Jair M. Bolsonaro em Roma

Imagem: Clara Figueiredo, cabra cega, fotomontagem digital, 2020

Por TARSO GENRO*

O presidente mostrou em Roma, com a sua vulgaridade assassina, que ainda está vivo e que não se envergonha do que fez

Minha afeição à literatura seguidamente me dá lições de vida e de esperança. Penso que nos tempos modernos a grande literatura burguesa mundial – proletária e camponesa nas Américas – com autores como Arguedas, Antonio Callado, John dos Passos, Hemingway, Tolstói e Dostoiévski – nos seus respectivos tempos – não somente nos ajudam a interpretar a História, como também renovar energias para retomar lutas e renovar desejos. A grande literatura sempre ajudou a localizar-me, modestamente, no meu pequeno lugar no mundo.

Como chegamos onde estamos? A “aposta no autoritarismo tem por raiz o medo”, “de perder o emprego para o estrangeiro”, o medo dos “pobres invisíveis”, o “medo pelo estranhamento racial”, o “medo de perder os privilégios”. No Brasil também viceja o medo de não poder viajar à Disneylândia!  A política fascista sabe isso e assim substitui o “debate fundamentado pelo medo” e, igualmente – agrego eu – substitui a ciência positiva pela Intuição medieval. (Luís Fonseca Pires, “Estado de Exceção”,2021)

O negacionista pode matar quando se vê intimado a assumir a responsabilidade de defender-se de um vírus, para não contaminar seu próximo: o outro – para ele – (que pode ser seu pai, filho, amigo, irmão) só existe como ser significante, se comunga do seu ódio, não da sua remota humanidade. Os líderes negacionistas não são somente criminosos porque ajudam conscientemente a naturalizar a barbárie, mas também e principalmente  porque disseminam a ignorância, não somente pela força bruta, mas também pelo ódio que  inoculam nos seus cúmplices e até mesmo nas vítimas das suas políticas de morte.

A narrativa de Jamil Chade sobre o passeio de Bolsonaro no G20, em Roma, onde este desafiou os líderes das democracias originárias dos movimentos ilustrados e cientificistas dos últimos três séculos, revela todas ambiguidades da racionalidade política moderna. Ali fascismo e democracia, torturas e torturados, reformistas e conservadores – de todos os continentes – convivem com a memória das lutas coloniais e o heroísmo passado; com a reminiscência das guerras pela independência  e com as lembranças do “ferro e fogo” da dominação imperial.

Ninguém, todavia, foi tão explícito ao sustentar o racionalismo moderno na sua vertente técnica e instrumental, como o foi Bolsonaro ao compartilhar, cinicamente, com Salvini uma homenagem aos pracinhas brasileiros mortos na Itália. O regime fascista que matou nossos pracinhas na 2ª Guerra, o mesmo que eles mesmos professam – parcial ou totalmente – assim se permite fugir do cotidiano das mortes que ele promoveu, para encontra no ritual formal da democracia o seu traço de união com a razão iluminista.

Saindo da pandemia, presumimos, tudo pode melhorar. Dizemos, para nós mesmos sem muita convicção que, se perdemos o enlace humano do cotidiano – substituído pela alucinação das redes supuradas de ódio – é possível que as advertências da memória – onde guardamos nossos tempos melhores – possam nos recuperar lentamente: tempos em que a fome cedia ao alimento, o diálogo sucedia o conflito e o Estado não estava aparelhado pela ira e pela ignorância. Como tudo isso foi possível? A memória histórica foi esclerosada pelo medo e o medo é tão moderno quanto a luz, tão antigo como qualquer barbárie, como foi o genocídio indígena na América.
Pequenos símbolos da humanidade moderna, ao lado destes grandes símbolos da reunião do G 20, podem ser encontrados na literatura crítico-realista deste ciclo. O talento dos escritores, para compreender o épico revela as faces ambíguas da crise, como Vargas Llosa – por exemplo – que num texto do seu livro A verdade das Mentiras – lembrando o Congo de Leopoldo II (onde foram mutilados e exterminados cinco milhões de nativos na propriedade imperial) assinala o genocida que precedeu Hitler desta forma: “Leopoldo II foi uma indecência humana, porém culta, inteligente e criativa”.

Este “porém” do neoliberal “iluminista” Vargas Llosa, desvincula – todavia – a adjetivação da “cultura” e da “criatividade”, da condição de genocida de Leopoldo II. E o faz como se a sua cultura e a sua criatividade pudessem neutralizar a relação do Imperador com as chacinas dos seus nativos escravizados e “protegidos” para aderir ao Evangelho.  Na visão do iluminismo de Llosa, a criatividade humana e a cultura moderna podem ser conciliadas com a suposta inocência genocida da cultura das Luzes.

Vargas Llosa, todavia, não comete um mero equívoco, mas é o portador consciente de uma das ideologias provenientes do racionalismo moderno, capaz de criar meios e reformas para martirizar contingentes de famintos, sem tocar na grandes fortunas e assim representar uma das duas tendências antípodas do mundo moderno, especialmente a que supõe que Mandela e Hitler podem viajar no mesmo barco da História.

Um episódio literário particular com outra significação, onde cotidiano e história se fundem num pequeno livro  de contos do nosso ficcionista gaúcho Tailor Diniz. O autor descreve, num singelo e magnífico conto uma visita no fim do isolamento, em busca do velho normal. Sem fogos de artifício e sem exageros retóricos, o fim da crise do “Covids” é celebrado por pessoas reais, que irrompem do seu casulo de contenção e medo e se voltam para o alimento do afeto e do humor, para refazer a vida.

No epílogo de O clube dos sobreviventes Diniz diz que “é preciso erguer a cabeça e ir atrás do ar puro, para reforçar a vitalidade das energias (humanas), sem oferecer um lugar de alienação, onde se ocultam os notórios responsáveis pelas tragédias do mundo real.”  É uma bela peça de ficção, o conto “Uma boa ideia”: dois amigos comendo um frango com polenta, falam da vida novamente erguida e batizam um cachorro de “Cidadão”. E prometem um novo almoço, de comum acordo, achando “uma boa ideia”.

Vargas Llosa, grande ficcionista latino-americano, quando sai da literatura se refugia na mesma alienação que deu sentido à vida de Leopoldo II. O nosso escritor gaúcho – talvez anunciando as novas ficções de uma vida pós crise – mostra que a humanidade não foi derrotada, ainda, pelo fascismo e pela doença. E por isso podemos recriar o mundo. Se estou errado me corrijam.

Acho, todavia, que estamos atrasados na unidade consciente para enfrentar a besta, pois Jair Bolsonaro mostrou em Roma, com a sua vulgaridade assassina, que ainda está vivo e que não se envergonha do que fez. E como este tempo é um tempo distópico, ele poderá nos derrotar, se atuarmos em separado dentro do medo geral. Pode ficar tarde! As classes dominantes no mundo e no país não desistem facilmente de manter os demônios que criaram a sua imagem e semelhança.

*Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.