As ilusões telemáticas

Imagem: ThisIsEngineering
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIZ MARQUES*

As tecnologias substituíram a consulta sobre os interesses da cidadania e do Estado de bem-estar social pela euforia, à revelia da vontade da população que jamais foi ouvida

“Fique claro: a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como maneiras fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade. O saber oral e os gêneros de conhecimento fundados na escrita ainda existem e vão continuar existindo sempre”, avisa Pierre Lévy, em As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. O livro foi traduzido do francês para o português, e publicado pela Editora 34 em 1993; há exatos trinta anos. O ilustre tunisiano estudou temas que ora ganham ares de novidade. A distância permite comparar as expectativas utópicas sobre a webesfera, no amanhecer, com o seu inegável acomodamento sistêmico no entardecer.

O professor, estabelecido na Universidade de Montreal, tinha consciência de que a técnica encontra-se mergulhada na teia de coletivos humanos, não tirou as implicações para a sociedade de classes. Interpretou avanços tecnológicos teleologicamente, como se obedecessem a uma finalidade preestabelecida. Entre a última década do século XX e as primeiras do século XXI, pairava uma incógnita sobre o papel das nascentes megaempresas do Vale do Silício (Adobe Systems, Apple, Yahoo, Microsoft, Intel, Google, Facebook, Netflix etc.). Não se adivinhava o tamanho do vagalhão tecnocientífico, que desde então não seria excluído do cenário político-econômico internacional.

Reflexões tradicionais sobre o conhecimento, em períodos estáveis das comunicações, cederam às modificações sociotécnicas na feição do ser das pessoas, sem um escrutínio democrático prévio. Substituíram a consulta sobre os interesses da cidadania e do Estado de bem-estar social pela euforia, à revelia da vontade da população que jamais foi ouvida. Quem decidiu que os cobradores de ônibus fossem trocados pela bilhetagem automatizada, de costas para o ônus social? E quem aboliu os livros impressos das escolas para introduzir os tablets? As incipientes e, sim, autoritárias ilusões telemáticas sofreram a metamorfose kafkiana para assombrar a democracia em crise hoje.

Perceber o real

No princípio do século XX, os filósofos problematizaram a “ontologia da técnica” que acelerou o desenvolvimento. Os literatos escreveram romances sobre a independentização das máquinas. Em 1938, o programa de rádio “A guerra dos mundos” provocou o pânico com o simulacro de uma invasão extraterrestre, nos Estados Unidos. Em 1945, as bombas atômicas atiradas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, aumentaram a sensação de que o terror adquiria vida própria para ameaçar o Homo sapiens. A filmografia acerca do furto de fórmulas científicas para construção de explosivos nucleares, capazes de provocar destruição em massa, lota ainda as salas de cinema com suspense.

Agora, porém, o espantalho metafísico é a cibercultura que inova o modo de pensar e conviver no reino das telecomunicações. As relações sociais, o trabalho e a inteligência artificial para cumprir tarefas em diagnósticos médicos, avaliações nas bolsas de valores e nos sites de relacionamento estão submetidas à informática. A cognição por simulação dita os desejos, em um ambiente movido por dados e informações para orientar o comportamento e manipular os afetos. É como se o sujeito transcendental invariável e a-histórico, de Kant, responsável pela estruturação da percepção do mundo, tivesse reencarnado nos nerds da computação para guiar-nos pelo continente dos bytes.

As técnicas integram a nossa forma de perceber o real. Foi assim com o telégrafo, o aposentado telefone convencional, e o é com o celular onipresente e onisciente atualmente. O caleidoscópio da realidade e as estratégias para intervir na imagem das coisas mudam padrões outrora sólidos. O tecnicismo reinventa o estilo da humanidade com regulamentações inéditas do social. O devir da cultura contemporânea não pode ignorar a estridente incidência dos audiovisuais (a partir do pós-guerra) e dos computadores (a partir dos anos setenta). As redes sociais são bunkers de autodefesa para proteger os que se sentem perdidos no emaranhado de aparições eletrônicas. Compreende-se a atração ideológica pelo medievalismo reacionário da extrema direita, nas faixas etárias dos idosos.

Os verdes anos

Há cinco mil anos a educação baseia-se no ato de falar do mestre e, há cinco séculos, no uso embora moderado da impressão portátil. Não se muda isso de uma hora para outra. O resultado da corrida computacional é desastroso para o processo ensino-aprendizagem. A célere colonização dos Estados nacionais pela Big Tech pressiona alterações na ecologia cognitiva, em nome dos modernos cânones de transmissão do saber, sem discussão na comunidade escolar. A desonestidade cava os espaços.

O fetiche da modernização impõe um novo habitus cultural, como panaceia. Se não funciona, ao menos serve para vender os computers que, rápido, viram obsoletos frente a modelos superiores. O livre mercado, entendido como fator do crescimento individual e coletivo, transfere-se aos cálculos matemáticos que não contabilizam as ruínas e os perdedores, jogados para trás do “progresso”. A informatização não universaliza os direitos. Não materializa o sonho jacobino igualitário, nas telas.

A revolução tecnicista aponta o giro copernicano, do analógico, ao ideal absolutista do hipertexto. Com o que reatualiza um questionamento. Em que medida, projetos e atores singulares conseguirão desviar de seu destino a força centrípeta das redes, para as quais convergem progressivamente a informática, as telecomunicações, a edição, a televisão, o cinema e a produção musical? Poderemos lançar-nos nela à procura de outras razões que não as do lucro, outras belezas que não as do espetáculo? Nos verdes anos, chegou-se especular o advento de um delirante “socialismo digital”. Três decênios após as incursões primevas das tecnologias intelectuais, a esperança se esvai. Apesar de que, conforme assinala o poema de Bertolt Brecht: “O ventre donde isto saiu, ainda, é fecundo”.

Um erro comum

A tecnociência é um instrumento de poder financiado pelos poderosos, conquanto os internautas ao navegar pela web possam ter, com frequência, a cálida sensação de uma liberdade; a rigor, falsa. Na verdade, a lógica da dominação e da subordinação não é eliminada do cotidiano, senão que se sofistica para implementar os algoritmos da machine learning (inteligência artificial). A exploração oculta-se na “infocracia” (Byung-Chul Han), no “capitalismo de vigilância” (Shoshana Zuboff). As comunidades em conexão encenam no palco do teatro a pseudo igualdade socialista – inexistente.

O jovem Pierre Lévy cometeu o erro dos debutantes sobre as possibilidades latentes da cibercultura. A tecnociência fora dos conflitos e diferentes interpretações, em segmentos do capital e do trabalho, é uma fantasia. Não à toa, a cinebiografia homônima de Steve Jobs acena com uma promessa de emancipação, no labirinto da cibernética, apresentando-o quase como um anarquista ao revés de fundador da gigantesca corporação capitalista, a Apple. Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (Tesla, X) e Mark Zuckerberg (Facebook) exprimem o neoliberalismo, sem uma maquiagem libertária. Com licença para voos na estratosfera, a fim de sacudir o tédio com a bruta mundanidade dos comuns.

“Para tornar-se tecnodemocracia, não falta à tecnopolítica nada além de transcorrer também na cena pública, onde os atores são cidadãos iguais, e onde a razão do mais forte nem sempre prevalece”, acautela Pierre Lévy, que enlaça democracia e técnica em prol da “tecnodemocracia”. Qualquer crítica soa anacrônica. À época, a especulação era corrente nos que priorizavam a tecnologia, e não a luta de classes, para a configuração do cosmo-polités, o cidadão cosmopolita. Com boa vontade, incluíam no livre cosmopolitismo as mulheres, negros, florestas, mares e astros. Contudo, na fase neoliberal do capitalismo, a “liberdade” não alcança o universo; restringe-se aos donos do capital.

Que fazer? Mobilizar a sociedade civil em apoio à regulação da internet contra as fake news. É preciso uma legislação mundial para equacionar democraticamente o problema, através de balizas civilizacionais consensuadas. O presidente Lula busca envolver o G-20 na luta. Conter o sofrimento que essas máquinas podem acarretar às nações e aos indivíduos é o incontornável desafio, em 2024.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Marcelo Guimarães Lima Francisco Fernandes Ladeira Ronald Rocha Lorenzo Vitral Paulo Nogueira Batista Jr Ronaldo Tadeu de Souza Marilia Pacheco Fiorillo Vinício Carrilho Martinez Osvaldo Coggiola Ari Marcelo Solon Luiz Roberto Alves Samuel Kilsztajn Valerio Arcary Dennis Oliveira Andrés del Río Maria Rita Kehl Thomas Piketty Marjorie C. Marona Luiz Bernardo Pericás Priscila Figueiredo Gerson Almeida José Raimundo Trindade Boaventura de Sousa Santos Antônio Sales Rios Neto Paulo Capel Narvai Tadeu Valadares João Carlos Salles Alexandre de Lima Castro Tranjan Francisco Pereira de Farias Ronald León Núñez Juarez Guimarães Walnice Nogueira Galvão Ricardo Musse Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Werneck Vianna Eugênio Trivinho Gilberto Lopes Michael Roberts Sergio Amadeu da Silveira Dênis de Moraes Vanderlei Tenório Eleutério F. S. Prado Anselm Jappe Antonio Martins Jorge Branco Michel Goulart da Silva Marcos Aurélio da Silva Claudio Katz Manuel Domingos Neto Manchetômetro José Machado Moita Neto Kátia Gerab Baggio Annateresa Fabris Luiz Marques Tales Ab'Sáber Berenice Bento Benicio Viero Schmidt Fábio Konder Comparato Milton Pinheiro Caio Bugiato Chico Whitaker Marcos Silva Ladislau Dowbor Bento Prado Jr. Lincoln Secco Lucas Fiaschetti Estevez André Singer Elias Jabbour Luís Fernando Vitagliano Flávio R. Kothe Everaldo de Oliveira Andrade Plínio de Arruda Sampaio Jr. Henri Acselrad Leonardo Avritzer José Luís Fiori Igor Felippe Santos Jean Pierre Chauvin Afrânio Catani Paulo Fernandes Silveira José Geraldo Couto Ricardo Abramovay Daniel Costa Slavoj Žižek Luiz Eduardo Soares Alysson Leandro Mascaro Rubens Pinto Lyra Bruno Machado Eliziário Andrade João Adolfo Hansen Henry Burnett Eugênio Bucci Valerio Arcary Chico Alencar Leda Maria Paulani Marcus Ianoni Michael Löwy Carlos Tautz Eduardo Borges Jean Marc Von Der Weid Salem Nasser Francisco de Oliveira Barros Júnior Marcelo Módolo Tarso Genro Mário Maestri João Feres Júnior José Costa Júnior Eleonora Albano Paulo Sérgio Pinheiro Luis Felipe Miguel Alexandre Aragão de Albuquerque André Márcio Neves Soares Renato Dagnino Érico Andrade Daniel Afonso da Silva Daniel Brazil Antonino Infranca Leonardo Boff Luiz Renato Martins Armando Boito Luciano Nascimento Heraldo Campos Rafael R. Ioris João Carlos Loebens Gilberto Maringoni Remy José Fontana José Dirceu Jorge Luiz Souto Maior Liszt Vieira Ricardo Antunes José Micaelson Lacerda Morais João Sette Whitaker Ferreira Leonardo Sacramento Gabriel Cohn Luiz Carlos Bresser-Pereira Otaviano Helene João Paulo Ayub Fonseca Bruno Fabricio Alcebino da Silva Fernando Nogueira da Costa Paulo Martins Andrew Korybko Matheus Silveira de Souza Rodrigo de Faria Denilson Cordeiro Julian Rodrigues Atilio A. Boron Fernão Pessoa Ramos Marilena Chauí Ricardo Fabbrini João Lanari Bo Airton Paschoa Flávio Aguiar Bernardo Ricupero Carla Teixeira Celso Frederico Celso Favaretto Anderson Alves Esteves Yuri Martins-Fontes Vladimir Safatle Mariarosaria Fabris Sandra Bitencourt

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada