Marias

Imagem: divulgação
image_pdf

Por Walnice Nogueira Galvão*

Comentário sobre o documentário dirigido por Ludmila Curi.

1.

Dois assuntos, que se entrelaçam, são abordados no documentário assim intitulado por sua diretora, Ludmila Curi: mulher e militância.

O alvo visado foi fazer uma biografia de Maria Prestes, esposa de Luiz Carlos Prestes e mãe de sete de seus filhos. E uma perfeita desconhecida, tal sua discrição e perseverança. Nunca quis aparecer, escondendo-se de todo modo. Mesmo ao chegar do exílio ao fim da ditadura, quando Prestes foi recebido no aeroporto por multidões em delírio, pode procurar que ela não está visível.

É por isso que causa um choque no espectador a notícia de que ela não autorizou a metragem resultante de anos de filmagem, nem mesmo o uso de sua voz gravada. Justo agora, quando finalmente pensávamos ter acesso a algo dessa esquiva figura.

Ouvia-se dizer que ela era uma morena nordestina talvez sertaneja, pois como explicar tantos filhos? E tanta relutância em aparecer?

Jamais foi olhada pelo lado positivo: tanta fecundidade, tanta firmeza, tanto recato. Tampouco se sabia que ela era uma militante precoce, já tendo sido presa em Recife ao transportar faixas e panfletos, aos 17 anos. E aos 20 anos já criava sozinha dois filhos. Não devem ter sido fáceis nem a clandestinidade nem o exílio, comboiando uma ninhada de nove crianças. Só por isso ela já mereceria o título de heroína anônima…

2.

E vamos ao filme

No início, e instaurando o fio condutor do nome próprio, vê-se uma rápida resenha de outras Marias lutadoras: Maria Quitéria, Maria Curupeiti, Jovita, Anita Garibaldi (que também era Maria), Maria Bonita. As outras em gravuras imóveis a duas dimensões, esta última no célebre filminho de onze minutos feito por Benjamin Abraão, que é a única documentação com movimento do bando de Lampião. Ela é de fato muito faceira e sestrosa, perfeitamente à vontade nos seus trinques diante da câmera. Vemos Lampião ornando seu pescoço com vários colares, oferenda que ela vai aceitando com a majestade de uma rainha.

A diretora relata que acompanhou Maria Prestes em turnês de palestras que ela fez pelo sertão do Nordeste, sobretudo em assentamentos do MST. Ou seja, ela continuou militando, sem perder a fé, até seus 90 anos. A Rússia foi passagem obrigatória, para filmagem do apartamento em Moscou onde ela morou por 10 anos, e da cidade de Stalingrado (hoje Volgogrado) que lhe deixou funda impressão.

Por que? Porque foi lá que se travou a batalha decisiva que deteve o avanço dos nazistas e os obrigou a bater em retirada até Berlim acossados pelos russos, retirada inédita desde o início da Segunda Guerra. Ou seriam detidos lá ou ganhariam a guerra. O mundo inteiro acompanhou com o fôlego suspenso a batalha – e batalha é modo de dizer, porque durou sete meses e custou 1 milhão de vidas russas. Carlos Drummnond de Andrade dedicou-lhe um belo poema, à época (“Carta a Stalingrado”).

Lugar de peregrinação até hoje, guarda uma vala comum – pois não dava tempo de dar sepultamento decente aos que tombavam na luta – posteriormente coberta por um jardim. Mas não dá para esquecer que você está passando por cima de 1 milhão de mortos, a quem todos nós muito devemos.

Para compensar a proibição de que foi alvo, a diretora encontrou uma das filhas, Mariana Prestes, que, segundo ela, é muito parecida com a mãe – fisicamente e no jeito despachado. Ela topou falar de Maria Prestes e, com muito bom humor, entregar-se a reminiscências variadas.

Registra-se em película um jantar, com numerosos convivas, filhos e outros, em que são apresentadas receitas russas prediletas da mãe, como um patê de beterraba de cores vibrantes, que os filhos aprenderam a saborear quando crianças. E salve a cerveja checa, que ela sempre disse que era a melhor de todas.

O filme termina numa cena ao vivo com Marielle Franco, sobressaltando o espectador. Como é bonita, como é elegante e segura de si, como tem boa postura… E o filme põe um ponto final mostrando as manifestações em prol da punição de seus assassinos, até hoje em suspenso, já lá vão cinco anos…

A última imagem, que fica conosco, é a da gigantesca Mãe Pátria de Stalingrado, de 82 metros de altura, bem ao estilo do realismo socialista, a nos lembrar que ela é uma mulher.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc/Ouro sobre Azul). [amzn.to/3ZboOZj]

Referência

Marias

Brasil, 2024, Documentário, 80 minutos.

Direção e Roteiro: Ludmila Curi.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
9
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
12
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
13
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
14
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
15
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES