Carta a Manuela D’Ávila

Paul Klee (1879–1940), Jardins do Templo, 1920.

Por JULIAN RODRIGUES*

Você vem suportando tudo sem se curvar, com dignidade e leveza

Manu, Manu

É muito ódio sobre seus ombros, sua linda. Demais da conta. A brutalidade crua deles ultrapassa qualquer racionalização política que a gente tente fazer. Sabemos quem eles são e como operam. Conhecemos todos os mecanismos manejados nos últimos anos. A gente conhece a forma como espalham a violência, sabemos o quão nojentos são. A violência desses neofascistas tem foco. Odeiam em primeiro lugar as mulheres, as pessoas negras, as LGBT e todas progressistas.

A rede de mentiras e perseguição começou bem antes, não foi? Muito antes da maioria de nós perceber o que seria essa máquina extremista de moer gente de esquerda. Bem antes da popularização do conceito de fake news – ou da compreensão das engrenagens difamatórias. Algumas de nós fomos atacadas prioritariamente – digamos assim. Jean, Maria do Rosário e você, Manu, foram vítimas quase exclusivas em determinado período, das redes violentas da extrema-direita. Como se tudo fosse um ensaio do que viria a ser o modus operandi – o padrão do bolsonarismo em ascensão.

Claro, não há só os poucos alvos mais visados. Disseminam preconceito generalizadamente. A ofensiva neofascista matou Marielle,  depôs Dilma, prendeu Lula, inventou mamadeiras de piroca para barrar a eleição de Haddad. E você despertou um ódio extra-forte-plus-adicional  na malta fascistoide.

Os caras não toleram de jeito maneira uma mulher linda, inteligente e popular.. Uma mina que é comunista desde a adolescência. Que tem muito voto. Que é articulada. Que defende os direitos humanos. Que é feminista – falando  abertamente a favor dos direitos sexuais/reprodutivos das mulheres – ainda por cima, amiga das LGBT.  Nunca antes na história desse país uma mulher de 37 anos havia sido candidata à vice-presidência da República. Tem noção? Veja bem: uma mulher comunista, jovem, bonita, articulada e feminista.

Pensa no nosso amigo. Jean: bicha preta nordestina,  socialista, carismática,  inteligente. Virou deputada – foi   demais para  os caras.  Então:  Manuela D’ávila: mulher  – radical e ampla,  que sempre namorou quem ela quis  e quando quis, jovem, empoderada, com tatoos  – e mais  um caminhão de  votos. Que decidiu ser mãe (sem abdicar da sua trajetória  como figura pública).

Você vem suportando tudo sem se curvar, com dignidade e leveza. Foi para cima dos machistas, das tropas bolsonaristas (muitas vezes sem nem mesmo contar com o apoio integral da esquerda).

Vice-presidenta, prefeita de Porto Alegre. Tocando sua vida pessoal, estudando, escrevendo seus livros, refletindo – nunca abaixou a cabeça para as falanges obscurantistas. Essa turba bolsonarista, uma macharada (sim, é tudo homem branco- cis-hetero) segue te perseguindo – cometendo violências inomináveis contra sua pequenita Laura, contra você, contra sua família.

Jean Wyllys, Tatiana Lionço, Márcia Tiburi, Larissa Bombardi entre outros alvos preferenciais dos fascistas optaram pelo autoexílio. Você, todavia, decidiu ficar. Caminhar tocando sua vida, seus projetos, seguir pintando seu cabelo de todas as cores possíveis. Eles não são capazes de aceitar que essa moça Manu escreveu uma dissertação de mestrado ao mesmo tempo em que fazia campanha para ser vice-presidenta do país. Tá ligada que é too much para esse bando de fascistoides ressentidos ?

Nem consigo imaginar os efeitos perversos, dolorosos dessa violência política incessante na sua vida cotidiana. Haja saúde mental. Mas sei que você é forte, resiliente – se armou. Hoje Manuela é uma das lideranças da esquerda brasileira que melhor entende do ponto de vista teórico os desafios da comunicação – e é uma das maiores influencers da esquerda.

A gente se conhece desde sempre (viva o movimento estudantil) e você sabe que sempre fui teu fã (mesmo, às vezes irritando meu PT). Te desejo muita casca dura, sabedoria e leveza. O futuro da esquerda brasileira passa por alguns talentosos jovens quadros socialistas, com formação política, carisma, antenadas com as pautas contemporâneas. Ou seja: passa, entre muitas, por você, necessariamente.

Desde agora até 2022 estamos diante do desafio de derrotar o bolsonarismo e eleger Lula. Você é peça-chave nessa guerra, independente de qual posição vier a ocupar. Bora, como Jean, cuspir na cara dos fascistas again e sempre. Se cuida. Abraça forte o Duca – beijinho na Laura. Nas horas mais duras, lembra que “you´re not alone”.

*Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBTI e de Direitos Humanos