A caixa de Pandora

Marco Buti, Recursos Humanos, 2021
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUCIANO MIGLIACCIO*

Comentário sobre o livro de Dora e Erwin Panofsky.

A caixa de Pandora apresenta a história da representação deste mito, desde a antiguidade greco-romana até as obras de Paul Klee e Max Beckmann, com o subsídio da análise de uma ampla série de fontes literárias e documentos figurativos. Representa ao mesmo tempo um exemplo admirável da aplicação dos métodos da iconologia na história da arte, a história de uma imagem condensando muitos contraditórios aspectos da relação entre o homem e a mulher, e o documento da vida de um casal.

Pandora é, de fato, o nome que reúne, como em um único ser, as vidas de Dora (Dorothea) e de Erwin Panofsky. O nome da esposa, ela também historiadora da arte, na capa do livro, surge como uma declaração mútua de amor, depois de uma vida de trabalho comum. Os dois estudiosos investigam a transmissão e a transformação do mito de Pandora, presente “belo e mau” dos deuses para os homens, seu vaso ou sua caixinha, invenção de Erasmo de Roterdã, talvez imagem inconsciente do sexo feminino, contendo os males (na versão de Hesíodo), os erros (na versão socrática), os pecados (na versão cristã), que se espalhariam pelo mundo. Ou conteria talvez o cofrinho as virtudes que retornariam ao céu desdenhando o mundo dos homens?

Dorothea, então, é também “Pandora”, porque o encontro com uma mulher significa o encontro com todas as imagens da feminilidade sedimentadas na memória da nossa cultura. Mas é possível fazer uma história das imagens? Existe uma ordem no nascer, multiplicar-se, combinar-se, desfazer-se e recompor-se das imagens? Este livro demonstra que, apesar da aparência confusa, o mundo das imagens é um mundo ordenado e que é possível fazer a história da arte como história das imagens.

Aby Warburg e seu círculo de Hamburgo, em que Panofsky e a esposa se formaram, demonstraram com pacientes pesquisas filológicas que a cultura artística do ocidente moderno vive da herança de imagens recebidas do passado como um repertório lexical de uma língua: um processo histórico de “longa duração” pelo qual na cultura ocidental a história das formas constitui sua própria memória, num triplo movimento de produção, transmissão e transformação dos modelos da Antiguidade. A imagem é um signo, a atribuição de um significado a ela é processo cultural e social.

O caminho da imagem, assim como o apresenta Panofsky, é tortuoso, casual, cheio de ambiguidades, de voltas, de diversões repentinas: certamente não possui uma lógica, nem uma direção, nem uma finalidade. Mas talvez seja possível descobrir nele uma ordem. O artista é um homem que participa da cultura do seu tempo. A cultura figurativa constrói sempre com materiais do passado, adaptando-os ao presente, a partir de experiências muitas vezes remotas, às vezes apagadas. O dado mnemônico fica muitas vezes cortado, indefinido, até equivocado, mas na ordem da cultura o próprio erro produz significado.

Os dois historiadores sabem que não podem se dar ao luxo de trabalhar com materiais selecionados de consagrado valor artístico para estudar o processo criativo. Reúnem o maior número possível de documentos direta ou indiretamente relacionados ao tema que determinaram estudar. Como geógrafos estudando uma correnteza de água, buscam encontrar sua nascente, desenhar seu percurso, compreender seu comportamento. Pode acontecer que o tema se apresente em alguma obra-prima famosa, mais frequentemente a sua presença ou a sua transformação são documentadas por imagens destinadas ao consumo comercial ou a fins utilitários como as ilustrações de livros, as estampas populares, as moedas, os naipes etc.

A imagem gasta, consumida, replicada centenas de vezes e deformada pelo descuido com que é adaptada às mais variadas situações é muitas vezes bem mais eloquente, para os historiadores da imagem, que a versão erudita, fixada com uma precisa estrutura formal. Às vezes associada ou combinada a novos conteúdos devido a confusões, ou a assonâncias com outras imagens do repertório da memória coletiva, ela é o documento de uma cultura, um signo a que é possível atribuir, como às palavras, vários significados.

Para quem já conhece os ensaios teóricos de Panofsky, ou para quem quiser se aproximar dos métodos da iconologia, a leitura deste escrito fluido e agradável na tradução portuguesa é uma experiência realmente gratificante. A presença de apêndices sobre as fontes e as obras analisadas e de um útil índice remissivo contribui para oferecer ao leitor uma guia para orientar-se na imensa erudição mobilizada pelos autores.

*Luciano Migliaccio é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 3, julho de 2009.

Referência


Dora e Erwin Panofsky. A caixa de Pandora: as transformações de um símbolo mítico. Tradução: Vera Pereira. São Paulo, Companhia das letras, 252 págs.

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Introdução a “O capital” de Karl Marxcultura vermelho triangular 02/06/2024 Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO: Comentário sobre o livro de Michael Heinrich
  • Sobre a ignorância artificialEugenio Bucci 15/06/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: Hoje, a ignorância não é uma casa inabitada, desprovida de ideias, mas uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços
  • Franz Kafka, espírito libertárioFranz Kafka, espírito libertário 13/06/2024 Por MICHAEL LÖWY: Notas por ocasião do centenário da morte do escritor tcheco
  • Impasses e saídas para o momento políticojosé dirceu 12/06/2024 Por JOSÉ DIRCEU: O programa de desenvolvimento tem de ser a base de um compromisso político da frente democrática
  • Registro sindicalMETRÔ 11/06/2024 Por LAWRENCE ESTIVALET DE MELLO & RENATA QUEIROZ DUTRA: O Ministério do Trabalho decidiu conceder registro sindical à Proifes. No entanto, registro sindical não é o mesmo que representação sindical
  • A greve das Universidades e Institutos federaisvidros corredor 01/06/2024 Por ROBERTO LEHER: O governo se desconecta de sua base social efetiva ao afastar do tabuleiro político os que lutaram contra Jair Bolsonaro
  • Confissões de uma senhora católicaMarilia Pacheco Fiorillo 11/06/2024 Por MARILIA PACHECO FIORILLO: O reacionarismo congênito não é apanágio apenas dos evangélicos
  • O STF, a Inteligência Artificial e a Justiça do Trabalhosouto-maior_edited 07/06/2024 Por JORGE LUIZ SOUTO MAIOR: A concretização da substituição do ser humano pela IA pressupõe que esta já foi treinada para atuar na forma desejada pela classe dominante
  • Uma lógica míopeVERMELHO HOMEM CAMINHANDO _ 12/06/2024 Por LUIS FELIPE MIGUEL: O governo não tem vontade política para transformar a educação em prioridade, enquanto corteja militares ou policiais rodoviários, que não se movem um milímetro para longe do bolsonarismo que continuam a apoiar
  • Fortalecer o PROIFESsala de aula 54mf 15/06/2024 Por GIL VICENTE REIS DE FIGUEIREDO: A tentativa de cancelar o PROIFES e, ao mesmo tempo, fechar os olhos para os erros da direção da ANDES é um desserviço à construção de um novo cenário de representação

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES