Conflito armado interno no Equador?

Imagem: Diego F. Parra
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FRANCISCO HIDALGO FLOR*

O estado de “conflito armado interno” declarado pelo governo de Noboa não resolve os elementos imediatos e mediatos do problema, mas beneficia os militares e as redes do Departamento de Estado dos EUA

É uma situação complexa a que o Equador atravessa neste início de 2024, agora fortemente marcada pelo impacto do aumento da violência, atingindo níveis que, se compararmos com os registros do final de 2019, época da pré-pandemia, pioraram em 300%. Os massacres em presídios em confrontos entre facções criminosas fizeram cerca de 170 vítimas nos últimos dois anos. Isso é espantoso, mas não pode ser resolvido com a declaração de estado de guerra. A recente medida do governo do novo presidente Daniel Noboa de declarar uma situação de “conflito armado interno” não ajuda em nada.

Uma situação é a expansão das quadrilhas de narcotraficantes e os massacres nas prisões, e outra é um conflito armado interno. Cabe perguntar: quantos países no mundo passam por fenômenos como o crescimento do narcotráfico e a expansão das máfias? Muitos. E quantos o classificam e procedem como uma situação de conflito armado interno? Equador e alguns mais.

As causas que levaram o Equador a se tornar um ponto crucial para os novos circuitos do tráfico de drogas para os Estados Unidos e a Europa se devem mais a razões externas do que internas, e não são resolvidas por uma escalada militar do conflito.

Entre os fatores externos a serem mencionados estão: o aumento do cultivo de coca e da produção de cocaína nas regiões que fazem fronteira com o Equador, o papel cada vez maior das máfias transnacionais sediadas no México para o narcotráfico com os Estados Unidos e das máfias dos Bálcãs para os mercados europeus, que buscaram e incentivaram “parceiros locais” no Equador, e a expansão da demanda no “primeiro mundo”.

Os fatores internos incluem a grave crise econômica e de desemprego do país, que tem um forte impacto sobre os jovens das favelas urbanas, a corrupção dos juízes e da polícia, a permeabilidade dos portos no litoral, as remessas de exportação e os circuitos financeiros estimulados pela dolarização.

Mais graves são os impactos para o conjunto dos setores populares, urbanos e rurais, a expansão das quadrilhas de narcotráfico, juntamente com o tráfico de pessoas e a extorsão, um perigo que é maior em áreas de interesse especial para estes setores, áreas próximas a portos, independentemente de seu tamanho, e o recrutamento massivo de jovens, às vezes ainda crianças. Isso se expressa principalmente nas províncias da região costeira e também em algumas da Amazônia, bem como nas áreas de fronteira. Um exemplo disso é que o grupo que atacou recentemente o canal de televisão TC era formado por jovens entre 16 e 24 anos, incapazes de transmitir qualquer mensagem que não fosse a exibição de armas, dinamite e a intimidação de reféns.

As razões para a declaração político-militar de um “conflito armado interno” não estão na expansão do tráfico de drogas, mas em outro canto, nos setores e forças que veem a oportunidade de obter um consenso social que não conseguiram forjar de nenhuma outra forma.

O estado de “conflito armado interno” declarado pelo governo de Noboa não resolve os elementos imediatos e mediatos do problema, mas beneficia os militares e a expansão das redes do Departamento de Estado dos EUA no controle da segurança e das fronteiras do país, inclusive a marítima. Atualmente, o principal porta-voz do governo é o chefe do comando conjunto das Forças Armadas, e o embaixador dos EUA participou da reunião do Conselho de Segurança do Estado.

Isso permite que o governo do novo presidente Daniel Noboa faça uso de um discurso e apele para um tipo de política mais encorpada do que a que ele exibiu na campanha eleitoral e nos primeiros eventos governamentais (suas intervenções públicas não duravam sequer quinze minutos). Com o coro dos grandes meios de comunicação, amplia-se o vocabulário de guerra, armamento, restrição de direitos, unidade nacional e se fala até mesmo da pertinência de um “imposto de guerra”.

Ao mesmo tempo, é anunciada a instalação de bases militares estadunidenses, que já estão ativas na região das ilhas Galápagos há alguns anos.

Em todas essas operações, pouca ou nenhuma menção é feita ao controle e à investigação da circulação dos capitais do narcotráfico no sistema financeiro nacional. Foram denunciados vínculos com setores políticos governamentais, por exemplo, a relação que tinham com parentes próximos ao ex-presidente Guillermo Lasso. Mas dos bancos e de setores como o imobiliário nada se diz. A condição de um país dolarizado é um incentivo para a lavagem desse tipo de dinheiro.

Essa situação coloca a questão da crise de segurança e de violência no centro das preocupações nacionais, e a atmosfera de medo se espalha. Um dos efeitos é que isso desvia a atenção dos esforços para fortalecer o campo popular, tanto em termos de organização quanto políticos. Em vez disso, consolidam-se os discursos de direita e de conflagração. Isso contribui para a propagação do que poderíamos chamar de um “senso comum conservador” na população equatoriana.

*Francisco Hidalgo Flor é professor de sociologia na Universidade Central do Ecuador.

Tradução: Fernando Lima das Neves.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Elias Jabbour Sandra Bitencourt João Sette Whitaker Ferreira Dênis de Moraes Denilson Cordeiro Ricardo Musse Gabriel Cohn Eugênio Trivinho Eduardo Borges Jean Pierre Chauvin Érico Andrade Plínio de Arruda Sampaio Jr. Dennis Oliveira Igor Felippe Santos João Adolfo Hansen José Geraldo Couto Bento Prado Jr. Marcos Aurélio da Silva Yuri Martins-Fontes Alexandre de Freitas Barbosa Daniel Costa Julian Rodrigues Kátia Gerab Baggio Lucas Fiaschetti Estevez Milton Pinheiro Carlos Tautz José Dirceu Henri Acselrad Remy José Fontana Henry Burnett Marcos Silva Chico Whitaker Antonio Martins Priscila Figueiredo Paulo Capel Narvai Eleonora Albano João Paulo Ayub Fonseca Jean Marc Von Der Weid Francisco de Oliveira Barros Júnior Alexandre de Lima Castro Tranjan Thomas Piketty Marilia Pacheco Fiorillo Luis Felipe Miguel Marcus Ianoni Celso Favaretto Gerson Almeida Heraldo Campos Luiz Marques Osvaldo Coggiola Flávio Aguiar Francisco Pereira de Farias Maria Rita Kehl Ricardo Fabbrini Celso Frederico Everaldo de Oliveira Andrade Michael Löwy Luciano Nascimento Paulo Sérgio Pinheiro Airton Paschoa Bernardo Ricupero Boaventura de Sousa Santos Slavoj Žižek Carla Teixeira Ronald León Núñez Flávio R. Kothe Antonino Infranca João Feres Júnior José Raimundo Trindade Mário Maestri Vladimir Safatle Marjorie C. Marona Tadeu Valadares Vinício Carrilho Martinez Bruno Fabricio Alcebino da Silva Alysson Leandro Mascaro Daniel Brazil Juarez Guimarães Eleutério F. S. Prado Michel Goulart da Silva Luiz Roberto Alves André Márcio Neves Soares Liszt Vieira Eugênio Bucci Otaviano Helene João Lanari Bo Bruno Machado Leda Maria Paulani Benicio Viero Schmidt Rafael R. Ioris Luiz Bernardo Pericás Chico Alencar Sergio Amadeu da Silveira Marcelo Módolo Valerio Arcary José Costa Júnior Gilberto Maringoni Anderson Alves Esteves Andrés del Río Luiz Werneck Vianna Fábio Konder Comparato Luiz Eduardo Soares Antônio Sales Rios Neto Lincoln Secco Francisco Fernandes Ladeira Leonardo Avritzer Leonardo Boff Manuel Domingos Neto Tarso Genro Walnice Nogueira Galvão Ricardo Antunes Mariarosaria Fabris Daniel Afonso da Silva Michael Roberts Vanderlei Tenório Fernão Pessoa Ramos Leonardo Sacramento Gilberto Lopes José Micaelson Lacerda Morais Salem Nasser Luiz Carlos Bresser-Pereira Rubens Pinto Lyra Marilena Chauí Claudio Katz Matheus Silveira de Souza Paulo Martins Valerio Arcary Armando Boito Ricardo Abramovay Andrew Korybko Ladislau Dowbor Luiz Renato Martins Paulo Nogueira Batista Jr Samuel Kilsztajn Jorge Luiz Souto Maior Tales Ab'Sáber Caio Bugiato Eliziário Andrade Afrânio Catani Berenice Bento João Carlos Loebens Paulo Fernandes Silveira Alexandre Aragão de Albuquerque Anselm Jappe Renato Dagnino João Carlos Salles José Machado Moita Neto André Singer Ronald Rocha Lorenzo Vitral Marcelo Guimarães Lima Ari Marcelo Solon Annateresa Fabris José Luís Fiori Rodrigo de Faria Fernando Nogueira da Costa Atilio A. Boron Luís Fernando Vitagliano Manchetômetro Jorge Branco Ronaldo Tadeu de Souza

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada