ao contrário um objeto fixo e obscuro que precisa ser insistente e ardorosamente narrado. Um engano dramático.

Vive-se um momento histórico do vale-tudo, simbolizado nas graves desconexões de linguagem do presidente desta república, incapaz de criar frases de razoável entendimento, mas capaz, em sua volúpia, de trocar de camisas de equipes de futebol todos os dias (pois o seu corpo serve a qualquer coisa) e muitíssimo capaz, no interior de sua doença mental, de escarnecer dos doentes e mortos pelo Sars Cov 2. Há, também, muitos sinais internacionais do mal. Em consequência de tais extremos, o melhor caminho para pensar o problema aqui posto é o teórico, pois a imensidão dos fatos e dados a citar se diluiria na irracionalidade das justificativas. Provavelmente pouquíssimas pessoas do campo esportivo estão a refletir sobre hooliganismo e quebra da relação entre o logos e a vida. Ou que a vida está no logos. Convenhamos, no entanto, que os narradores esportivos se desincumbem de suas funções de modo muito superior ao inquilino do Planalto.

O velho lugar comum de que o esporte é um lugar social despojado, aberto, liberado, juvenil etc. parece ensejar a miscelânea e às vezes a promiscuidade e o vale-tudo dos enunciados.

O campo teórico é repleto de considerações. Faça-se uma escolha básica.

A análise dos discursos na vida social considera que os fenômenos e dados da vida se relacionam e se conectam, pois “a linguagem é a mais perfeita de todas as manifestações de ordem cultural que formam, de alguma maneira, sistemas” (LÉVI STRAUSS (1971:134). De seu lado, Jakobson (1973:43) aduz: “a linguagem está no centro de todos os sistemas semióticos humanos e é a mais importante de todos eles”. Com o perdão pela citação dos clássicos, importa que eles se situam num ponto nodal da modernidade e ali buscam não somente compreender o ser humano, social e conectivo, que se apresenta na linguagem, mas também que a comunicação só é possível quando entendida como construção do eu e do outro, outra. Exatamente porque a linguagem é sinal forte das nossas relações no mundo, nossa presença comunicativa deve se dirigir à melhor inteligibilidade das relações e não somente expressão do que queremos ser, talvez o centro de um mundinho. A ideia de sistema importa menos, porque é sempre criticável na história da ciência, embora tenha a utilidade precípua de mostrar que não somos o centro de tudo e sim relação, ligação construtiva.

As narrações de voleibol, basquete, futebol, ginástica (à guisa de situar campos de trabalho) são um tempo-espaço perfeito para discutir a “invenção” da imagem visualizada pelo palavrório discursivo dos narradores. O ponto de partida do imbroglio reside nos conceitos fixos que os responsáveis pelos atos narrativos parecem dominar. Em primeiro lugar, fica a impressão de que o fenômeno narrado não existe e precisa ser criado, o que lembra as antigas narrativas do tempo exclusivo do rádio. Naqueles tempos, com alguma razão retórica. No caso atual do rádio, da TV e das redes a gramática da língua sofre em demasia e isso não é pedantismo escolar, pois faltou aos professores da escola brasileira mostrar que a gramática é o caminho para tornar legível e inteligível a disposição humana de se exprimir. Gramática nunca foi formalismo, ou coisa própria do Rui Barbosa, exceto por  obra dos erros dos ensinadores. Na sociedade impulsionadora das imagens, mal denominada como pós-modernista (e até pela estupidez do pós-tudo), só será respeitoso narrar aquilo que vier a garantir o enriquecimento da imagem, como se dá na leitura poética em voz alta, o que se realiza em nuances de sentido a destacar, detalhes a justapor ou elencar, memórias a atualizar. Aí a gramática faz ver os sentidos do real que se espera transmitir, sem idealização ou desqualificação.A narração respeitosa ganharia um sentido pedagógico que poderia reverter o vale-tudo contemporâneo, pois às novas gerações o vale-tudo é a morte.

Uma narrativa ecológica do esporte exige razoável conhecimento das ciências e das artes das modalidades e, precisamente a partir dessa cultura acumulada sustenta-se e faz sustentar um discurso conectivo, o qual não se realiza entre sujeito e objeto, mas sim entre sujeito e sujeito, emissores e receptores mediados pelo fático, pelo poético e pelas mensagens objetivas. Entre a cabine da narração e o campo esportivo não é possível uma relação sujeito-objeto. Assim valorizados pela correção e pela beleza no trato dos sujeitos de interlocução, os atletas serão visualizados na justeza de suas buscas em direção à emergência dos seus objetivos e à construção das emoções individuais e coletivas. O narrador não é o dono do latifúndio narrativo e sequer tem direitos a hipérboles ou gracinhas hooligâmicas, pois elas quase sempre são desmentidas, quer imediata, quer mediatamente, como estamos cansados de ver e ouvir. E então corre o narrador a se justificar novamente, o que aumenta a indigestão linguística da crônica esportiva.

Os e as atletas não são melhores pela narrativa, especialmente pela imensidão de adjetivos gritados pelos narradores, mas pela sua condição complexa de ser no exercício de performances; melhor, na constituição do seu trabalho. Triste reconhecer que a emergência das mulheres no campo narrativo não alterou o esquema vigente, o que é terrível, pois setores significativos da sociedade botam muita fé na especificidade e na originalidade do fazer feminino, de que poderia decorrer o novo. Quem sabe esse novo ainda será construído, por oposição ao que está estabelecido e imposto.

Muitos narradores de contos e romances reconhecem a força dos sujeitos narrados e até mesmo sua sobreposição ao fluxo narrativo (Ah, Clarice!), como se os atores escapassem do enredo para saltar na vida real. Os atletas precisam ser tratados a partir dos mesmos direitos no fluxo das narrações e pouco adianta fazer louvações exageradas num momento para queimar a língua noutro e, ademais, alterar o ritmo das próprias vidas de jovens promissores.

Walter Benjamin, jovem no tempo da escola intelectual alemã citada no início deste texto, teve muito interesse pela narração. Num de seus textos se lê: “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos”. Sem intenção de análise, cabe somente considerar que as narrativas, ao não se distinguirem das histórias orais contadas por pessoas comuns, mostram que seu fundamento está na criação de comunicação, pois as histórias ancestrais tendem a aumentar, sempre, os graus da comunicabilidade e o bom entendimento do narrado. A história narrada cresce e se expande, enquanto o narrador permanece no anonimato, na modéstia da condição de narrador.

Provavelmente a maioria dos narradores esportivos não se sinta parte dessas tramas da linguagem. Nada anormal, pois este tempo não dá nenhuma atenção ao subliminar, ao aparentemente submerso, ao sombrio e anônimo que forma a vida, pois o que interessa é escancarar falas a torto e a direito. Mandar ver na produção da goela. Ignoram muitos narradores que a linguagem demasiada sempre deixa acúmulos e sequelas nas zonas sombrias, em que os atletas ainda não estão amadurecidos,  embora já pareçam ser plenamente via narrativa. Aos poucos, as narrativas hiperbólicas e “inventoras” de imagens para além da imagem do real destroem não somente a linguagem como também colaboram para a destruição dos atletas. Fazem papel similar à cartolagem, às federações e confederações, geralmente (as exceções devem ser honradas) dirigidas por quem não tem nenhum domínio sobre as ciências e as artes do esporte. Sequer conhecem concepção, formulação, realização e avaliação de política esportiva.

Haverá um dia em que se discutirá abertamente (também pelos, pelas atletas, via-de-regra intimidados, as) por que se encastelam esses senhores soberanamente no poder das organizações. Será que ninguém vê que eles pioram o fazer esportivo e só provocam a ampliação do discurso fantasioso sobre o esporte porque isso vai a seu favor como prestígio e lucro?

Depois desse longo primeiro lugar, o segundo conceito fixo. Trata-se das divisões entre o excelente e a outra coisa. Uma imagem brutal, que desvirtua as narrações em sua própria imanência, consiste em dividir o mundo esportivo entre o superior e o menos. Falta aí a mínima leitura de estrutura e de construção histórica dos fenômenos e suas organizações. Já estamos cansados de ouvir que o futebol europeu é o melhor do mundo. Por que melhor do que aquele praticado em Tonga ou no torneio Moçambola? Ah, talvez pelos capitais empregados e pela parafernália do consumo de objetos… Mas não pela correria em campo, pois o futebol europeu está perto de confundir completamente o sentido original de futebol ao combinar em seus movimentos tresloucados dentro de campo uma soma de regras behavioristas, algo do futebol americano, do rugby e tudo o mais que signifique parar o outro para que eu progrida em direção ao gol, ao alvo. Digamos que isso satisfaça a certos setores da sociedade europeia, mas, afinal, o que é bom nisso, o que é excelente, o que é melhor? No máximo, para pensar um pouquinho em estruturas, ele pode ter o rosto espetaculoso da sociedade em que é jogado. Mas a Europa, a despeito de sua riqueza, não pôde dar exemplos no trato da Covid, no verdadeiro cuidado ecológico (fora do seu umbigo), no trato dos imigrantes etc. Destarte, o futebol europeu (só aquele que é visto, espetaculoso) é algo forjado para certos setores da sociedade, fato que, embora pareça distinto do que é a Europa complexa, no fundo se assemelha pelas inumeráveis contradições europeias, conhecidas e sabidas desde o processo de colonização do mundo na Renascença. Quem sabe os narradores esportivos, seus editores e os donos das emissões reconheçam o mal que significam tais nominações descabidas, posta aqui como uma entre muitas.

Reconheça-se, novamente, que os campeonatos de Tonga e Moçambique podem estar a correr atrás do “melhor campeonato de futebol do mundo”. De qualquer modo, (para esclarecer a leitura estrutural) a língua inglesa não é melhor do que a língua da nação bororo, exceto pelo prestígio internacional e pela condução dos negócios. Na medida em que a exceção for a regra social, certamente o inglês será superior ao bororo.

Portanto, uma qualificação de princípio pode arruinar um processo civilizatório, especialmente pelo ângulo da comparação, visto que desconsidera liminarmente a história e os arranjos estruturais das sociedades comparadas. Dá para entender que tudo o que não é “espetacular” está distante das telas e microfones; por desgraça, também das redes sociais.

Enfim.

Este texto fugiu de exemplos casuais e buscou apresentar somente alguns em face de sua estruturação já prestigiada socialmente. Ainda que demasiadamente prestigiados. O que ainda cabe inferir da oitiva e da assistência ao mundo do esporte via narrações é que a sociedade vociferante do espetáculo e a narrativa do espetáculo feita como o próprio espetáculo, mais as classificações esportivas estratificadas nos discursos significam, de algum modo, a morte da sociedade pensada tanto no debate ao tempo da revolução industrial quanto nas declarações contemporâneas dos direitos humanos. De um lado, porque porta conceitos de baixa densidade comunicacional, isto é, bate em teclas de seus monotons com insistência e forja uma realidade estranha à existente no cotidiano das pessoas, inclusive atletas. Assim também, seu espetáculo é fugaz e seu encanto cessa ao fim do discurso, exigindo-se sempre mais e mais espetacularidades. Como a cigarra, canta-se até o peito estourar e o corpo entrar na seca inércia. Talvez entre as cigarras haja maior comunicação, especialmente sobre fenômenos da natureza acontecendo e a acontecer. Ao não comunicar a beleza do real em si, a narração a falseia e quebra a comunicabilidade. Esse é um ato de morte. De outro lado, insistir no aproveitamento interesseiro da sociedade espetaculosa é uma forma grosseira de aleijar a cultura esportiva (saúde, beleza e bem-estar plenos) a favor do turbo-neoliberalismo que não reserva qualquer importância à construção do ser e sim a suas performances espetaculares e lucrativas.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.

 

Referências


BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Editora Brasiliense, 1985.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo: Editora Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1969.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Arte lenguaje etnologia (entrevistas com Georges Charbonnier). México: Siglo veintiuno editores s.a., 1961.