Maus

LEDA CATUNDA, Todo Pessoal, 2006, acrílica s/ tecido e voile, 247x333cm.
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Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário da história em quadrinhos de Art Spiegelman

Nascido em Estocolmo em 1948 e naturalizado estadunidense, Art Spiegelman foi editor da revista The New Yorker (1993 a 2007) e cofundador e editor de Raw, conhecida publicação de quadrinhos e artes gráficas de vanguarda. Exibiu seus desenhos e gravuras em galerias e museus de vários países. Entre as honrarias recebidas por Maus destacam-se o Prêmio Pulitzer, uma bolsa Guggenheim, além de indicações para o Prêmio da National Book Critics Circle. Publicou regularmente no New York Times e em The Village Voice, tendo sido professor da New York ‘s School of Visual Arts.

Maus, que em alemão significa rato, apresenta como cenário a Polônia durante a Segunda Guerra Mundial, em que os nazistas são gatos, os judeus ratos, os poloneses porcos e os estadunidenses cães. Autobiográfico, Maus narra a história de Vladek Spiegelman, pai de Artie, o narrador, um judeu polonês sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz.

O livro é dividido em duas grandes partes, escritas em momentos distintos. A primeira, “Meu pai sangra História”, abarca de “meados dos anos 30 até o inverno de 1944”, enquanto a narrativa de “E aqui meus problemas começaram” tem como subtítulo “De Mauschwitz às Catskill e mais adiante”.

Artie, no livro, é um jovem desenhista que vive nos Estados Unidos e procura compreender o temperamento mesquinho do pai – estereótipo do avarento – e se reconciliar com a memória da mãe (Anja), que se suicidou em 1968. A aventura de Vladek e Anja tem início na década de 1930, logo após o casamento, prosseguindo durante a guerra, numa sequência de fugas, perseguições, esconderijos em sótãos e porões, enforcamentos e extermínio sistemático dos judeus. Ao final do armistício Vladek e Anja haviam perdido todos os familiares, inclusive o garoto Richieu, o primeiro filho do casal.

Terminada a guerra, ambos emigraram para os Estados Unidos. Após ficar viúvo, o pai de Artie se casou com Mala, amiga do casal, também sobrevivente dos campos de concentração, tornando a vida de ambos insuportável: velho, com problemas cardíacos, tomando inúmeras pílulas, continuou a economizar centavos e a falar constantemente que alterou o seu testamento. Em determinada parte da história, queixando-se a Artie, Mala acusou Vladek de tê-la desposado devido a seu porte físico, pois assim ela poderia aproveitar todo o guarda-roupa de Anja.

Em outro momento Mala é ainda mais cáustica, ao dizer que todos os seus amigos estiveram em campos de concentração, mas nenhum é tão desagradável como Vladek. Ao que Artie acrescenta: “É algo que me preocupa em relação ao livro que estou fazendo sobre ele. De algum modo, ele é como a caricatura racista do judeu miserável”.

Todos os personagens de Maus são reais, tanto que Artie agradece a Mala “por sua ajuda em traduzir livros e documentos poloneses” e por querer que o livro “acontecesse”. Constata-se, ao longo da leitura, que a ansiedade e a paranoia de Vladek – que quando jovem atraía as mulheres-ratas a exemplo de Rodolfo Valentino (tanto é assim que o primeiro capítulo se intitula “O Sheik”) –, principalmente devido às experiências vivenciadas na guerra, acabam levando Anja ao suicídio.

Maus é um livro que incomoda já a partir de sua capa, aliás, a única coisa colorida desta novela em quadrinhos: um casal de ratos está abraçado, com os olhos esbugalhados. Acima deles, uma suástica nazista com Adolf Hitler numa cara de gato. Um texto publicado em The Times sobre a obra afirma que “todos são terrivelmente humanos”, os gatos, ratos, porcos e cães, embora Hitler tenha falado que “os judeus são indubitavelmente uma raça, mas não são humanos”.

Seres humanos com cabeças de animais, os personagens de Maus são desenhados em preto e branco, com traços rústicos, porém no interior de uma estrutura narrativa sofisticada. Na ocasião do lançamento, a Associated Press realizou um comentário expressivo sobre o livro: “Art Spiegelman transformou a Alemanha nazista numa monstruosa ratoeira”.

*Afrânio Catani, professor aposentado da Faculdade de Educação da USP, atualmente é professor sênior na mesma instituição. Professor visitante na UERJ, campus de Duque de Caxias.

Referência


Art Spiegelman. Mauss: a história de um sobrevivente. Tradução: Antonio de Macedo Soares. São Paulo, Companhia das Letras, 2019 [40a. reimpressão], 296 págs (https://amzn.to/3KFm3co).


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