Por SÉRGIO MICELI*
Republicamos duas resenhas, em homenagem ao sociólogo falecido na última sexta-feira
Chave para ouvir Mozart
A 27 de janeiro de 1781, dia do aniversário de 25 anos de Mozart, foi realizado em Munique o ensaio geral da melhor opera séria do século XVIII, Idomeneu, Rei de Creta, encomendada pelo Eleitor da Baviera para as festividades do carnaval.
Essa experiência de trabalho determinou os novos rumos de todas as dimensões de sua vida: ficou mais confiante quanto aos recursos de sua criatividade no domínio musical e dramático; teve coragem para largar seu emprego e livrar-se de um futuro medíocre e confortável na província; encontrou forças para romper com o pai, com o arcebispo, com a classe no poder, transferindo seus desejos e investimentos para Viena, o espaço no mercado musical que lhe garantiria a continuidade de sua atividade de composição tal como idealizara.
Poder-se-ia estabelecer uma síntese do argumento construído por Norbert Elias a partir das circunstâncias e desdobramentos derivados dessa exaltante experiência que acabou determinando uma cadeia de rupturas e dilaceramentos, convertendo esse ano em momento de virada na trajetória pessoal e profissional do jovem compositor.
Entusiasmado por essa oportunidade quase única de poder continuar compondo no gênero mais prezado na escala de valores da sociedade de corte, Mozart estendeu sua licença para além das seis semanas que lhe havia concedido o arcebispo de Salzburgo. Apesar do grande sucesso alcançado pela obra, tamanha desfeita acabou azedando as disposições de seu empregador, culminando com o rompimento no início de maio.
Foram infrutíferas as tentativas paternas de remendar a situação, Mozart manteve-se irredutível em seu projeto de instalar-se como “artista autônomo” em Viena. Ali alugou um quarto na casa da senhora Weber, de cuja filha mais velha fora amante e com cuja irmã Constance decidiu se casar em dezembro, outra vez fazendo desandar os projetos do pai a seu respeito.
As turbulências de 1781 sinalizam um transe biográfico esclarecedor, tornando explícitos os nexos da interpretação sociológica de Mozart como o paradigma de um artista genial prensado entre os condicionamentos impostos pela sociedade de corte e os incentivos suscitados pela formação de um público de compradores e fruidores anônimos de obras de arte no interior de um mercado livre.
A análise do caso mozartiano empreendida por Norbert Elias é sensacional, fundindo atrativos metodológicos, interpretativos e teóricos. O autor investe a candura de sua visada sociológica contra os preconceitos das positivistas reconstruções biográficas de Mozart, inclusive a mais famosa delas, a de Hildesheimer. A fonte primária dessa literatura apologética são as cartas trocadas entre Mozart e seus parentes mais próximos, sobretudo o pai, a irmã e a esposa.
A lufada de ar fresco ventilada por Norbert Elias sobre tal base documental consiste em lidar com esse material na perspectiva dos valores e sentimentos dos próprios agentes envolvidos, livrando-se assim tanto do culto idealizador do gênio como do receituário “humanizador” do artista.
Nesse registro, por exemplo, são antológicos os trechos em que destrincha as idiossincrasias do compositor, o gosto pelo “humor negro”, pelas expressões escatológicas, evidenciando de que maneira essas manifestações de coprofilia verbal encontram seu lugar e sentido nos limiares então socialmente aceitáveis de comportamento, recato e sensibilidade.
Vale a pena registrar a filiação de Norbert Elias aos princípios da vertente weberiana, tal como se pode depreender dos sentidos atribuídos ao processo de racionalização, dos ligamentos entre os diversos domínios da atividade social e, em especial, dessa matriz fundante de qualquer sociologia da cultura que se preze ao reconhecer uma tessitura própria –agentes, instituições, práticas – a cada uma das experiências artísticas, balizando a investigação pelas tensões entre a dinâmica interna e as esferas conexas ao campo sob análise.
Parafraseando Wittgenstein (“O que não se pode dizer, deve-se calar”), Norbert Elias conclui os escritos sobre Mozart com um lembrete útil a diversos luminares nativos (`”O que não se pode dizer, deve-se pesquisar”).
Os ensaios sobre Mozart revelam uma notação analítica refinada que apela ao arsenal teórico extraído de sua trilogia, em especial A Sociedade de Corte, devendo-se ressaltar as noções de formação social, de tensões e de interdependências, por meio das quais reelabora a trama dos constrangimentos que viabilizaram e, num momento posterior, estancaram a atividade musical e a própria vida do compositor.
Os textos da primeira parte articulam os elementos de uma sociologia da música na sociedade de corte, buscando mostrar como o itinerário pessoal e a carreira profissional de Mozart foram se mesclando em direções tão previsíveis, que o estado terminal de solidão e desespero a que se viu relegado levou-o à morte e a compor o Requiem para si mesmo.
Nesse primeiro nível macro de análise, Norbert Elias mostra as condições sociais de inserção de artistas de origem pequeno-burguesa numa formação societária dominada por uma aristocracia de corte, empregados como os demais artesãos e serviçais nos palácios dos príncipes, habituados a lidarem com os padrões de gosto e consumo da nobreza, salientando os constrangimentos derivados dessa correlação desigual de forças sociais sobre as formas, os gêneros e as linguagens musicais.
No plano pessoal, o cerne da análise procura deslindar o incrivelmente complexo relacionamento de Mozart com seu pai. O também músico Leopold Mozart fez as vezes de professor, ensaiador, empresário, projetando muitas de suas esperanças de realização social e profissional no futuro desempenho desse “presente de Deus””, arrasado por depressões e culpas quando longe de seu “tesouro”, em resumo tão apaixonado e possessivo a ponto de confundir o sentido mesmo de sua vida com o destino do filho.
A despeito desse opressivo suporte afetivo, Norbert Elias oferece abundantes evidências dos sentimentos de insegurança e falta de amor-próprio de Mozart, de sua inextinguível necessidade de afeto, da fortíssima atração pelas mulheres que foram se transmutando em sentimentos ambivalentes e autodestrutivos ao captar sinais de abandono e desamor.
O conteúdo do libreto de Idomeneu talvez auxilie o leitor a ajuizar melhor a matéria-prima da experiência pessoal que Mozart instilou nos seus personagens. De regresso à ilha de Creta como um dos vencedores da guerra contra os troianos, apavorado com a tempestade que ameaça a vida de todos no barco, Idomeneu promete a Netuno sacrificar a primeira pessoa que enxergasse se lhes fosse concedida a graça de sobreviver.
Desesperado com as notícias do afundamento, seu filho Idamante se dirige à praia e o encontro deles sela o destino de ambos. Embora o tema e o texto do libreto tenham sido impostos pelo mecenas, Mozart não poupou empenho na tarefa de aperfeiçoá-los. Introduziu engenhosos golpes de cena no encadeamento da trama -duas tempestades fundindo ação e música nos coros, a aparição do monstro marinho, a irrupção do trovão e a voz de Netuno com os desígnios para o desfecho do drama, a enfurecida e arrebatada ária final de Electra.
Ancorou a partitura em uma série de conexões temáticas e harmônicas, a começar pelo motivo da abertura, passando pela tonalidade indicativa de Idamante, recorrente ao longo da ópera e no fecho dos três atos, até o virtuosismo de inúmeras passagens orquestrais. Idomeneu constitui portanto um ajuste de contas pessoal, dramático e musical, tornando a relação pai e filho o eixo comovente da trama, revelando o domínio seguro das linguagens operísticas italiana e francesa, fazendo soar a invenção musical pungente em meio às constrições estilísticas do que seria ao mesmo tempo uma obra-prima e o canto de cisne do gênero.
A segunda parte do volume efetua um sumário biográfico centrado nos poderes de que Mozart se sentiu investido nos domínios social, musical e sexual, a partir do êxito alcançado por Idomeneu, retraçando o argumento da perspectiva de um Mozart em close.
Primeiro, faz um relato circunstanciado dos seus anos de formação: menino-prodígio exibido nas principais cortes e salões da aristocracia europeia, atração rendosa dos concertos organizados pelo pai. Elias evidencia de que maneira essa exposição a mundos musicais estrangeiros contribuiu para a internalização de tradições musicais concorrentes.
Os contatos com os maiores compositores de seu tempo, o acesso aos reformadores da ópera (Gluck, Rameau etc.), o convívio com os diversos ofícios e especialidades da área musical, toda essa esmerada aprendizagem foi espicaçando sua crescente apropriação das formas musicais a ponto de praticamente converter a atividade de compor em estratégia permanente de sublimação e único consolo de seu cotidiano.
Por conta dos temores de seus competidores perante tais trunfos, foram baldados os esforços para encontrar fora de Salzburgo um posto estável de músico à altura de suas pretensões e de sua competência musical. Mozart aceita afinal a posição de organista em sua cidade natal, sustando por uns dois anos a ambição de fazer carreira e firmar sua estrela de artista na cidade de Viena que escolhera como o espaço mais instigante para divulgação e comercialização de suas obras no mercado musical da época.
O terceiro nível de análise trata dos efeitos exercidos pelos mercados musicais europeus sobre os padrões de carreira de músicos e instrumentistas numa perspectiva comparada, contrastando o centralismo associado ao virtual monopólio exercido pela corte absolutista instalada em Paris e Londres, suplantando as demais casas nobres em poder, riqueza e impacto cultural, à fragmentação vigente em países de unificação tardia como Alemanha e Itália onde “dúzias de cortes e cidades (…) concorriam pelo prestígio e, portanto, pelos músicos”.
Essa correlação entre a estrutura peculiar de governo e a extraordinária produtividade da música de corte nos territórios do primeiro Império Alemão oferecem subsídios instigantes à inteligibilidade dos padrões distintivos de competição e de criatividade prevalecentes nos respectivos mercados musicais.
O livro de Norbert Elias nos faz querer ouvir de novo a música de Mozart, revalorizada pelas chaves de leitura contidas em sua interpretação. Assim como imagino haver enriquecido minha compreensão dos materiais expressivos de Idomeneu, tomara que esta resenha provoque no leitor uma disposição semelhante em relação à mozarteana de um dos melhores sociólogos da cultura.
Mocinhos e bandidos
Na tarde do feriado de Corpus Christi, os moradores do bairro paulistano de Higienópolis puderam assistir à procissão eucarística, promovida pela entidade Tradição, Família e Propriedade (TFP), que vinha subindo a rua Sabará. Os figurantes da encenação exibiam trajes festivos de combate, em tecidos pesados com cruzes de Castela, sobrecapas, num arremedo oscilante entre vestes sacerdotais e uniformes de colégios grã-finos, movimentando-se ao compasso de uma banda em que sobressaíam metais e o rufar dos tambores.
Abrigado sob o pálio em pano branco e amarelo da autoridade pontifícia, o sacerdote mantinha elevado o cálice com as hóstias, à vista dos transeuntes e fiéis embasbacados com tanta pompa, juntos entoando os dizeres ameaçadores do hino a Jesus salvador. Uma cena de arrepiar crentes e incréus, cuja opressiva atmosfera ibérica de intransigência e ortodoxia tomou conta do quarteirão.
À luz dos trabalhos de Norbert Elias, as convicções integristas insinuadas na procissão comprovam à exaustão os laços que nos prendem uns aos outros como “anjos” ou “demônios” mutantes, conforme a lente de apreensão. Conferem vigência à máxima sartriana segundo a qual, socialmente, o inferno são os outros.
Sob a roupagem de um estudo de comunidade – do povoado operário inglês renomeado Winston Parva –, Norbert Elias e John L. Scotson empreenderam uma reflexão teórica ambiciosa, que revolucionou os rumos da teoria social contemporânea, sobre os tópicos candentes das desigualdades e das relações de poder delas decorrentes.
Num relance, poder-se-iam resumir os achados da investigação ao seguinte: embora Winston Parva fosse uma comunidade relativamente homogênea segundo indicadores sociológicos correntes -renda, educação, ocupação, religião, língua e nacionalidade, ascendência “étnica” ou “racial” –, sua população estava cindida entre, de um lado, o grupo residente no bairro denominado “aldeia”, que se enxergava e era reconhecido pelos demais como o establishment local, e, de outro, as famílias moradoras no relegado “loteamento”, que se viam e eram consideradas como outsiders.
A despeito do fato de serem uns e outros trabalhadores, portanto pertencentes à mesma classe social, os primeiros justificavam sua “superioridade” e poder com base num princípio de antiguidade, pois estavam aí instalados há duas ou três gerações, enquanto os demais eram recém-chegados à comunidade.
O estudo de caso vai se revelando tão fértil em peculiaridades a ponto de lhe permitir arriscar um novo tratamento das desigualdades entre grupos e indivíduos, pelo exame dos critérios de validação de hierarquias e das situações práticas em meio às quais vão emergindo formas de dominação.
Na impossibilidade de atribuir tal passo ao impacto de níveis distintos de renda e educação, de motivações “raciais”, “étnicas” ou linguísticas, ou então, numa versão sofisticada do mesmo esquema de argumentação, de acionar um quadro historicamente motivado de razões conjugadas de espécies variadas -econômicas, educacionais, honoríficas etc. –, Norbert Elias procura identificar os diferenciais de poder produzidos pelas interdependências envolvendo os integrantes dos grupos no interior de uma determinada configuração social.
Dito de outro modo, grupos próximos e bastante homogêneos conforme marcadores sociológicos usuais logram modelar uma relação de dominação/subordinação quase que integralmente ancorada em crenças, valores e representações de uns em relação aos outros.
Seus membros orientam-se por um sistema normativo que justifica a superioridade dos “aldeões” sobre a “indignidade” do pessoal do “loteamento”, os “estabelecidos” valendo-se de estratégias de desqualificação dos “de fora”. Percebe-se, então, de que maneira uma dada situação de desigualdade foi sendo forjada de cabo a rabo mediante processos de atribuição de sentido por meio dos quais os grupos afetados, positiva e negativamente, acabam reprocessando esse embate e replicando-o, com teores ajustados, nas principais dimensões de sua experiência de vida.
Eis na íntegra um dos inventos notáveis da contribuição de Norbert Elias: ao invés de repisar determinações pré-moldadas, alocadas em nichos ou instâncias nominais, o cerne do enfrentamento entre grupos em litígio em qualquer figuração social passa a depender das significações derivadas das práticas sociais dos agentes, que se cristalizam em sistemas de crenças e valores.
Até então, não se havia alcançado, em sociologia, registro tão sensível de uma estória social captada ao vivo, ao flagrar os passos dessa morfogênese do sentido infundido às desigualdades transmutadas em relações de força.
Em suas principais obras, Norbert Elias preferia trabalhar com documentação histórica -guias de boas maneiras e manuais de auto-ajuda em O Processo Civilizador, relatos memorialísticos (Saint-Simon etc.), pinturas e romances em A Sociedade de Corte, material ficcional e jornalístico em Os Alemães, biografias e correspondência em Mozart, Sociologia de um Gênio –, sendo o livro aqui tratado o único experimento de fôlego baseado em fatos contemporâneos.
Se bem que a maior parte do texto seja consumida pela descrição e análise do material recolhido – morfologia dos bairros e de seus habitantes, caracterização da estrutura familiar e das redes de apoio, instituições comunitárias, jovens, sexualidade e conflitos geracionais –, o vigor de suas incursões generalizantes se concentra na abertura, na conclusão e, em especial, no posfácio à edição alemã onde, pela malícia do engenho transformista e pelo bosquejo enxuto, testa a aplicação do modelo às relações raciais nos Estados Unidos por meio da análise de um romance de sucesso na década de 1960.
Em lugar de se caracterizar por diferenças sociais gritantes e como que prontas a dar conta de quaisquer tensões ou, então, de propiciar um molde arrumado e previsível dos arrazoados canônicos de determinação (econômicos, religiosos etc.), Winston Parva traz à luz do dia a violência e o arbítrio inerentes às relações de interdependência, aptas por si só a instaurar o céu e o inferno na vida dos agentes, obcecados pela busca da afirmação de si e do grupo, bem como pelo temor dos próximos e concorrentes.
Assim como a “antiguidade” sedimentara a identificação coletiva, a coesão grupal e as normas partilhadas, os diferenciais de poder entre esses grupos vão se estabilizando em meio às soldas das variações no grau de organização dos agentes com suas respectivas identidades.
Os padrões díspares de união interna e controle comunitário se traduzem numa prática política que consiste, por exemplo, em reservar para as pessoas do grupo cargos prestigiosos em organismos locais – o conselho, a escola ou o clube –, excluindo os moradores da área vizinha.
Nesse caso limite, os diferenciais de poder e de capacidade de organização dos grupos inter-relacionados, na base do excedente de força desigualmente apropriado, não estavam dissimulados por outras características marcantes da posição social, tampouco tinham a ver com a personalidade dos indivíduos afetados.
A proposta analítica é um tanto ousada e acaba colhendo frutos proporcionais aos percalços enfrentados, quer no que respeita à amplitude indispensável do campo de observação empírica, quer no tocante ao domínio dos paradigmas em ciência social e à dosagem de imaginação intelectual mobilizada pela leitura do material coligido.
O leitor logo se dá conta do quanto Norbert Elias consegue fazer render certas expressões mediadoras, vazias de conteúdo histórico, as quais permitem recuperar o enredo desconcertante da sociabilidade. A ideia de figuração ou configuração, como equilíbrio instável de poder permeado pelas interdependências, tensões e constrangimentos que lhe são constitutivas, impulsiona o vaivém analítico entre indivíduos, grupos e instituições, desvelando a embolada de compromissos multipolares, as tramas da experiência vivida, fazendo ver a costura das lutas e arreglos, dando liga a uma infinidade de eventos discernidos em meio ao tumulto da vida cotidiana.
A construção de sentido prende-se tanto à afirmação da excelência e superioridade “humana” e social dos antigos residentes, seu carisma coletivo, seus sentimentos de status, seu orgulho, seus valores, como à estigmatização dos recém-chegados, menos coesos e destituídos de armas apropriadas de revide às representações dos “aldeões” sobre sua desonra grupal.
O confronto entre sistemas concorrentes de classificações e nomeações se torna ainda mais relevante quanto mais se dilata o diferencial de poder entre os grupos, levando os “inferiores” a se avaliarem segundo os juízos dos opressores e estendendo inclusive à apreciação de seus atributos pessoais o indigitamento detrator imposto pelos “de dentro”.
O diálogo com o legado marxista acerca do primado econômico se efetua de um jeito franco e generoso, sem interpor reservas ao pulso avassalador do materialismo histórico.
O capítulo sobre a fofoca, expediente mor de estigmatização da gente do “loteamento” por parte dos aldeões, é uma lição formidável de como se pode praticar sociologia a partir de evidências inusitadas. Norbert Elias começa pela exploração dos determinantes dos mexericos do lado dos próprios boateiros, amarrando essa conduta às competições e rivalidades em busca de status e realce no grupo. Passa então a deslindar o padrão e o conteúdo das fofocas, que espelham muito mais as características dos emissores do que as de seus desafetos.
Por fim, evidencia a funda capacidade de machucar que se reforça pela concordância silenciosa por parte dos atingidos, os quais, mesmo sem o desejar, contribuem para viabilizar a depreciação do grupo a que pertencem.
Na contramão do lero pedante sobre “universais”, a matéria-prima por excelência de onde se depreendem os processos de fabricação e circulação de imagens coletivas, positivas e negativas – deixando ver o circuito de representações de que se nutrem as relações tensas entre grupos, sexos e gerações –, são exatamente essas representações em estado bruto de uns em relação aos outros, impregnadas de louvores e injúrias.
O exame das significações vinculadas à noção de “antiguidade”, principal moeda corrente em Winston Parva, oferece outro exemplo do procedimento analítico devastador de Elias no intuito de compor uma tessitura repleta de qualificações e mediações. O fato de o grupo de “famílias antigas” ter um passado constitui uma diferença decisiva tanto para a vertebração interna de cada grupo quanto para o relacionamento entre eles.
Um estoque de lembranças, apegos e aversões, a memória do itinerário (real e fantasiado) coletivo, a história partilhada de laços de intimidade emocional, tudo isso serve para modelar a hierarquia interna e a ordem de precedência, contribuindo para firmar a coesão grupal como força reguladora das condutas de seus membros.
Mesmo na ausência de tensões raciais, étnicas ou classistas, ou de uma mescla de ingredientes derivados dessas clivagens, as figurações de “estabelecidos” e “outsiders” ilustram os esquemas estruturais pelos quais vão tomando feição desigualdades entre grupos. Elas estão na raiz da gestação coletiva de sentido por cujo intermédio os grupos processam suas trajetória, identidade, hierarquia interna e, ao mesmo tempo, medem forças e plasmam um sistema de poder.
O legado de Norbert Elias proporciona antídoto eficaz contra conceitos e teorias hoje prevalecentes nas humanidades, calcados em modelos idealizados do que seriam aldeias pré-industriais imaginárias, cujos integrantes estariam unidos por um tecido de coesão e estabilidade, num clima de integração propício a níveis de felicidade que só teriam existido no passado.
Em círculos acadêmicos e na mídia, esse instrumental capenga não tem conseguido destrinçar os fenômenos brutais de nosso cotidiano: estados crônicos de miséria e violência, episódios sinistros de preconceito e discriminação, discursos moralistas e conservadores em defesa dos direitos “humanos”, da “liberdade individual”, da “democracia” e, último flagelo, da “modernização” capitalista.
Assiste-se, todo tempo, a essa ginástica doutrinária deprimente que consiste em converter sistemas normativos em linguagens tecnocientíficas, manejadas por paladinos de variada observância ideológica, que se imaginam dispensados de observar a experiência dos grupos em choque na sociedade.
Não quero passar batido pela tradução do título, ainda que reconheça a dificuldade de se encontrar uma solução satisfatória. Como o termo “estabelecido” não possui em português a forte conotação ética, cultural e política da palavra inglesa, seu emprego mal consegue disfarçar o embaraço de preservá-lo em inglês, tal como se fez com “outsiders”.
Malgrado a perda da faísca idiomática contida no título original, talvez fosse preferível optar pelo contraste entre os “de dentro” e os “de fora” (“bons” e “maus”, “mocinhos” e “bandidos”), que, ao menos, tem o mérito de sublinhar a dimensão mais abstrata da intenção do autor, qual seja a de testar a generalidade do modelo em outros contextos de ocorrência. Um deslize sanável foi a omissão das notas ao competente texto introdutório de Federico Neiburg.
Sergio Miceli (1945-2025),professor emérito da FFLCH, foi professor do Departamento de Sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de Intelectuais à brasileira (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3MHbZU8]
Publicados originalmente, respectivamente, no Jornal de Resenhas no. 2 (01/05/1995) e no. 64 (08/07/2000), então suplemento da Folha de S. Paulo.
Referências

Norbert Elias. Mozart: sociologia de um gênio. Tradução: Sergio Goes de Paula Jorge Zahar Editor, 1991, 150 págs. [https://amzn.to/48Cfe81]

Norbert Elias e John L. Scotson. Os estabelecidos e os outsiders (sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade). Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000, 224 págs. [https://amzn.to/3MzohOp]
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