Liderança democrática e manipulação de massas

Imagem: Elyeser Szturm

Por Theodor W Adorno*

Notas sobre as técnicas do agitador fascista e a personalidade de seus seguidores.

Os conceitos de liderança e ação democrática estão tão profundamente envolvidos na dinâmica da moderna sociedade de massa que seu sentido não pode mais ser aceito como dado na presente situação. Em contraste com os príncipes e senhores feudais, a ideia do líder emergiu com a ascensão da democracia moderna. Relacionava-se então com a eleição, pelos partidos políticos, daqueles a quem eles delegavam a autoridade de falar e agir em seu favor e que, ao mesmo tempo, supunham qualificados para guiar o homem comum através da argumentação racional.

Desde a famosa Soziologie des Parteiwesens [in der Modernen Demokratie, Leipzig, 1911; Sociologia dos partidos políticos, UNB, 1982)] de Robert Michels, que não é mais assim: a ciência política demonstrou que essa concepção clássica, rousseauniana, não correspondia mais à realidade. Através de diversos processos, como o enorme crescimento numérico dos partidos modernos, sua dependência a concentradíssimos interesses disfarçados e, enfim, à sua própria institucionalização, o verdadeiro funcionamento democrático da liderança, até o ponto em que ele de fato foi alcançado na realidade, havia desvanecido.

Não obstante o fato de que em decisões importantes a democracia de base, como oposição à opinião pública oficial, vez por outra ainda mostre surpreendente vitalidade, a interação entre partido e liderança tornou-se mais e mais limitada a manifestações abstratas da vontade da maioria através de votações e os mecanismos dessas últimas, em grande parte sujeitos ao controle das lideranças estabelecidas.

A liderança tornou-se em si mesma cada vez mais rígida e autônoma, perdendo, na grande maioria das vezes, contato com as pessoas. Concomitantemente, o impacto da liderança sobre as massas deixou de ser de todo racional, passando a revelar claramente alguns dos traços autoritários que sempre estão latentes onde o poder é controlado por uns poucos. As figuras ocas e infladas de líderes como Hitler e Mussolini, investidas de um falso “carisma”, são as últimas beneficiárias dessas mudanças societárias ocorridas dentro da estrutura de liderança. Trata-se de mudanças que também afetam profundamente as próprias massas. Quando as pessoas sentem que realmente não estão em condições de determinar seu próprio destino, como aconteceu na Europa; quando se desiludem a respeito da autenticidade e efetividade dos processos políticos democráticos; então, elas são tentadas a entregar a substância da autodeterminação democrática e arriscar sua sorte com aqueles que eles ao menos consideram poderosos: seus líderes.

Freud[i] descreveu as organizações hierárquicas, como exércitos e igrejas, em termos de mecanismos de identificação e introjeção autoritários que podem se impor sobre grande número de pessoas, sem exceção dos grupos cuja essência é o antiautoritarismo, como são, antes de mais nada, os partidos políticos. Embora aparentemente distante agora, esse perigo é a contrapartida dos procedimentos com os quais uma liderança procura se autoperpetuar. A observação geralmente feita de que, hoje, a democracia fomenta os movimentos e forças antidemocráticas é um dos mais claros sinais de manifestação desse perigo.

Em função disso, é preciso dar um sentido mais concreto às ideias de democracia e liderança, se é para prevenir sua transformação em meras palavras, quando não em disfarces de situações totalmente opostas às indicadas por seu significado. O conhecimento de que a maioria das pessoas frequentemente age de maneira cega e de acordo com a vontade de figuras demagógicas ou instituições poderosas, contrariando ao mesmo tempo os princípios básicos da democracia e de seu próprio interesse racional, atravessa todos os tempos. Apareceu muito tempo antes de Ibsen torná-la a tese de seu O inimigo do povo [1882]; na realidade, desde que o problema da oclocracia surgiu pela primeira vez na antiga Grécia.

Aplicar a ideia de democracia de maneira meramente formalista, aceitar a vontade da maioria per se, sem considerar o conteúdo das decisões democráticas, pode levar à completa perversão da democracia e, derradeiramente, à sua abolição. Hoje mais do que nunca, é função da liderança democrática tornar os seus sujeitos, o povo, conscientes de seus próprios desejos e necessidades contra as ideologias que são marteladas em suas cabeças pelos inumeráveis canais de comunicação dos interesses disfarçados. As pessoas precisam entender que aqueles princípios democráticos, uma vez violados, impedem o exercício de seus próprios direitos e podem fazê-las passar de sujeitos autodeterminados a objetos das mais obscuras manobras políticas.

Numa era como a nossa, quando o feitiço de uma cultura de massas controladora do pensamento se tornou quase universal, esse postulado, portador do melhor do senso comum, parece utópico. Certamente seria idealismo ingênuo presumir que uma coisa assim possa ser alcançada apenas através de meios intelectuais. A consciência e a inconsciência das massas têm sido condicionadas pelos poderes existentes em tal extensão que não basta apenas “dar-lhes os fatos”. Paralelamente, porém, ocorre que o progresso tecnológico tornou as pessoas tão “racionais”, céticas, alertas e resistentes contra todos os tipos de contrafação que não pode haver dúvida a respeito da existência de fortes contratendências aos penetrantes padrões ideológicos existentes em nosso ambiente cultural. Acontece muitas vezes de as pessoas se conservarem indiferentes mesmo diante da mais intensa pressão propagandística, se estão em jogo questões importantes. O esclarecimento democrático tem de se apoiar nessas contratendências e essas, por sua vez, devem se basear em todos os recursos do conhecimento científico a nós disponíveis.

As tentativas nessa direção podem ter um ponto de apoio profundo na própria ideia de liderança, mas, para tanto, seria preciso fazer um desmascaramento sem medo do tipo de liderança promovido por toda parte pela moderna sociedade de massa, na medida em que ele fortalece uma transferência irracional ou identificação inconciliáveis com a autonomia intelectual, núcleo do ideal democrático. Outrossim, o esclarecimento democrático deve impor umas exigências muito definidas à liderança democrática. Na hipótese de desejar ela construir tendências objetivas e progressistas dentro da mente das massas, isso não pode significar, sequer em imaginação, que ela venha a fazer uso dessas tendências; que, sob o pretexto de favorecer metas democráticas e através da exploração ardilosa de sua mentalidade, ele deva manipular as massas. Ao invés de uma escravização adicional, o que é preciso [agora] é a emancipação da consciência.

O verdadeiro líder democrático, que é mais do que um mero expoente dos interesses políticos da ideologia liberal, necessariamente teria de se abster de qualquer especulação “psicotécnica”, de qualquer tentativa para influenciar as massas ou grupos de pessoas através de meios irracionais. Sob nenhuma circunstância ele deve tratar os sujeitos da ação política e social como meros objetos a quem uma ideia é vendida, pois essa atitude geraria uma inconsistência entre fins e meios que poderia não apenas prejudicar toda a sinceridade da sua aproximação como destruir suas convicções interiores. Pragmaticamente uma tentativa como essa se esgotaria na habilidade daqueles que pensam e agem apenas em termos de poder, que são amplamente indiferentes à validade objetiva de uma ideia e que, desembaraçados das “ilusões humanitárias”, subscrevem como um todo a atitude cínica de considerar os seres humanos como matéria bruta passível de ser moldada à vontade.

Durante a crise da República de Weimar, por exemplo, o Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold, uma organização liberal progressista bastante numerosa, tentou se contrapor ao esquema de emprego racional de estímulos de propaganda irracional dos nazistas introduzindo outros símbolos. Contra a Swastika, eles criaram as três flechas. Contra o grito de guerra Heil Hitler, o Frei Heil, mais tarde alterado para Freiheit. O fato de que esses símbolos muito mal misturados da democracia alemã não eram sequer conhecidos no país serve de evidência do seu completo fracasso. Foi fácil para a máquina de Goebbels ridicularizá-los. Inconscientemente, as massas perceberam muito bem que esse tipo de contrapropaganda era mera tentativa de roubar uma folha do livro nazista; que, como tal, ela era inferior e que, de certo modo, o próprio ato de emulação em que se baseava era sinal de derrota.

[Esclarecimento democrático versus propaganda fascista]

Cremos que não é ousadia demais aplicar a lição dessa experiência à nossa própria cena. A tarefa da liderança democrática, até onde mostra preocupação com a relação das massas com a democracia, não deveria ser fazer uma propaganda melhor e mais abrangente, mas se esforçar para superar o espírito da propaganda através da adesão ao princípio da verdade. Lutando contra Hitler, a liderança aliada acabou reconhecendo esse princípio e fez frente à propaganda doméstica alemã apenas com a exposição dos fatos. Este procedimento não somente provou ser moralmente superior à técnica dos cérebros da propaganda nazista como se mostrou efetivo, ao ganhar a confiança da população alemã.

Reverter a esse princípio todavia envolve um problema da mais alta seriedade. Sempre que afirmada abstratamente, a postulação de sinceridade incondicional soa com uma tentativa de apaziguamento que lembra a da inocência infantil, uma ideia que costuma ser feita em pedaços pelos expoentes da Realpolitik, acima de todos, pelo próprio Hitler. Para conquistar o apoio das massas, reza sua argumentação, há que tomá-las como são, e não como se deseja que sejam. Noutras palavras, é preciso mexer com sua psicologia: é inútil difundir a verdade objetiva sem uma avaliação dos sujeitos a quem é direcionada. Considerando que ela pode ultrapassar sua compreensão, pode ocorrer de ela jamais chegar até eles e, assim, ser completamente ineficiente.

De acordo com o raciocínio de Hitler, a propaganda tem se ajustar ao mais estúpido entre aqueles a quem ela se dirige; ela não deve ser racional mas emocional. Trata-se de uma fórmula que provou ser tão bem-sucedida que evitá-la parece levar a uma situação inviável. A própria eficácia da princípio de verdade da propaganda de guerra aliada, arguir-se-ia nessa linha, poderia ter sido produto de meras condições psicológicas: a verdade só se tornou aceitável e sedutora atendendo a uma necessidade que só surgiu depois de serem quebrados o sistema de mentira total goebbelsiano e as promessas de uma guerra curta e de proteção da terra natal contra os ataques aéreos feita pelos nazistas.

Por outro lado, nenhuma análise comedida da cena americana poderia deixar de constatar que a própria propaganda é fortemente libidinosa. Numa cultura de negócios na qual a publicidade se tornou uma instituição pública de dimensões assustadoras, as pessoas realmente se encontram ligadas não apenas aos conteúdos  mas aos próprios mecanismos da propaganda. Por mais vicária ou mesmo espúria que possa ser, a propaganda moderna é em si mesma uma fonte de gratificação.

A renúncia à propaganda requereria pois uma renúncia instintiva por parte das massas que a ela estão expostas, e isso é algo que tem a ver não apenas com a beleza de cozinha com que está associada “sua sopa favorita”, mas, em um sentido profundo mais efetivo e sutil, à própria propaganda política. Os campeões da propaganda fascista, por exemplo, lograram desenvolver um ritual que, para seus aderentes, ocupa um lugar muito mais amplo que qualquer programa político bem desenhado.

Para o observador superficial, a esfera política parece pois destinada a ser monopolizada pelos ardilosos homens de propaganda: a política é vista por um vasto número de pessoas como um campo para iniciados, senão de politiqueiros e chefes de máquinas partidárias. O problema é que, quanto menos as pessoas acreditam na integridade política, mais facilmente podem cair nas mãos dos políticos que vociferam contra os políticos. Enquanto o princípio de verdade e seus processos intrinsecamente racionais exigem um certo esforço intelectual que provavelmente não atrairá muitos amigos, a propaganda em geral e a fascista em particular estão inteiramente adaptadas à chamada linha de menor resistência.

O princípio da verdade continuará sendo, portanto, uma afirmação escorregadia, a menos que seja formulado mais concretamente. Nesse caso, as tarefas seriam duas. Primeiro, seria preciso descobrir uma abordagem que não faça a menor concessão àquelas aberrações que são quase inevitáveis, sempre que as comunicações são adaptadas a seus consumidores potenciais. Conjuntamente, ter-se-ia de passar pelas barreiras da inércia, da resistência e dos padrões de comportamento mental condicionados. Para os que lamentam a imaturidade das massas tudo isso pode parecer uma empresa sem esperança. Entretanto, o argumento segundo o qual as pessoas têm de ser tomadas como de fato são é apenas meia verdade; ele passa por alto algo que ainda está muito vivo, o potencial de autonomia e espontaneidade das massas. É impossível dizer se o tipo de abordagem proposto aqui eventualmente terá sucesso, e a razão por que ele jamais foi testado em larga escala deve ser procurada no próprio sistema [social] dominante. A despeito disso, é essencial que ele deva ser testado.

Como primeiro passo, as comunicações deveriam se comprometer com a verdade e tentar se desenvolver no sentido da superação dos fatores subjetivos que tornam a verdade inaceitável. O estágio psicológico da comunicação [da liderança democrática], não menos do que seu conteúdo, deveria respeitar o princípio da verdade. Embora o elemento irracional tenha de ser devidamente considerado, não deve ser aceito como dado mas, antes, como algo que deve ser atacado com e pelo esclarecimento. A integridade factual e objetiva deveria ser combinada com o esforço para promover o discernimento das disposições irracionais que dificultam o julgamento racional e autônomo por parte das pessoas.

A verdade a ser difundida pela liderança democrática precisa ser relacionada a certos fatos que costumam ser obscurecidos por distorções arbitrárias e, em muitos casos, pelo próprio espírito de nossa cultura. Seu objetivo é estimular a autorreflexão naqueles que desejamos ver livres das garras do condicionamento todo-poderoso. Trata-se de metas que se justificam sobretudo se levarmos em conta que dificilmente pode haver dúvida de que há uma interação íntima entre ambos os fatores: as ilusões da ideologia antidemocrática e a ausência de introspecção (devida em grande parte aos mecanismos de defesa).

Visando ser eficiente, nossa abordagem pressupõe um amplo conhecimento da natureza e conteúdo dos estímulos antidemocráticos aos quais as massas estão expostas na atualidade. Requer conhecimento das necessidades e anseios que fazem as massas sensíveis a esses estímulos. Obviamente, os principais esforços da liderança democrática deveriam ser direcionados àqueles pontos onde as disposições subjetivas e os estímulos antidemocráticos coincidem.

Considerando a complexidade do problema, contentamo-nos aqui em discutir uma área limitada, mas altamente crítica, em que os efeitos e estímulos estão fortemente concentrados: a do ódio racial em geral e, em particular, do totalitarismo antissemita. Salientou-se que esse último, até onde está em questão seu ângulo político, é um fenômeno per se, a ponta de lança do antidemocratismo, muito mais do que uma manifestação espontânea. Existem poucas áreas em que o caráter manipulatório do antidemocratismo é mais revelador do que aqui. Simultaneamente porém acontece de se nutrir ele de tradições arcaicas e fortes fontes emocionais. Os demagogos fascistas normalmente chegam ao pico de sua performance quando mencionam e rebaixam os judeus. Esse é um fato indiscutível, que sempre ocorre em toda a forma de antissemitismo e que, como tal, é indicativo da existência de certos desejos mais ou menos articulados de destruição da própria democracia, na medida em que não há democracia sem o princípio da igualdade humana.

Algumas pesquisas científicas que lançaram luz sobre essa relação entre suscetibilidade e estímulos servem de ponto de partida para nossa abordagem. O Instituto de Pesquisa Social examinou, no tocante aos estímulos, as técnicas dos agitadores fascistas norte-americanos, tipificados por suas abertas simpatias por Hitler e a Alemanha nazista.[ii] Esses estudos mostraram claramente que os agitadores fascistas americanos seguem um modelo rígido e altamente padronizado que se baseia quase inteiramente em seu conteúdo psicológico. Não há programas políticos positivos. Recomendam-se apenas medidas negativas, sobretudo contra as minorias, dado que servem de escoadouro para a agressividade e a fúria de seus sentimentos reprimidos.

A totalidade dos discursos dos agitadores, monotonamente similares uns aos outros, representa antes de mais nada uma performance com o propósito imediato de criar a atmosfera desejada. Enquanto a superfície pseudopatriótica dessas comunicações é uma mistura de trivialidades pomposas e mentiras absurdas, seu sentido subjacente apela para os anseios secretos da audiência: elas irradiam destruição. A convergência entre esses homens que sonham em ser o Führer e seus potenciais seguidores descansa no sentido oculto que, através de repetição incessante, é martelado na cabeça desses últimos. Os conteúdos ideacionais das falas e panfletos desses agitadores podem ser reduzidos a um pequeno número – não mais que vinte – de expedientes mecanicamente aplicados. O agitador não espera que a audiência se aborreça pela constante repetição desses expedientes e slogans batidos. Acredita que é a pobreza intelectual de seu quadro de referência que fornece o halo de autoevidência, senão uma atração peculiar, àqueles que sabem o que podem esperar para si mesmos, da mesma forma como as crianças desfrutam da repetição literal e interminável de uma mesma história ou cançoneta.

[O “caráter fascista”]

 O problema da suscetibilidade subjetiva ao antissemitismo e ao antidemocratismo foi examinado pelo Projeto de pesquisa sobre discriminação social, uma empresa conjunta do Grupo de estudo sobre opinião pública de Berkeley e o Instituto de Pesquisa Social.[iii] O principal tema do estudo é a conexão entre, por um lado, as motivações e os traços psicológicos e, de outro, as atitudes sociais e ideologias políticas e econômicas. As descobertas ampliaram o apoio à hipótese de que há uma separação muito clara entre as personalidades autoritárias e antidemocráticas e aqueles cuja construção psicológica está em harmonia com os princípios democráticos. Forneceu-nos evidência de que existe um “caráter fascista”.

Embora possam ser encontradas variações muito definidas desse caráter entre a população, existe um núcleo concreto e tangível, uma síndrome comum mais ampla, que pode ser bem definida como a do autoritarismo. Enquanto tal, ela combina adulação e subserviência aos fortes com agressividade sádica contra os fracos. O caráter fascista relaciona-se mais fortemente às atitudes discriminatórias e contra as minorias do que às ideologias políticas abertas; em outras palavras, a suscetibilidade aos estímulos fascistas não se estabelece através do credo superficial dos sujeitos mas, antes, no plano psicológico e caracterológico de sua existência.

A comparação dos resultados desses dois estudos corrobora a hipótese teórica de que existe uma afinidade muito íntima entre o sentido dos expedientes político-psicológicos do fascismo e a estrutura caracterológica e ideológica daqueles a quem se dirige sua propaganda. Provavelmente, o agitador fascista tende a ter o caráter fascista. Aquilo que tem sido observado em relação a Hitler – o fato de que era um psicólogo prático e astuto e que, a despeito de sua aparente loucura, tinha muita noção das disposições de seus seguidores – vale para seus imitadores americanos que, casualmente, sem dúvida tinham familiaridade com as receitas tão cinicamente oferecidas por ele em Mein Kampf. Algumas ilustrações da harmonia existente entre suscetibilidade e estímulos bastam para mostrá-lo.

A técnica muito geral de repetir sem parar certas fórmulas rígidas, empregada pelos agitadores, se harmoniza com a inclinação compulsiva para pensar de maneira rígida e estereotipada da personalidade fascista. Para a personalidade fascista tanto quanto para seu líder potencial, o indivíduo é mero espécime de seu tipo. É isso que, em parte, dá conta da divisão fixa e intransigente entre dentro e fora do grupo nela existente. De acordo com a famosa descrição feita por Hitler, o agitador distingue implacavelmente entre ovelha e coelho, aqueles que têm de ser salvos, os escolhidos, “nós”, e aqueles que não são bons nem para se fazer mau proveito, que são condenados a priori e devem morrer, “eles”, os judeus.

De maneira análoga, a personalidade ou caráter fascista está convencido de que todos aqueles que pertencem a seu próprio clã ou grupo, seus amigos e parentes, são o tipo certo de gente, ao passo que tudo que é estranho é visto com suspeita e, moralisticamente, rejeitado. Assim, o compasso moral do agitador e seus potenciais seguidores tem dois gumes. Embora ambos exaltem os valores convencionais e, antes de mais nada, exijam total lealdade às pessoas do mesmo grupo, nenhum deles reconhece deveres morais para com os outros.

O agitador professa indignação contra os sentimentalistas do governo, que querem enviar “ovos ao Afeganistão”, da mesma forma como a personalidade preconceituosa não sente piedade pelos pobres e se inclina a considerar os desempregados como preguiçosos naturais, um estorvo, e o judeu, como um desajustado, um parasita, que também poderia ser eliminado. O desejo de extermínio está conectado com as ideias de sujeira e podridão, caminhando lado a lado com a ênfase exagerada em valores físicos externos, como asseio e limpeza.

O agitador jamais cansa de denunciar os judeus, os estrangeiros e os refugiados como vermes e sanguessugas.

Finalmente, poderíamos mencionar o consenso existente entre os agitadores fascistas e o caráter fascista, algo que só pode ser explicado através da psicologia profunda. O agitador posa como o salvador de todos os valores estabelecidos e de seu país, mas está sempre reiterando pressentimentos sinistros e obscuros, a “ruína iminente”. Podemos encontrar elementos semelhantes na composição da personalidade preconceituosa, que sempre sublinha o positivo, a ordem conservadora das coisas, e condena as atitudes críticas, por serem destrutivas. Experimentos com o Teste de percepção temática de Murray mostraram claramente que ela exibe fortes tendências destrutivas em sua própria atividade imaginária espontânea. O indivíduo preconceituoso vê em toda a parte a ação das forças do mal e costuma ser vítima fácil de todos os tipos de superstição e temores de catástrofe mundiais. Objetivamente, ele parece preferir a situação caótica à ordem estabelecida em que finge acreditar: ele se considera conservador, mas seu conservadorismo é uma impostura.

A correspondência entre os padrões reativos e estímulos acima notada é de primordial importância em uma abordagem limitada como a nossa, pois nos permite usar a técnica da mentira dos agitadores como guia para, realisticamente, pôr em prática o princípio da verdade. Lidando adequadamente com os expedientes do agitador, poderíamos não apenas reduzir a eficácia de sua técnica de manipulação de massa, altamente perigosa do ponto de vista de seu potencial, mas apanhar as características psicológicas que dificultam a um grande número de pessoas aceitar a verdade.

No plano racional, as asserções feitas pelo agitador são tão espúrias, tão absurdas, que deve haver razões emocionais muito poderosas para explicar por que ele se sai com elas. Além disso, podemos presumir que a audiência de algum modo sente esse absurdo. Porém, ao invés de se desanimar com isso, acontece que ela o desfruta. É como se a energia da fúria cega fosse dirigida contra a ideia de verdade mesma, como se a mensagem realmente saboreada pela audiência fosse inteiramente diferente de sua apresentação pseudofactual. É exatamente esse ponto crítico que deveria ser o alvo de nosso ataque.

As conotações psicanalíticas de nossa discussão são óbvias. Transportar o princípio da verdade para além do nível das afirmações factuais e da refutação racional, o que até agora se mostrou ineficiente ou, pelo menos, insuficiente nesta área,[iv] e traduzi-lo em termos da personalidade dos sujeitos seria equivalente a fazer uma psicanálise em escala de massa. Obviamente isso não é factível. Além das considerações econômicas que excluem esse método e o limitam a casos selecionados,[v] há uma razão mais intrínseca que deve ser mencionada. O sujeito fascista não é uma pessoa doente; não mostra qualquer sintoma, no sentido clínico ordinário. O Projeto de pesquisa sobre discriminação social parece indicar que, realmente e em muitos aspectos, ele é menos neurótico e, ao menos superficialmente, mais bem ajustado que a personalidade não preconceituosa.

As deformações que sem dúvida existem na raiz da personalidade preconceituosa pertencem à esfera das “neuroses de caráter”, que, como tem sido reconhecido pela psicanálise, são as mais difíceis de curar e, quando o são, somente através de um tratamento prolongado. Nas condições dominantes, a liderança democrática não pode esperar mudar a base das personalidades daqueles de cujo apoio depende a propaganda antidemocrática. Ela tem de se concentrar no esclarecimento das atitudes, ideologias e condutas, fazendo o melhor uso possível dos discernimentos revelados pela psicologia profunda, sem se aventurar em empreendimentos psicoterapêuticos.

Obviamente, um programa como esse possui algo de círculo vicioso: uma penetração substancial nos poderosos mecanismos de defesa do caráter fascista é algo que, realmente, só pode ser esperado através de uma análise completa, que está fora de questão. No entanto, tentativas nesse sentido deveriam ser feitas. Existem “efeitos de alavanca”, para usar a expressão freudiana, na dinâmica psicológica. Embora seja fato que eles raramente ocorrem o bastante na vida cotidiana do indivíduo, a liderança democrática talvez possa se colocar em uma posição favorável à sua indução, dado que não pode se contentar apenas com transferência psicológica, mas, ao contrário, deve se apoiar nas fontes da verdade objetiva e do interesse racional.

[Manual antifascista]

Nesse sentido, nosso conhecimento dos expedientes dos agitadores pode se mostrar muito prestativo. Podemos derivar dos mesmos como que vacinas contra a doutrinação antidemocrática. Essas vacinas são mais poderosas do que a mera reiteração das provas de falsidade das várias alegações antissemíticas. O panfleto ou manual que foi desenvolvido conjuntamente pelo Autor e Max Horkheimer descreve cada um dos expedientes padrão usados pelos agitadores, a diferença entre suas pretensões abertas e suas intenções ocultas, e os mecanismos psicológicos específicos que encorajam respostas dos sujeitos aos estímulos padronizados.

O manual não passou do estágio preliminar e ainda se coloca a ele a tarefa extremamente difícil de traduzir as descobertas objetivas em que se baseia em uma linguagem que possa ser facilmente entendida, sem que se dilua sua substância. Trata-se de uma tarefa que deve ser realizada através do método da tentativa e erro, através do teste da inteligibilidade e eficiência do manual para os vários grupos, e de seu contínuo melhoramento, antes que seja distribuído em larga escala. Objetivamente, uma distribuição prematura poderia ser mais nociva do que boa.

De qualquer modo o que é importante para nós aqui é a abordagem como tal, e não sua elaboração final. Seus méritos parecem descansar no fato de que combina o princípio intransigente da verdade com a chance real de atingir alguns pontos neurais do antidemocratismo. Para tanto é que procura a elucidação desses fatores subjetivos que impedem a consecução da verdade. O mínimo que pode ser dito em favor de nossa abordagem é que ela induzirá as pessoas a refletir sobre suas próprias atitudes e opiniões, que aceitam como dadas, sem cair na atitude moralizadora ou admoestadora. Tecnicamente trata-se de uma tarefa até certo ponto fácil, dado o número muito limitado de expedientes empregado pelos agitadores.

Nosso enfoque sem dúvida levantará algumas objeções pesadas, seja em termos políticos, seja em termos psicológicos. Politicamente, pode ser arguido que os interesses de poder existentes por trás do reacionarismo contemporâneo são muito mais fortes de serem vencidos do que qualquer “mudança de pensamento”. Também pode ser dito que os movimentos políticos de massas modernos parecem ter um momento sociológico próprio, que é completamente impermeável aos métodos introspectivos.

A primeira objeção não pode ser totalmente contestada com base na [análise da] relação entre líder e massa, mas tem de ser vista em conexão com as constelações existentes dentro do campo do poder político. A segunda não nos parece válida sob as circunstâncias atuais, embora pudesse ser importante numa situação pré-fascista muito pronunciada. Ela tende a subestimar o elemento subjetivo do desenvolvimento social e a fetichizar a tendência objetiva. O momento sociológico não pode ser hipostasiado. A hipótese sobre a existência de uma mentalidade de grupo é quase toda mitológica. Freud assinalou muito convincentemente que as forças que servem como cimento irracional dos grupos sociais, tais como salientadas por autores como Le Bon, funcionam realmente dentro de cada indivíduo do grupo e, por isso, não podem ser vistas como entidades independentes da dinâmica psicológica do indivíduo.

Considerando que a ênfase de nossa abordagem repousa principalmente no plano psicológico, a crítica vinda nessa direção merece uma discussão mais detalhada. Argumentar-se-ia que nós não podemos antecipar qualquer “efeito profundo” para nossa vacinação. Admitindo-se a correção de nossa hipótese sobre a subjacência de um potencial para o desenvolvimento do caráter fascista, que existe na harmonia preestabelecida entre ele e os expedientes dos agitadores, segue-se que não podemos esperar que o desmascaramento desses expedientes altere substancialmente suas atitudes, já que elas parecem ser antes reproduzidas do que engendradas pelas arengas dos agitadores.

Na medida em que nós realmente não tocamos na interação de forças existente no inconsciente de nossos sujeitos, nossa abordagem precisa se manter racionalista, ainda que atribua disposições irracionais ao seu objeto de estudo. O discernimento abstrato das próprias irracionalidades por parte desses sujeitos, privado da penetração de suas motivações reais, não funcionaria necessariamente de maneira catártica. No curso de nossos estudos encontramos numerosas pessoas que embora admitam que “não devam ser preconceituosas” e exibam algum conhecimento das fontes que as tornam assim, todavia sustentam firmemente essa síndrome. Destarte convém que não se subestime a função do preconceito no domínio psicológico do próprio indivíduo, nem na força de sua resistência. Embora as objeções feitas acima indiquem limitações muito claras de nossa abordagem, elas não deveriam nos desencorajar inteiramente.

[A personalidade preconceituosa]

Para iniciar sem ir muito a fundo, consideremos a surpreendente ingenuidade política de um grande número de pessoas – de nenhum modo apenas as sem educação. Os programas, plataformas e slogans [autoritários] são aceitos pelo seu valor de face; julgados pelo que parece ser seu mérito imediato. Deixando de lado a suspeita um tanto vaga sobre os burocratas e a rapina política, suspeita essa que, note-se, é característica da personalidade antidemocrática muito mais do que a que lhe é oposta, a ideia de que as metas políticas escondem muito dos interesses daqueles que os defendem é estranha a muitas pessoas. Ainda mais estranha, porém, é a ideia de que as próprias decisões políticas dependem em grande parte de fatores subjetivos sobre os quais nem mesmo pode-se estar atento. O shock causado pelo chamamento à atenção para essa possibilidade pode ajudar a produzir o efeito de alavanca acima mencionado.

Embora nossa abordagem não pretenda reorganizar o inconsciente daqueles que esperamos alcançar, pode revelar-lhes que eles mesmos, tanto quanto sua ideologia, representam um problema. As chances de conseguir isso são fortes pelo fato de que o antissemitismo escancarado ainda é julgado como algo de baixa reputação, de que aqueles que se entregam a ele o fazem com má-consciência e de que, por isso, eles se acham até certo ponto numa situação de conflito. Dificilmente pode haver qualquer dúvida de que a transição da atitude ingênua para a reflexiva produz um certo enfraquecimento de sua violência. O controle do ego é fortalecido, mesmo se o ego não é tocado. A pessoa que percebe o antissemitismo como um problema, mais ainda, que ser um antissemita é um problema, provavelmente será menos fanática do que alguém que, em sentido e alinhado, engole a isca do preconceito.

A possibilidade de revelar aos sujeitos seu antissemitismo pelo que ele é: seu próprio problema interno, é ainda mais importante pelas seguintes considerações psicológicas. Como tem sido notado, a pessoa preconceituosa externaliza todos os valores: ele acredita firmemente na importância última de categorias como natureza, saúde, respeito aos padrões estabelecidos etc. Revela relutância bem definida contra a introspecção e é incapaz de pôr a culpa em si mesma ou naqueles com que se identifica. Os estudos clínicos não têm dúvida que essa atitude é sobretudo uma formação reativa. Embora sendo superajustado ao mundo externo, a pessoa preconceituosa se sente insegura em nível mais profundo.[vi]

A falta de vontade de olhar para si mesma é, antes de mais nada, uma expressão do medo de fazer descobertas desagradáveis. Noutras palavras, algo que esconde os conflitos subjacentes à sua personalidade. Entretanto, como esses conflitos inevitavelmente produzem sofrimento, a defesa contra a autorreflexão não deixa de ser ambígua. Embora o indivíduo preconceituoso deteste ver seu próprio “lado mau”, ele não obstante espera algum tipo de alívio da hipótese de vir a se conhecer melhor do que ele o faz normalmente.

A dependência de muitas pessoas preconceituosas à direção externa, sua prontidão em consultar as descrições oferecidas por todos os tipos de charlatões, do astrólogo ao colunista de relações humanas, são, ao menos em parte, expressões distorcidas e externas de seu desejo de autoconsciência. Embora sejam inicialmente hostis às entrevistas psicológicas, as pessoas preconceituosas frequentemente terminam derivando algum tipo de gratificação das mesmas, uma vez que ela tenha começado e por mais que ela seja superficial. Trata-se de um desejo latente que, em última análise, é o desejo da própria verdade e que poderia ser satisfeito através das explicações do tipo em que pensamos. Tais entrevistas poderiam dar a essas pessoas o tipo de alívio e acender o que alguns psicólogos chamam de “experiência-surpresa” [aha-experience]. Não se deveria passar por alto que a base desse efeito é preparada pelo prazer narcísico que muitas pessoas obtêm daquelas situações em que se sentem importantes pelo simples fato de serem elas mesmas o foco de interesse.

Contra-argumentando, alguém poderia apontar para o fato indiscutível de que essas pessoas têm de defender seu próprio preconceito, dado que ele satisfaz numerosas funções, que variam desde uma pseudointelectual, o fornecimento de fórmulas fáceis e uniformes para a explicação de todo o mal que existe no mundo, até a criação de um objeto para catexe negativa, de um catalisador da agressividade. Se essas pessoas realmente têm de ser encaradas como portadoras de uma síndrome de caráter, não parece provável que elas vão se emancipar de uma fixação em satisfazer esse objetivo que é determinada pela estrutura interna de sua personalidade, muito mais do que por esse objetivo.

A última observação, todavia, contém um elemento que transcende uma crítica plausível de nossa abordagem. Não é tanto o objetivo, mas a pessoa que importa no tocante ao preconceito. Se, como se diz muitas vezes, o antissemitismo tem muito pouco a ver com os judeus, a fixação do indivíduo preconceituoso sobre os seus objetos de preconceito não deveria ser enfatizada. Ninguém está duvidando da rigidez do preconceito, isto é, da existência de certos pontos cegos que não são acessíveis à dialética da experiência. Entretanto essa rigidez afeta a relação entre o sujeito e o objeto do ódio muito mais do que a escolha do objeto ou mesmo a obstinação com que ele é mantido.

Empiricamente, aqueles que são rigidamente preconceituosos revelam uma certa mobilidade em relação à escolha do seu objeto de ódio.[vii] Isso é algo que nasceu de vários casos estudados no âmbito do Projeto de pesquisa sobre discriminação social. Por exemplo, as pessoas que claramente possuem a síndrome de caráter fascista poderiam – por causa de alguma estranha razão, como ter sido casado com uma mulher judia – substituir os judeus por algum outro eventual grupo, armênios ou gregos, como objeto de ódio.

Entre os indivíduos preconceituosos, a urgência instintiva é tão forte e sua relação com qualquer objeto, sua aptidão afetiva às coisas reais, seja como objeto de amor, seja como objeto de ódio, é de natureza tão problemática, que não se consegue permanecer fiel nem mesmo ao inimigo escolhido. O mecanismo projetivo ao qual o indivíduo se encontra sujeito pode ser desviado de acordo com o princípio da menor resistência e as oportunidades oferecidas pela situação em que ele se encontra.

Acreditamos que nosso manual talvez possa criar uma situação psicológica na qual a catexe negativa dos judeus venha a ser destruída. Isso, é claro, não deve ser mal entendido; não se pretende com isso que alguém, usando de manipulação, substitua os judeus por quaisquer outros grupos como objeto de ódio. Dizemos apenas que a casualidade, arbitrariedade e debilidade do objeto escolhido per se podem ser transformadas em uma força com a qual se poderia fazer que esses sujeitos de mente antissemita duvidassem de sua própria ideologia. Quando eles aprenderem que quem eles odeiam é menos importante do que o fato de que eles odeiam alguma coisa, seus egos poderiam deixar de lado o ódio e, por aí, poderia ser que a intensidade de sua agressividade diminuísse.

Nossa intenção é usar a mobilidade do preconceito para dominá-lo.[viii] Nossa abordagem poderia virar a indignação da pessoa preconceituosa contra o objeto que a merece: os expedientes dos agitadores e a própria ilegitimidade da manipulação fascista. Com base em nossas explicações não seria muito difícil fazer os sujeitos adquirir consciência das trucagens e da insinceridade das técnicas de propaganda antidemocráticas. O importante a esse respeito não é tanto a falsidade objetiva das afirmações antissemitas como o menosprezo por aqueles a quem essa propaganda se dirige e o modo como suas fraquezas são sistematicamente exploradas [por essas técnicas].

Neste aspecto, as forças da resistência psicológica podem trabalhar contra o antidemocratismo mais do que contra o esclarecimento. Ninguém, e menos ainda a personalidade potencialmente fascista, deseja ser tratado como trouxa, mas é exatamente isso que o agitador faz, quando ele relata às suas audiências que elas são feitas de trouxas pelos judeus, banqueiros, burocratas e demais “forças sinistras”. As tradições americanas do senso comum e da resistência às vendas podem ser revitalizadas por meio de nossa abordagem, dado que neste país o pretenso Führer, em muitos aspectos, não passa de um padeiro idolatrado.

[“Nostalgia” fascista]

Existe uma área específica na qual a exploração psicológica, uma vez revelada, é capaz de virar um bumerangue. O agitador geralmente posa de pequeno grande homem, a pessoa que, a despeito de seu exaltado idealismo e infatigável vigilância, pertence ao povo, é um vizinho, alguém próximo dos corações da gente comum, que reconforta por meio de sua simpatia condescendente e cria uma atmosfera de calor e companheirismo. Essa técnica, que, note-se, é muito mais característica do cenário americano do que os bem-planejados encontros de massa nazistas, visa atingir uma condição específica, própria da sociedade altamente industrializada em que vivemos. Na esfera da cultura de massa, esse fenômeno é conhecido como “nostalgia”.

Quanto mais a tecnificação e especialização irrompem nas relações humanas imediatas que estão associadas à família, à oficina e à pequena empresa, mais os átomos sociais que formam as novas coletividades anseiam por abrigo, segurança econômica e pelo que os psicanalistas chamariam de restituição da situação uterina. Parece que uma parcela expressiva dos fanáticos fascistas – a chamada franja lunática – consiste dessas pessoas, sozinhas, isoladas e, de muitos modos, frustradas, em cuja psicologia a citada nostalgia desempenha um importante papel. O trabalho do agitador consiste em astuciosamente conquistar seu apoio, posando como seu vizinho.

Desse modo, porém, um motivo verdadeiramente humano, o anseio por amor, por relações genuínas e espontâneas, é apropriado pelos promotores de sangue-frio do inumano. O próprio fato de que as pessoas sofrem com a manipulação universal é usado de maneira manipulatória. Os sentimentos mais sinceros das pessoas são pervertidos e gratificados fraudulentamente. Ainda que elas caiam nisso durante certo tempo, os desejos envolvidos são tão profundos porém que não há como elas serem [definitivamente] satisfeitas por essa impostura. Tratadas como crianças, as pessoas acabarão reagindo como tais e vindo a perceber que o tio que lhes fala como um bebê só o faz para melhor insinuar seus objetivos ulteriores. Através de experiências como essa pode ocorrer que a energia inerente a seus desejos finalmente se volte contra sua exploração.

[ADENDO]

Primeiramente o manual descreve a diferença entre o orador político e os vários tipos de agitador, propondo alguns critérios a fim de reconhecer o segundo. Adicionalmente, discute os expedientes aos quais a técnica dos agitadores pode ser reduzida, e explica como eles trabalham e quais são seus apelos específicos para os ouvintes.

Em seguida apresentamos dois exemplos dessas discussões:

1. Mártir – O principal propósito do agitador é fazer que dirijamos a ele nosso interesse humano. Ele se diz um homem honesto e independente, que sacrifica tudo à sua causa e vive sob modestas circunstâncias. Ele repete que não é amparado pelo dinheiro grosso ou qualquer poder existente. Particularmente anseia em nos fazer crer que não é um político, mas, antes, está distante e de algum modo acima da política.

Fingir solidão é um modo fácil de capturar nossa simpatia. A vida de hoje é difícil, fria e complicada. Todo mundo de algum modo é solitário. É isso o que ele explora. Sublinhando seu isolamento, parece ser um de nós, alguém que sofre das mesmas causas das quais todos sofremos. Realmente, porém, ele não está sozinho. É o homem com boas conexões e que vai se vangloriar delas sempre que se apresente uma oportunidade. Nesse momento, por exemplo, lerá para nós a carta daquele senador que o elogia pelo seu zelo patriótico.

O agitador fala em termos de venda o tempo todo, mas quer nos fazer crer que não está vendendo nada. Tem medo de nossa resistência às vendas e, por isso, martela em nossas cabeças a ideia de que é uma alma pura, enquanto os outros tentam nos fazer de trouxas. Na condição de publicitário espertalhão, explora até mesmo nossa desconfiança da publicidade.

Sabe que nós ouvimos falar da corrupção e da rapina política, utilizando nossa aversão a esse tipo de coisa para seus próprios objetivos políticos, porque, de fato, é ele o saqueador da política, é ele que tem prepostos, guarda-costas, interesses financeiros obscuros e tudo o mais que pertence à escuridão; [apesar disso] está sempre gritando: “Peguem o ladrão!”

Ainda existe porém mais uma razão para ele fazer o papel de lobo solitário. Ele posa como um ser com tantas necessidades que nos levará a sentir alguma coisa por ele e a sentirmos orgulho disso. Na realidade, somos pobres ovelhas. Enquanto ele tenta cortejar nossa vaidade, sugerindo que tudo depende de irmos em sua ajuda, ele realmente só quer nos tornar seus seguidores, esses homens que só dizem sim e que agem automaticamente de acordo com suas ordens.

2. Se vocês soubessem – Os discursos do demagogo são perpassados por indicações de segredos obscuros, escândalos revoltosos e crimes impronunciáveis. Em vez de discutir questões sociais e políticas de maneira objetiva, ele culpa as pessoas más por todas as doenças que padecemos. Está sempre acusando negociatas, corrupção ou sexo. Ele posa como cidadão indignado, que deseja limpar a casa, e promete fazer revelações sensacionais. Às vezes faz seguir essas promessas de histórias fantásticas, de arrepiar o cabelo. Entretanto, assim como geralmente não mantém sua promessa, ele sugere que seus segredos são pavorosos demais para serem contados em público e que seus ouvintes sabem muito bem do que ele está falando. Ambas as técnicas, a performance tanto quanto a suspensão das revelações, trabalham a seu favor.

Quando ele conta toda a história, fornece a seus ouvintes a espécie de gratificação que costumam obter das colunas de fofoca e páginas de escândalos, só que com cores muito mais reluzentes. Muitas pessoas não viram a cabeça quando sentem o cheiro de maus odores, mas, ao contrário, respiram avidamente o ar empestado, aspiram o fedor e tentam descobrir de onde ele vem, embora lamentando o quanto tudo é repulsivo. Não existe dúvida de que essas pessoas, embora nem mesmo cheguem a notar, desfrutam do mau cheiro. Trata-se de uma disposição amplamente disseminada, para a qual o agitador escandalosamente apela. Pretendendo corrigir os crimes e os vício dos outros, ele satisfaz a curiosidade de seus ouvintes, aliviando-os do tédio de suas vidas monótonas. Frequentemente as pessoas invejam quem elas acreditam que fazem as coisas que secretamente elas gostariam de fazer. Ao mesmo tempo, o demagogo lhes dá assim o sentimento de superioridade.

Quando ele não conta a história, ele cria expectativa nos ouvintes com algumas indicações vagas que, não obstante, permitem excitar suas mais selvagens imaginações. Assim eles podem pensar no que preferirem. O agitador parece ser pois alguém que sabe, que tem toda a informação de bastidores e que, um dia, vai pôr tudo para fora, com evidência arrasadora. Entretanto ele também sugere que não é preciso lhes contar tudo: eles de algum modo sabem do que se trata e, de resto, seria muito perigoso discutir o assunto em público. Os ouvintes são sempre tratados como se fossem pessoas de sua confiança, membros do seu próprio grupo, de modo a que o segredo comum e inexprimível os ligue ainda mais intimamente a ele.

Obviamente seus ouvintes jamais ousariam realizar as façanhas que ele atribui aos seus inimigos. Quanto menos podem satisfazer seus desejos extravagantes de luxo e prazer, mais furiosos eles se tornam contra aqueles que, segundo fantasiam, usufruem do fruto proibido. Todos querem “punir os bastardos”. Enquanto dá suculentas descrições das orgias de champanhe celebradas pelos políticos de Washington e banqueiros de Wall Street com as dançarinas de Hollywood, ele promete o dia do ajuste de contas, quando, em nome da decência, ele e sua turba celebrarão um bom e honesto banho de sangue.

*Theodor W. Adorno (1903-1969) foi professor na Universität Frankfurt (Alemanha). Autor, entre outros livros, de A personalidade autoritária (Unesp).

Tradução: Francisco Rüdiger


[i] Sigmund Freud, Group Pychology and the Analysis of the Ego (Londres, 1922; trad. bras. Psicologia de grupo e análise do ego, Imago, 1987, 2.ª ed.).

[ii] T.W. Adorno, L. Lowenthal e P. Massin escreveram estudos monográficos sobre o assunto. Uma apresentação sistemática se encontra no volume Prophets of deceit, de L. Lowenthal e N. Guterman (Harper & Brothers, 1949). Confira também T. W. Adorno, “Anti-semitism and fascist propaganda”, in: Anti-semitism – a social disease (Ed. Ernst Simmel, 1946), a partir da página 125. Além disso, devemos fazer menção ao estudo sobre Coughlin, The fine art of propaganda, de A. McClung, empreendido de forma independente pelo Instituto de Análise da Propaganda. [N. do T.]

[iii] 3. As descobertas são apresentadas no livro The Authoritarian Personality, de T.W. Adorno, E.F. Brunswik, D.H. Levinson e R. N. Sanford (Harper & Brothers, 1950). [N. do T.]

[iv] O exemplo mais pertinente é o dos Protocolos dos sábios de Sião. Sua falsidade, provada sem qualquer margem para ambiguidade, foi tão amplamente difundida e oficialmente sustentada pelas cortes independentes que nem mesmo os nazistas puderam defender a autenticidade desse pseudodocumento. Entretanto, eles continuam sendo usados com propósito de propaganda e sendo aceitos pela população. Os Protocolos são como uma hidra cujas cabeças crescem e se multiplicam à medida que são cortadas. Os panfletos fascistas neste país [EUA] ainda trabalham com eles. Característica é a declaração do falecido Alfred Rosenberg, que, depois do julgamento na Suíça, afirmou que, mesmo sendo fraudulento, o documento é “genuíno em espírito”. [NOTA DO AUTOR]

[v] JF. Brown descreveu um caso desse tipo em um estudo monográfico empreendido no quadro de trabalho do projeto de pesquisa sobre discriminação social e publicado sob o título “Anxiety States”, em Case histories in abnormal and clinical psychology (Ed. Burton e Harris, 1948). Outros extensos estudos de caso psicanalíticos sobre personalidades preconceituosas serão publicados no volume a sair intitulado Anti-semitism,a psycholdynamic interpretation, de Nathan Ackerman e Marie Jahoda [Harper & Brothers, 1950]. [NOTA DO AUTOR]

[vi] O papel da insegurança como motivador do preconceito foi sublinhado por vários estudos e comentado conclusivamente no estudo The anatomy of prejudice, de Bettelheim e Shils. Deveria ser notado que a insegurança econômica, que tão grande papel joga na formação das ideologias antiminorias, parece estar inseparavelmente interligada a uma outra, psicológica, que se baseia na má resolução do Complexo de Édipo, isto é, do antagonismo reprimido contra o pai. A interconexão entre a motivação econômica e a psicológica ainda precisa de maior clarificação. [NOTA DO AUTOR]

[vii] No plano político, isso pode ser ilustrado com algumas observações relativas à Alemanha. A propaganda nazista sempre achou fácil desviar os sentimentos da população de um para outro inimigo. Os poloneses foram cortejados por um certo número de anos, antes de Hitler lançar sua máquina de guerra contra eles. Os russos, referidos como arqui-inimigos, tornaram-se aliados potenciais em 1939, voltando a seu status de Untermenschen [subumano] em 1941. Essas mudanças súbitas e mecânicas de uma ideologia para outra aparentemente não encontraram nenhuma resistência por parte da população. [NOTA DO AUTOR]

[viii] A relação entre rigidez e mobilidade foi elaborada teoricamente por Max Horkheimer e T.W. Adorno em “Elementos do anti-semitismo”, em Dialética do Esclarecimento (Zahar, 1985). [N. do T.]