José Cavalcante de Souza (1925-2020) – II

Thyago Nogueira (Jornal de Resenhas)

Por FILOMENA HIRATA*

Perfil intelectual do professor e tradutor do grego

Faleceu em São Paulo, no dia 23 de maio, o professor José Cavalcante de Souza, em consequência de um AVC que o atingira alguns anos antes e o deixara praticamente imobilizado nos braços e nas pernas. Visitei-o com J.A.A. Torrano há uns dois anos; estava bastante fragilizado, mas a cabeça continuava boa, lembrando-se de tudo e falando vagarosamente.

Disse-me baixinho: “a doença é uma coisa muito chata”, e eu me lembrei de que, nos anos de convivência passados, eu nunca vira o professor doente. O que eu retive na memória desse encontro, foi a menção à publicação da Ilíada de Homero, cuja tradução ele foi fazendo, aos poucos, ao longo da vida e há muito estava terminada. Ele, no entanto, sempre muito rigoroso, hesitava em torná-la pública. Penso que é um luxo imenso morrer deixando a Ilíada traduzida na gaveta.

A Ilíada era o livro preferido do professor. Ele queria que sua tradução traduzisse a beleza e a sonoridade dos hexâmetros e, tanto quanto possível, fosse próxima do original. Há anos, quando comemorou as bodas de ouro, as filhas organizaram uma festa aos pais e entre os convidados estavam alguns professores de grego e, também, Leon Kossovitch da filosofia. No fim da festa, professor Cavalcante pediu que Leon e eu o acompanhássemos até a sala já vazia e ele, pegando certa quantidade de folhas de papel datilografadas, convidou-nos a ouvir a leitura da sua tradução do primeiro canto da Ilíada. Presente dos deuses: uma experiência difícil de contar.

Professor Cavalcante iniciou sua carreira docente na Universidade de São Paulo em 1956, momento em que o curso de grego era dirigido pelo professor francês Robert Aubreton. Lembro-me de que, quando entrei na Faculdade, em 1963, percebi certa movimentação entre os professores por dois motivos: de um lado, o retorno do professor Aubreton à França, após dez anos de permanência no Brasil; de outro, a defesa da tese de titular do professor Cavalcante. Os dois motivos se uniam porque o professor Aubreton fazia questão de estar presente na banca.

A tese do professor Cavalcante, intitulada “A caracterização dos sofistas nos primeiros diálogos platônicos”, foi publicada no Boletim nº 308 da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1969. Talvez seja oportuno esclarecer que a de Doutoramento sobre “O Banquete de Platão”, sob orientação do professor francês, fora defendida em 1961 e publicada, em 1966. Ambas revelam, desde o princípio, a tendência filosófica da pesquisa do professor Cavalcante. Se, durante dez anos, o professor Aubreton criou na USP uma tradição de trabalho universitário para os estudos clássicos, cabia agora ao professor Cavalcante dar continuidade a esse trabalho. E assim foi.

Na sequência, tornando-se catedrático de grego, o professor Cavalcante acumulou várias funções administrativas referentes aos cursos de Grego, de Letras e da Faculdade. No caso específico do curso de grego, nunca deixou de cumprir sua carga horária de aulas, dividida igualmente entre todos os docentes. Na divisão das aulas, tinha certa preferência pelos assuntos filosóficos, mas podia se dedicar à leitura de qualquer texto. Foi um excelente professor, não só pelo conhecimento amplo e profundo ou pela experiência didática, mas pela força interior que emanava e estimulava os alunos. Acreditava que um bom trabalho docente garantiria a sobrevivência do curso, já que, naquela época, era necessário estar atento às insinuações sobre a existência de cursos com poucos alunos. Os cursos de grego tinham poucos alunos, entravam poucos no vestibular e a estrutura curricular não permitia aberturas.

De uma maneira geral, o curso de grego mantinha a estrutura básica dos anos anteriores. Às vezes, acontecia de o professor propor uma mudança no programa, que nem sempre era acatada por todos os docentes da área. No entanto, como era um chefe aberto a discussões, ouvia os argumentos contrários e, conciliador, vencia a disputa com o argumento de que implantaria a nova disciplina e seria seu primeiro professor.

Lembro-me de duas ocasiões em que isso aconteceu. Uma vez, foi a proposta de introduzir uma disciplina sobre os pré-socráticos; outra vez sobre a lírica grega arcaica. As críticas em relação às duas disciplinas se concentravam na dificuldade de lidar com textos muito fragmentados e de difícil tradução. Além disso, havia a carência de boas traduções dos poemas e fragmentos e da bibliografia de apoio. O professor gostava dos pré-socráticos e dos trabalhos dos filósofos alemães que tinham boa repercussão na época, mas eram muitas dificuldades para um segundo ano de grego.

Resumindo, as disciplinas foram ministradas por ele e os resultados foram positivos. Não houve quem não gostasse dos cursos, sobretudo, pela maneira inovadora de apresentar o material fragmentário que, por ser fragmentado, abria a possibilidade de outras interpretações. Nos dois casos, o professor organizou o material, procurando na biblioteca tudo o que poderia ser consultado e fez várias traduções dos textos utilizados. Os resultados foram positivos porque abriram novas linhas de pesquisa na área de grego, como confirmam as monografias e teses que apareceram posteriormente.

A coleção de poemas dos poetas líricos, que ele traduziu e usou em seu curso de Lírica, foi publicada na revista Remate de Males, 4, da Unicamp, em 1984 [https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636374/4083]. Da mesma forma, o primeiro volume da Coleção Os Pensadores sobre “Os pré-socráticos” (Abril Cultural, 1973), que ele organizou e traduziu com a colaboração de vários colegas, tem seu embrião no curso dos pré-socráticos.

Em 1970, o professor Cavalcante ampliou sua atividade didática, passando a dar aulas de filosofia antiga no departamento de Filosofia. Foi um momento difícil, em plena ditadura militar, quando o departamento perdeu vários professores importantes: alguns privados de seus direitos políticos e outros exilados. O departamento corria o risco até mesmo ser fechado por falta de professores e, sobretudo, de professores titulares. Por esse motivo, recorreram ao Professor Cavalcante que jamais se negaria a colaborar numa situação tão grave. Outros professores também vieram ajudar a recompor o quadro. Desde então, começou a ministrar aulas de filosofia antiga e, quando a situação se resolveu, ele continuou até a aposentadoria. Não bastasse isso, acho importante registrar, deixou na revista “Discurso”,2, publicada pelo departamento de Filosofia, um de seus melhores artigos: “A reminiscência em Platão” (1971) [http://www.revistas.usp.br/discurso/article/view/37720], além de “Para uma leitura da Física de Aristóteles”, “Discurso”, 11, 1979 [http://www.revistas.usp.br/discurso/article/view/37867].

No início de 1988, professor Cavalcante se aposentou na Universidade de São Paulo. Lembro-me de que seu último curso de pós-graduação nas Letras foi sobre a tradução e comentários das Píticas de Píndaro, poeta que ele admirava muito e apreciava traduzir. Vinha às aulas, com suas folhas datilografadas, que guardavam suas preciosas traduções. Não sei se chegou a traduzir todas, porque nunca as publicou, mas a Ode Pítica VIII, apareceu na revista Almanaque, 8, em 1978, bem antes de seu curso.

Em seguida, foi para a Unicamp. Não mudou apenas o local de trabalho, mas também o domicílio: foi para Valinhos no interior de São Paulo. Foi um completo afastamento dos colegas e amigos da USP. Raramente tínhamos notícias dele. Quando voltei a reencontrá-lo, em São Paulo, ele tinha sofrido o AVC, poucos anos antes, mas tinha conseguido, em 2016, publicar a tradução de Fedro, com o auxílio do J.A.A. Torrano, e dar nova edição ao Banquete, os dois pela Editora 34. No dia do reencontro, levei comigo os dois livros de Platão para que ele os assinasse, o que fez com muita dificuldade.

*Filomena Hirata é professora aposentada de língua e literatura grega na USP.