O bolso ou a vida

Alison Wilding OBE, Desenho irritado IV, 1988
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Por FLAVIO AGUIAR*

O desconcerto mundial que ameaça a sobrevivência da espécie humana

Escrevo este comentário depois de ter visto o documentário A Bolsa ou a Vida, de Sílvio Tendler. Produzido numa linguagem “nervosa”, entrecortada por várias animações ousadas, o filme levanta uma série de excelentes perguntas e oferece algumas respostas muito provocantes. Ele pode ser considerado uma glosa do dilema proposto por Jacques Lacan: na escolha entre a bolsa ou a vida, se escolho a primeira, perco as duas, porque o ladrão terminaria levando ambas; se escolho a segunda, preservo-a, mas ao preço da abdicação de parte de minha vida.

Em artigo escrito no começo da atual pandemia, o psicanalista Contardo Calligaris projetou sobre esta o dilema de Lacan, acrescentando-lhe um “grão apimentado”: e se a vida em questão for a de outra pessoa? Ou seja: você está numa sala fechada e protegida, mas o hipotético ladrão ameaça matar outrem, se você não lhe entregar a bolsa.

A aproximação expõe o negacionismo dos que pretenderiam preservar a economia em detrimento da saúde alheia, escolha insistentemente apresentada ao público pelo atual usurpador do Palácio do Planalto e seus comparsas da Liga da Cloroquina e de outros produtos de efeitos deletérios sobre os doentes.

Parece que, apesar da campanha insidiosa, a imensa maioria do povo brasileiro vem optando pela vida, através da imunização. Paradoxalmente, pelo menos para quem sempre excelsa as vantagens superiores do “primeiro mundo” sobre as desvantagens do que com frequência qualificam preconceituosamente como o nosso mundo “tupiniquim”, a situação europeia e a norte-americana vêm expondo a sua fragilidade diante da “escolha de Lacan/Calligaris”.

Neste outono a meio caminho, vemos nas estatísticas uma situação imunológica bem melhor situada em países como Espanha e Portugal, e outra bem pior em países como a Alemanha e a Áustria, sem falar naquelas catastróficas, como em países tão díspares como a Romênia e a Holanda.

Na Holanda o tratamento descuidado em relação à pandemia se desenvolveu devido à crença, por parte da maior parte da população, de que usar ou não máscaras e adotar outras medidas preventivas são da estrita competência individual. Já na Romênia a situação atualmente catastrófica da pandemia se deve, em grande parte, à pregação anti-vacina por parte de amplos setores clericais da Igreja Ortodoxa.

A Holanda vem adotando medidas de restrição quanto à frequência de locais públicos para deter o avanço da pandemia, o que tem provocado reações iradas por parte dos defensores daquele liberalismo extremado. A Áustria adotou uma medida até então inédita na União Europeia: simplesmente proibiu as pessoas não vacinadas de sair às ruas, exceto para ir ao supermercado ou outra forma de abastecimento alimentar e buscar atendimento médico em consultórios, hospitais ou farmácias. A pena, em caso de desobediência, é de uma multa que pode ir de 500 a 1.500 euros.

Na Alemanha a situação é das mais confusas. O país está momentaneamente acéfalo. O governo “sainte” (Angela Merkel) ainda não saiu, e o “entrante” (Olaf Scholz) ainda não entrou. Os governos provinciais não se entendem entre si; em várias cidades a situação hospitalar já é catastrófica. As regiões mais atingidas são a Baviera e as províncias do leste e nordeste do país, mas ela é considerada grave em quase todo o território, inclusive na capital, Berlim.

Diversos comentários na mídia e no parlamento vêm insistindo na tecla de que esta é agora a “epidemia dos não-vacinados”. Uma cortina de desinformação vem recobrindo o tema da vacina, com suposições que oscilam desde uma desconfiança genérica com relações a vacinas até uma suposta ameaça à fertilidade das mulheres por parte das vacinas anti-Covid.

A revista Der Spiegel produziu uma extensa matéria sobre o tema. Ao final, veiculou uma informação perturbadora: a estimativa é de que haja no país 15 milhões de opositores à vacina, ou seja, quase 20% da população – embora esta proporção deva ser maior se levarmos em conta que ela é constituída sobretudo por adultos. Destes, 50% votam com o partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD) e outros 15% votam em outro partido de expressão regional, também de extrema-direita.

Ou seja: o dado numérico confirma a “industrialização” das propostas anti-vacina pela extrema-direita. Ainda na semana passada um encontro do partido AfD teve de ser cancelado porque a metade dos delegados participantes não está vacinada – e assim não poderia frequentar nem hotéis nem restaurantes. Mais ou menos como o nosso usurpador, que é obrigado a comer salame e pizza na rua. Em todas estas manifestações de arrogância estúpida lê-se o desprezo pela vida alheia, aliado a um sentimento de onipotência: “eu defino o significado de meus atos, que obedecem a minhas necessidades, e a de ninguém mais”. Em outras palavras: danem-se os outros. Como disse o usurpador em relação à Petrobras: “eu preciso me livrar dela”, como se ela fosse dele.

No filme de Tendler, a “Bolsa” oposta à “Vida” se estende à financeirização econômica do mundo em oposição aos múltiplos aspectos em que esta última se manifesta: biodiversidade, direitos humanos, proteção ambiental, e outros. Uma extensão do título nos leva ao caminho de que é necessário construir uma oposição ao caminho neofascista que o usurpador do Palácio do Planalto representa. Com a consciência de que ele não é apenas uma “anomalia brasileira” no “concerto das nações”. Ao contrário, ele é o sintoma local e grotesco de um “desconcerto” mundial que ameaça a sobrevivência da espécie humana.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

 

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