O dreno financeiro dos cartões de crédito

Imagem: cottonbro studio
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Por LADISLAU DOWBOR*

Visa e Mastercard não produzem nada, mas sugam bilhões: um oligopólio financeiro que infla preços e drena a economia real

1.

Sempre que você paga alguma coisa com um cartão, seja na modalidade crédito ou débito, você passa por um intermediário financeiro, que pode ser Visa, ou Mastercard ou outro. Quem paga por esse serviço? Quando você paga com dinheiro, por exemplo numa compra de 100 reais numa papelaria, do seu bolso saem 100 reais, e na papelaria entram 100.

Mas quando você paga com cartão, se você opta pelo pagamento com cartão, por exemplo na modalidade “crédito”, a empresa dona do cartão vai ficar com 5%, como ordem de grandeza, de sua compra. O que significa que a da sua conta saíram 100, mas na papelaria, com alguma demora, irão entrar 95 reais. Na modalidade “débito”, como ordem de grandeza, irão cobrar 2,5%.

Parece pouco, mas com custos muito reduzidos (quem trabalha são os algoritmos, e quem preenche na maquininha somos nós) e dezenas de milhões de operações com cartão a cada dia, as fortunas levantadas pelas operações dos cartões são gigantescas. A importância do Pix, é que permite desintermediar as relações, e o que você transfere para outra pessoa ou empresa é imediatamente recebido sem descontos.

Com o cartão, e as tarifas cobradas pela Visa, por exemplo, como o comerciante recebe menos, eleva os preços, e todos acabamos pagando mais pelos produtos. É uma forma de gerar inflação, não porque a economia “está aquecida” e outras bobagens inventadas para elevar a taxa Selic, mas porque os intermediários financeiros como Visa quiseram ganhar mais. Em inglês chamam de “profit-inflation”.

É interessante dar uma olhada em quanto ganham: a taxa de lucros da Visa, empresa americana, é da ordem de 55%, dos quais 57% são realizados fora dos Estados Unidos. Varia segundo os países, mas no conjunto é uma taxa de lucro absolutamente impressionante.

No caso brasileiro, com o que foi na prática a legalização da usura (agiotagem) no início de 2003, quando retiraram da Constituição o artigo 192, a Visa e outros cartões de crédito ganharam um bônus gigantesco: em junho 2025, a taxa de juros sobre pessoa física, no rotativo do cartão, está em 450,87%, quando nos países da OCDE em geral esta taxa varia de 17% a 21% ao ano.

Isso atinge essencialmente pessoas de renda baixa, quem tem dinheiro não vai recorrer a essas taxas absurdas. Isso eleva os lucros da Visa no Brasil muito além da média mundial. (Para ver as taxas de juros praticadas no Brasil, acesse ANEFAC/pesquisa de juros).

2.

Para nós, esses lucros são custos. Em vários países ou setores econômicos Visa foi processada, e paga multas bilionárias por fraudes de diversos tipos. Precisamos desse tipo de intermediários, na realidade “atravessadores”? O registro das fraudes pode ser encontrado simplesmente buscando por Visa na Wikipédia em inglês (em português é apenas um pequeno resumo).

O importante é que esses lucros imensos saem dos nossos bolsos, e favorecem empresas americanas que não produzem nada. É um dreno sobre nossas economias. O DeepSeek comenta que essas empresas como Visa e Mastercard “operam segundo o modelo de “pedágio” (toll booth) cobrando taxas sobre cada operação”.

Mas particularmente interessante é ver por sua vez para onde vão essas fortunas, que saem dos nossos bolsos, em pequenos volumes, mas atingindo milhões de pessoas, quase todo mundo. Novamente, o artigo da Wikipédia ajuda, apresenta os maiores acionistas da Visa em dezembro de 2023:

The Vanguard Group (8.94%); BlackRock (7.99%); State Street Corporation (4.64%); Fidelity Investments (3.26%); Morgan Stanley (3.26%); T. Rowe Price (2.85%); Geode Capital Management (2.15%); Bank of America (1.53%); AllianceBernstein (1.46%); Capital International Investors (1.45%).

O comentário do artigo na Wikipédia é que a “Visa é essencialmente propriedade de investidores institucionais, que são donos de mais de 95% das ações.” (Ver também dados em https://finance.yahoo.com/quote/V/holders/) As corporações citadas acima nada produzem, a sua atividade é de gestão de fortunas, asset management, ou gestão de ativos, parece mais “técnico”.

Para dar um exemplo, a BlackRock administra 12 trilhões de dólares, o dobro do orçamento federal dos Estados Unidos, administrado por Donald Trump. Alguma dúvida porque Donald Trump se interessa por derrubar o Pix e assegurar que fiquemos presos aos administradores financeiros americanos, que cobram o que querem, coisa que a situação de oligopólio permite, e com nosso dinheiro sendo drenado pelos maiores gestores de fortunas americanas? Quem explora quem aqui? E como o Banco Central permite essas taxas?

O dinheiro hoje é essencialmente virtual, um sinal magnético, e são os algoritmos que asseguram essa gestão, com custos baixíssimos, tanto assim que o sistema funciona bem com o Pix, sem gerar custos adicionais nem inflação. Enfrentamos um oligopólio de intermediários financeiros imposto pela política americana. Não precisamos disso.

*Ladislau Dowbor é professor titular de economia da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de A era do capital improdutivo (Autonomia Literária). [https://amzn.to/4lRoHfH]


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