O espírito da liberdade

Imagem: David Kouakou
image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

A desespiritualização é produto da “reificação”, que converte a relação entre pessoas numa relação entre coisas e corrói o espaço público

Christian Dunker, em Reinvenção da intimidade, considera “a perda da unidade do espírito uma forma de sofrimento”. A espiritualidade concorre para a unificação simbólica da família, do povo, da nação e da formação social-econômica. Os tópicos se encaixam no conceito de Zeitgeist (espírito do tempo), formulado por Johann Gottfried Herder, no século XVIII, ao designar o clima intelectual e cultural de uma época para abranger o conjunto significativo de manifestações socioindividuais.

Eugênio Bucci, no artigo “Divertimento e espírito artificial” – postado no site A Terra é Redonda – ensaia uma fenomenologia social da erosão espiritual, antes vocacionada à liberdade, que “se pulverizaria em individualidades infinitas” mediadas pela imagem e pela técnica. O entretenimento industrializado sintetiza a artificialização do espírito. A impressão pessimista chegaria até os movimentos sociais.

Mobilizações em prol da agenda dos trabalhadores no 1° de Maio, negros em repúdio à violência policial, mulheres na denúncia aos feminicídios e grupos LGBTs na afirmação do orgulho gay nas ruas emprestam, amiúde, a aparência contraditória ao conteúdo. A forma espetáculo da dialética de superação dos oprimidos sugere cooptação, às vezes, na perspectiva da Escola de Frankfurt. Muito porque Theodor Adorno tardou em amainar as críticas à arte cinematográfica e em admitir, nos anos 1960, o potencial emancipatório do cinema. Nem Charlie Chaplin escapou dessa bipolaridade.

A desespiritualização é produto da “reificação”, que converte a relação entre pessoas numa relação entre coisas. Na Miséria da filosofia, ao criticar economistas que faziam da quantidade de trabalho a única medida do valor, Karl Marx escreve: “Não se deve dizer que a hora de trabalho de um homem vale como a hora de outro homem, mas sim que um homem de uma hora vale como outro de uma hora. O tempo é tudo, o homem não vale nada; é no máximo cristalização do tempo”. A coisificação nasceu em Manchester; hoje, além do mundo do labor, figura nos padrões americanizados de lazer.

Georg Lukács, em História e consciência de classe, aprofunda a discussão sobre a universalização da mercadoria e a mercantilização de tudo e todos. O traço distintivo da totalidade capitalista, no plano objetivo e subjetivo, é a crescente atomização dos indivíduos. A teoria da reificação permite uma compreensão da passagem da “infraestrutura” à “superestrutura” da sociedade. O demônio não rouba almas a ninguém, exceto nos templos pentecostais. O capitalismo, sim, pega, mata e come.

 

Os cúmplices da barbárie

“O sentimento romântico de degradação, o spleen impressionista e a apatia pós-moderna são exemplos de sentimentos de dissolução do espírito”, observa Christian Dunker. Uma “depressão” enuncia o fracasso na corrida meritocrática, na fase neoliberal. Uma dedicação estafante à profissão de sucesso exprime a “mania”. Os primeiros são desprezados; os segundos são transformados em ícones do empreendedorismo. A moeda anímica é a mesma, com faces patológicas opostas. O atual espírito do tempo adéqua o sintoma maníaco à gramática da normalidade, na acepção dos yuppies.

Aquilo que sinalizava um compromisso ético com a liberdade em priscas eras, ora se expressa com o critério de rentabilidade e desempenho nos balanços das empresas e nos relatos de pacientes do campo Psi. No último decênio, a clivagem contábil deu a tônica nos governos da burguesia e se refletiu no sofrimento dos mais sensíveis, qual os poetas. Os ressentidos que ascenderam ao poder não rejeitam as desigualdades, mas o seu lugar na hierarquia da ordem social. O ódio que destilam dirige-se aos corajosos lutadores por direitos para romper a tradição de dominação e subordinação.

Entre nós, a governança fascista fez a apologia da liberdade para espelhar o interesse das finanças, a liberalização do trabalho, o extrativismo em terras indígenas e a reacionária primarização da nação pelo agronegócio para exportar commodities, não manufaturados. A ideologia do laissez-faire econômico orientou o simulacro de rebeldia nas pregações antidemocráticas, que inflamavam a horda robótica de viciados em redes sociais e fake news. A liberdade foi expulsa do bem comum.

Prova-o a rachadinha das multas de um milhão de reais, em São Paulo, pelas transgressões aos protocolos da saúde na pandemia, para propagar a estratégia criminosa e vil da “imunidade de rebanho”. A servidão voluntária ao tirano negacionista é um escárnio para com as crianças órfãs, dado o descaso com a vacinação viral e o isolamento social. Apesar dos suspeitos R$ 17 milhões arrecadados, o inelegível não liquidou a dívida – sonegar sempre soube. Como vulgar estelionatário, guardou para si a feria milionária numa atitude tão ilegal, quanto imoral. O montante do dinheiro devia atender uma ação pública, não o genocida. Corações envenenados endossam a desfaçatez.

A perda do espírito em escala internacional emergiu há quarenta anos, com os primeiros passos do neoliberalismo para conquistar a hegemonia. No “patropi” deu as caras em 1989, com a eleição de Fernando Collor – e a adesão escandalosamente militante do patriarca da Rede Globo. No mesmo período, veio à luz o Consenso de Washington com o mandamento dos ajustes fiscais antissociais, as privatizações, o arrocho salarial do funcionalismo e o desmonte impiedoso dos serviços públicos. Com Jair Bolsonaro e o Chicago boy Paulo Guedes, a destruição do espírito levou ao paroxismo.

 

Salvar os espaços públicos

“Os indivíduos se comportam na base do ‘significado’ que advém das interações sociais”, lê-se no Dicionário do pensamento social do século XX. O significado da “interação” é, um, elaborado em ambientes policlassistas; e é, outro, em ambientes monoclassistas onde compartilha-se valores semelhantes: renda, consumo, visão de futuro. A pluralidade é a apólice de seguro da democracia. O arianismo de classe, etnia, gênero, condição sexual ou credo religioso é uma pedagogia opressora.

Na França, a experiência em zonas para concentrar árabes, africanos ou asiáticos se revelou um desastre. Implicou na guetificação étnica, bloqueou a integração sociocultural e estigmatizou os imigrantes. A extrema direita explora o erro. A opção arquitetônica não fomentou uma identidade nacional, senão que estimulou a eclosão de conflitos inter-raciais. No Brasil, o divisor tem um perfil de classe e cor, na periferia urbana ou no condomínio fechado que surgiu na ditadura militar, em 1973. A origem do bunker de classe média é sintomática. Representou um recolhimento intramuros da “gente de bem” para não ver o mal (prisão arbitrária, tortura, censura) do “milagre econômico”. Christian Dunker inclui a ideia escapista no rol da “patologia do individualismo à brasileira”.

Para Michael Sandel, painelista da 17° temporada do Fronteiras do Pensamento: “Precisamos apoiar os espaços públicos que juntam pessoas de origens diversas. A ida ao estádio trazia a experiência da mistura de classes. Alguns assentos custavam mais caros, mas o ingresso era acessível. Em termos metafóricos, quando chovia todos se molhavam. A conjuntura mudou. Agora, renda baixa não entra. Já não é verdade que, quando chove, todos se molham”. Os “camarotes” untam a aristocracia da velha “casa grande”, à parte da paixão popular, e o viés colonialista (racista) e patriarcal (sexista).

Socialmente, os rolezinhos nos shopping centers – transcorrem em locais republicanos, em tese, embora reservas de “distinção social” na ausência dos títulos nobiliárquicos. Rolés nas “cavernas modernas” (José Saramago), denunciam a aversão aos pobres (aporofobia) e a proibição do direito de ir e vir em uma sociedade segregacionista. Politicamente, a participação na esfera pública do Plano Plurianual Participativo, do governo Lula, oportuniza a deliberação de políticas cidadãs. A mídia corporativa faz vistas grossas para não legitimar as novas ágoras de interação ativa e criativa. O propósito do governo federal é reforçar o “princípio esperança” do povo, na órbita pública.

Nota triste. A cidade cantada em versos por Mario Quintana e sede do Fórum Social Mundial, Porto Alegre, por ora é administrada do jeito mais predatório na terra brasilis. O prefeito (MDB) – quem viu, quem vê – tem por vocação o extermínio. Autorizou o corte de centenas de árvores no Parque Harmonia para fazer estacionamento e avança com um projeto de repasse de estruturas do Parque Farroupilha (Redenção) à iniciativa privada, por trinta longos anos. Injetou a necropolítica do capitalismo, na natureza. Temeu efeitos conscientizadores do convívio plural nos espaços públicos verdes. Governante que não governa, entrega o controle do patrimônio ambiental ao lucro imediato da iniciativa privada. Só falta a fogueira para queimar o espírito da liberdade e, junto, da igualdade.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES